Mapa de questões · 2º dia
Questão 126 — ENEM 2016 PPL
Maria Diamba
Para não apanhar mais falou que sabia fazer bolos: virou cozinha. Foi outras coisas para que tinha jeito. Não falou mais: Viram que sabia fazer tudo, até molecas para a Casa-Grande. Depois falou só, só diante da ventania que ainda vem do Sudão; falou que queria fugir dos senhores e das judiarias deste mundo para o sumidouro.
LIMA, J. Poemas negros . Rio de Janeiro: Record, 2007.
O poema de Jorge de Lima sintetiza o percurso de vida de Maria Diamba e sua reação ao sistema opressivo da escravidão. A resistência dessa figura feminina é assinalada no texto pela relação que se faz entre
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de poesia afro-brasileira e literatura de resistência
- ⚡ Nível: Médio — o poema é extremamente sintético e elíptico, exigindo que o leitor reconstrua o percurso de vida da personagem a partir de poucos verbos e conecte forma (repetição da fala) a sentido (resistência)
- 🎯 Tema/Habilidade: Relações entre linguagem, silêncio e resistência na literatura sobre a escravidão; leitura de recursos expressivos (repetição/gradação) a serviço da construção de sentido
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual par de elementos do poema evidencia a resistência de Maria Diamba diante do sistema escravista?"
- Palavras-chave decisivas: resistência, figura feminina, relação que se faz entre
- Armadilha típica: confundir elementos concretos citados no poema (a cozinha, o vento, o medo) com o eixo real de resistência, que é o controle que Maria Diamba exerce sobre sua própria fala — quando fala, para quem fala e o que decide dizer
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o verbo "falar", repetido em gradação ao longo do poema, é o fio condutor que revela a passagem de uma fala instrumental (sobrevivência) para uma fala de autoafirmação (o desejo de decidir seu próprio destino)
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Literatura de resistência/afro-brasileira: vertente poética que tematiza a experiência da escravidão buscando dar relevo à voz, à subjetividade e à agência de sujeitos historicamente silenciados pelo sistema colonial-escravista.
- Repetição lexical como estrutura de sentido: a reiteração do verbo "falar" (e sua negação, "não falou mais") não é decorativa — ela organiza o poema em fases e sinaliza a transformação da personagem.
- Elipse e condensação poética: cada verso resume um período da vida de Maria Diamba; a economia de palavras exige que o leitor infira o contexto (violência física, trabalho doméstico, origem africana) a partir de poucos indícios.
- Contexto histórico da escravidão: relação de poder entre "senhores" e escravizados, punição física ("apanhar"), trabalho doméstico na "Casa-Grande" e a memória da terra de origem (Sudão) como pano de fundo do poema.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Para não apanhar mais falou que sabia fazer bolos: virou cozinha." → a fala é usada estrategicamente como instrumento de sobrevivência diante da violência física — Maria Diamba fala para se proteger.
- Evidência 2: "Foi outras coisas para que tinha jeito. Não falou mais" → a fala continua sendo usada para negociar sua posição ("outras coisas"), até que ela escolhe o silêncio diante dos senhores — o silêncio, aqui, também é uma forma ativa de controle sobre si mesma.
- Evidência 3: "Depois falou só, só diante da ventania que ainda vem do Sudão; falou que queria fugir dos senhores e das judiarias deste mundo para o sumidouro." → no único espaço sem plateia humana — diante do vento, que remete simbolicamente à sua origem africana —, ela finalmente verbaliza seu desejo mais genuíno: fugir, escapar, decidir por conta própria o rumo de sua vida.
- Síntese: O poema é construído sobre uma curva verbal — falar para sobreviver, calar-se diante dos senhores, falar em segredo o desejo de fuga — e é exatamente essa gradação da fala que revela a resistência de Maria Diamba: ela não é passiva diante da opressão, mas usa a palavra (e o silêncio) como ferramenta para tentar reconquistar o poder de decidir seu próprio destino.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapeando as ocorrências do verbo "falar"
O poema tem apenas seis versos curtos, mas o verbo "falar" aparece quatro vezes, sempre marcando uma virada na vida da personagem: (1) "falou que sabia fazer bolos" — para não apanhar; (2) implícito em "foi outras coisas para que tinha jeito" — a fala segue negociando novas funções; (3) "Não falou mais" — o silêncio como resposta madura diante da submissão total exigida ("até molecas para a Casa-Grande"); (4) "falou só, só diante da ventania... falou que queria fugir". Essa insistência não é estilística gratuita: é o eixo estrutural do poema.
