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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 115ENEM 2016 PPL

Chegou de Montes Claros uma irmã da nora de tia Clarinha e foi visitar tia Agostinha no Jogo da Bola. Ela é bonita, simpática e veste-se muito bem. [...] Ficaram todas as tias admiradas da beleza da moça e de seus modos políticos de conversar. Falava explicado e tudo muito correto. Dizia “você” em vez de “ocê”. Palavra que eu nunca tinha visto ninguém falar tão bem; tudo como se escreve sem engolir um s nem um r. Tia Agostinha mandou vir uma bandeja de uvas e lhe perguntou se ela gostava de uvas. Ela respondeu: “Aprecio sobremaneira um cacho de uvas, Dona Agostinha.” Estas palavras nos fizeram ficar de queixo caído. Depois ela foi passear com outras e Iaiá aproveitou para lhe fazer elogios e comparar conosco. Ela dizia: “Vocês não tiveram inveja de ver uma moça [...] falar tão bonito como ela? Vocês devem aproveitar a companhia dela para aprenderem”. [...] Na hora do jantar eu e as primas começamos a dizer, para enfezar Iaiá: “Aprecio sobremaneira as batatas fritas”, “Aprecio sobremaneira uma coxa de galinha”.

MORLEY, H. Minha vida de menina : cadernos de uma menina provinciana nos fins do século XIX. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

Nesse texto, no que diz respeito ao vocabulário empregado pela moça de Montes Claros, a narradora expõe uma visão indicativa de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto (tom do narrador, ironia e variação de registro linguístico)
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta óbvia à primeira vista (admiração) é uma armadilha; só a leitura completa do desfecho revela a real intenção da narradora
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de efeitos de sentido (ironia) construídos pela repetição intencional de um recurso linguístico em contexto diverso do original
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que atitude a narradora revela, por meio do modo como trata o vocabulário da moça, ao longo de todo o relato?"
  • Palavras-chave decisivas: vocabulário empregado pela moça, a narradora expõe, visão indicativa de
  • Armadilha típica: parar na primeira parte do texto — em que as tias ficam "de queixo caído" e claramente admiradas — e marcar a alternativa da admiração sem verificar o que a narradora e as primas fazem depois, no jantar.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o texto tem duas camadas de reação — o encantamento das personagens adultas (tias e Iaiá) e o gesto final da narradora e das primas, que é de outra natureza.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Registro linguístico: grau de formalidade adequado a cada situação de fala. A moça de Montes Claros emprega um registro hiperformal ("Aprecio sobremaneira") mesmo em contextos corriqueiros, como aceitar uvas em uma visita informal.
  • Ironia: estratégia discursiva em que se produz um sentido que diverge do literal, normalmente por meio de um contraste proposital entre forma (como se diz) e conteúdo/contexto (o que se diz e onde se diz), gerando efeito crítico ou cômico.
  • Paralelismo estrutural com deslocamento de sentido: repetir a mesma construção sintática ("Aprecio sobremaneira + substantivo") trocando o termo por algo trivial é um recurso clássico de paródia — o molde formal permanece, mas o conteúdo banal desmonta a solenidade original.
  • Narrador-personagem e focalização: o relato é em 1ª pessoa; a narradora não é neutra, ela participa da cena e reage aos fatos — por isso sua atitude não se confunde com a das outras personagens (tias, Iaiá).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "'Aprecio sobremaneira um cacho de uvas, Dona Agostinha.'" → a fala da moça já é desproporcionalmente solene para o pedido trivial (gostar de uvas), plantando o contraste cômico que o texto vai explorar.
  • Evidência 2: "Vocês devem aproveitar a companhia dela para aprenderem" → é a fala de Iaiá, comparando desfavoravelmente a narradora e as primas à moça e cobrando delas essa "elegância" de fala — é isso que gera a irritação subsequente.
  • Evidência 3: "começamos a dizer, para enfezar Iaiá: 'Aprecio sobremaneira as batatas fritas', 'Aprecio sobremaneira uma coxa de galinha'." → a expressão "para enfezar Iaiá" é a chave da questão: revela a intenção explícita de provocar, não de elogiar ou imitar com respeito.
  • Síntese: a narradora e as primas pegam exatamente a fórmula formal que impressionara as tias e a aplicam a "batata frita" e "coxa de galinha" — alimentos comuns de um jantar em família. Esse deslocamento do vocabulário empolado para uma situação doméstica e informal é o que transforma o recurso em zombaria: a formalidade que antes provocou admiração vira, na voz da narradora, motivo de riso.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear as duas reações presentes no texto

O texto apresenta uma progressão de reações à fala da moça. Primeiro, as tias (personagens adultas, exteriores à voz da narradora) ficam admiradas e "de queixo caído" com a correção e a elegância do português falado pela visitante. Essa é a reação das personagens, não necessariamente da narradora. Iaiá vai além: usa essa admiração para repreender a narradora e as primas, incentivando-as a "aprender" com a moça — o que soa como cobrança e comparação desfavorável.

Subpasso 4.2 — Identificar a reação específica da narradora

A narradora só revela sua própria posição no último parágrafo, quando ela e as primas resolvem repetir a expressão "Aprecio sobremaneira" — só que trocando "um cacho de uvas" por "batatas fritas" e "uma coxa de galinha". O verbo que introduz essa ação é decisivo: elas fazem isso "para enfezar Iaiá", ou seja, com intenção de provocar e irritar, não de imitar com admiração ou de aprender a "falar bonito" como Iaiá sugerira.

Subpasso 4.3 — Verificação: por que isso é ironia

Ao aplicar a fórmula solene da moça a itens banais do jantar familiar, a narradora e as primas expõem o exagero e a artificialidade daquele modo de falar — o mesmo vocabulário que, no salão de visitas, soava elegante, no jantar de casa soa ridículo e engraçado. Esse é o mecanismo clássico da ironia: incorporar o discurso alheio (aqui, o vocabulário formal) e recolocá-lo em um contexto para o qual ele não foi feito (a mesa de jantar em família), produzindo um efeito de crítica velada por meio do humor. Isso confirma a alternativa que fala em "ironia" por "incorporar o vocabulário formal da moça na situação familiar".

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) descaso, uma vez que desaprova o uso formal da língua empregado pela moça.

❌ Incorreta: descaso significa indiferença, desatenção — mas a narradora não ignora nem trata com desdém o vocabulário da moça; pelo contrário, ela o registra com precisão e o reutiliza de propósito. Reproduzir deliberadamente uma fala para gerar efeito cômico é engajamento crítico ativo, não descaso.

B) ironia, uma vez que incorpora o vocabulário formal da moça na situação familiar.

✅ Correta: a narradora repete a estrutura "Aprecio sobremaneira" — marca do registro formal da moça — aplicando-a a "batatas fritas" e "coxa de galinha" no jantar de família, contexto tipicamente informal. Esse deslocamento proposital, feito "para enfezar Iaiá", cria o contraste entre forma solene e conteúdo trivial que caracteriza a ironia.

C) admiração, pelo fato de deleitar-se com o vocabulário empregado pela moça.

❌ Incorreta: quem se admira abertamente são as tias ("ficaram admiradas") e Iaiá (que cobra imitação); a narradora, ao final, faz o oposto de admirar — ela zomba da fala ao aplicá-la a um contexto incongruente, evidenciando que não está encantada, e sim incomodada com a cobrança de Iaiá.

D) antipatia, pelo fato de cobiçar os elogios de Iaiá sobre a moça.

❌ Incorreta: não há no texto qualquer indício de que a narradora e as primas desejem receber os elogios que Iaiá destinou à moça; ao contrário, a reação delas é de irritação com Iaiá, não de inveja ou desejo de serem elogiadas da mesma forma.

E) indignação, uma vez que contesta as atitudes da moça.

❌ Incorreta: a narradora não confronta nem critica diretamente a moça ou seu comportamento; o alvo da provocação é Iaiá ("para enfezar Iaiá"), e o meio usado é o deboche bem-humorado, não a indignação, que supõe revolta ou reprovação séria.

🏆 Gabarito: B — a repetição proposital de "Aprecio sobremaneira" aplicada a alimentos triviais do jantar em família, com o fim explícito de "enfezar Iaiá", caracteriza incorporação irônica do vocabulário formal da moça em situação familiar.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra B explica coerentemente por que a narradora usa a mesma expressão da moça em um contexto deliberadamente incongruente (comida de jantar) e com finalidade declarada de provocação ("para enfezar Iaiá") — isso é a definição textual de ironia por incorporação de discurso alheio.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa crônicas, memórias e textos literários curtos para testar se o candidato distingue o ponto de vista das personagens do ponto de vista do narrador, especialmente quando há humor, ironia ou crítica social envolvidos.
  • Generalização: em textos narrativos, nunca conclua a atitude do narrador pela reação das outras personagens; busque sempre a ação ou fala final do próprio narrador — é ali que a intenção real do texto costuma se revelar.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que descrevem sentimentos fortes e diretos sem verbo de intenção correspondente no texto (indignação, antipatia, descaso) — quando o texto traz uma expressão de intenção explícita como "para enfezar", ela quase sempre aponta para ironia ou zombaria, não para emoções sérias.
  • Conexões: o mesmo raciocínio se aplica a questões sobre humor, sátira e paródia em crônicas, e a questões de variação linguística que opõem registro formal e informal como fonte de efeito de sentido.

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