Subpasso 4.2 — Interpretando a curva narrativa
No início, a fala de Maria Diamba é reativa: ela fala para evitar castigo físico. Em seguida, a fala é estratégica: ela se oferece para outras tarefas, ampliando seu espaço de manobra dentro do cativeiro. Depois vem o silêncio diante dos senhores — ela deixa de falar quando percebe que sua utilidade será explorada ao limite ("sabia fazer tudo, até molecas"). Por fim, em um espaço de intimidade absoluta (sozinha, diante do vento), sua fala se liberta da função de sobrevivência e passa a expressar um projeto próprio: fugir dos senhores e das injustiças ("judiarias") deste mundo. O "sumidouro" para onde ela deseja fugir é ambíguo — pode ser a fuga física, o desaparecimento ou até a morte —, mas em qualquer leitura trata-se de uma escolha dela, não uma imposição alheia.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando a curva da fala (de instrumento de sobrevivência a expressão de um desejo autêntico) com o desfecho do poema ("queria fugir... para o sumidouro" — ou seja, ela quer decidir o que fazer da própria vida, inclusive escapando do controle dos senhores), confirma-se que a resistência da personagem está assinalada pela relação entre o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino. Essa é exatamente a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
✅ Correta: o poema é estruturado pela repetição do verbo "falar" em progressão — da fala que evita o castigo à fala que, em segredo, declara o desejo de fugir dos senhores. É essa articulação entre "ter voz" (mesmo que estrategicamente) e "querer decidir seu destino" (fugir, escapar do controle alheio) que constitui o núcleo de resistência da personagem.
B) a exploração sexual e a geração de novas escravas.
❌ Incorreta: embora a exploração sexual de mulheres escravizadas seja um fato histórico documentado, o poema não menciona esse tema em nenhum verso. A alternativa importa um dado do contexto histórico geral da escravidão que não está presente no texto — é uma inferência externa, não uma leitura do poema.
C) a prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente.
❌ Incorreta: o poema de fato menciona que ela "virou cozinha", mas isso ocorre "para não apanhar mais" — é uma tática de sobrevivência diante da violência, não um projeto de ascensão social. Nada no texto indica desejo de melhorar de posição dentro da hierarquia escravista; ao contrário, o desfecho do poema mostra o desejo de fugir dela, não de subir nela.
D) o prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África.
❌ Incorreta: a "ventania que ainda vem do Sudão" funciona como a única "testemunha" de sua fala verdadeira, não como fonte de prazer sensorial. Além disso, o poema não afirma que ela deseja voltar à África: seu desejo explícito é fugir dos senhores e das injustiças "para o sumidouro", um destino incerto, e não um retorno geográfico à terra natal.
E) o medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.
❌ Incorreta: o poema não expressa medo da morte — pelo contrário, o "sumidouro" sugere que ela está disposta a arriscar tudo, inclusive desaparecer, como forma de escapar da opressão. Essa alternativa também ignora o elemento central da questão (a fala), concentrando-se apenas no desfecho e distorcendo seu sentido ao trocar "desejo de decidir o destino" por "medo".
🏆 Gabarito: A — apenas essa alternativa articula corretamente os dois elementos que sustentam a resistência de Maria Diamba: a fala, usada como estratégia de sobrevivência e depois como veículo de autoafirmação, e o desejo final de decidir por si mesma seu destino, fugindo do controle dos senhores.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A conecta um recurso formal do poema (a repetição estruturante do verbo "falar") a um conteúdo temático (a busca por autodeterminação); todas as demais alternativas citam elementos reais do texto, mas atribuem a eles sentidos que o poema não sustenta.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poesia engajada e afro-brasileira (Jorge de Lima, Castro Alves, Cruz e Sousa, Solano Trindade) associada a temas de memória, identidade e resistência à escravidão — sempre pedindo que o candidato relacione forma poética e crítica social.
- Generalização: em questões sobre poesia social, procure primeiro o recurso formal que estrutura o texto (repetição, gradação, contraste) e só depois associe esse recurso ao tema; a alternativa correta costuma ser a que une "como o texto é construído" a "o que o texto defende".
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas que mencionam um elemento concreto do texto (cozinha, vento, medo) mas o conectam a uma consequência não confirmada por nenhum verso (ascensão social, prazer, retorno à África, medo da morte) — volte sempre ao texto para checar se a relação proposta está de fato escrita ali.
- Conexões: compare com outros poemas de Jorge de Lima sobre a escravidão, como "Essa Negra Fulô", e com a poesia de Solano Trindade e Cruz e Sousa, que também tematizam a voz e o silêncio como formas de resistência negra na literatura brasileira.
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