Mapa de questões · 1º dia
Questão 86 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
Na antiga Vila de São José del Rei, a atual cidade de Tiradentes (MG), na primeira metade do século XVIII, mais de cinco mil escravos trabalhavam na mineração aurífera. Construíram sua capela, dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Na fachada, colocaram um oratório com a imagem de São Benedito. A comunidade do século XVIII era organizada mediante a cor, por isso cada grupo tinha sua irmandade: a dos brancos, dos crioulos, dos mulatos, dos pardos. Em cada localidade se construía uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Com a decadência da mineração, a população negra foi levada para arraiais com atividades lucrativas diversas. Eles se foram e ficou a igreja. Mas, hoje, está sendo resgatada a festa do Rosário e o Terno de Congado.
CRUZ, L. Fé e identidade cultural. Disponível em: www.revistadehistoria.com.br.
Acesso em: 4 jul. 2012.
Na lógica analisada, as duas festividades retomadas recentemente, na cidade mineira de Tiradentes, têm como propósito
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Cultura afro-brasileira, escravidão e patrimônio cultural
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto histórico específico (irmandades religiosas negras em Minas Gerais) com o conceito mais amplo de patrimônio e identidade afrodescendente, sem que a resposta esteja "na cara" do enunciado
- 🎯 Tema/Habilidade: Religiosidade negra e resistência cultural no Brasil colonial e sua ressignificação contemporânea (Competência de área 5 — analisar processos de ocupação e produção cultural no espaço/tempo)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que, hoje em dia, a comunidade de Tiradentes está resgatando a Festa do Rosário e o Terno de Congado?"
- Palavras-chave decisivas: irmandade, população negra, Congado
- Armadilha típica: confundir "igreja católica" e "veneração a santos" com uma celebração puramente católica/colonial (alternativa B), ignorando que a estrutura das irmandades de cor foi criada pelos próprios escravizados e libertos como espaço de organização, autonomia e afirmação identitária dentro da sociedade colonial
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende a diferença entre a forma católica (irmandade, capela, santo) e o conteúdo histórico-social daquela prática — uma estratégia de afirmação da cultura e da identidade da população negra escravizada e livre
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Irmandades religiosas de cor: associações leigas católicas organizadas por grupos étnico-sociais (brancos, crioulos, mulatos, pardos) no Brasil colonial. Para a população negra, funcionavam como espaço legítimo de sociabilidade, ajuda mútua, alforria coletiva e preservação de referências culturais africanas dentro dos limites permitidos pela sociedade escravista.
- Sincretismo religioso afro-católico: processo pelo qual escravizados africanos reinterpretaram santos católicos (como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário) à luz de suas próprias cosmologias, criando uma religiosidade híbrida que servia de veículo de expressão cultural africana sob a fachada aceitável do catolicismo.
- Congado (ou Congada): manifestação cultural afro-brasileira que combina música, dança, cortejo e devoção, associada historicamente às irmandades de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, remetendo a rituais de coroação de reis e rainhas do Congo — memória da organização social africana transplantada e recriada no Brasil.
- Patrimônio cultural imaterial e resgate identitário: o "resgate" citado no texto se refere a um movimento contemporâneo de reconhecimento e valorização de práticas culturais historicamente marginalizadas, associado à luta por reparação simbólica e afirmação da identidade afrodescendente, especialmente reforçado após a Lei 10.639/2003 e as políticas de patrimonialização (IPHAN) de bens de matriz africana.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "mais de cinco mil escravos trabalhavam na mineração aurífera. Construíram sua capela [...] cada grupo tinha sua irmandade" → revela que a igreja e a irmandade não foram impostas de fora: foram construídas e organizadas pela própria população negra, como espaço próprio dentro da lógica de segregação por cor da sociedade colonial.
- Evidência 2: "Com a decadência da mineração, a população negra foi levada [...] Eles se foram e ficou a igreja. Mas, hoje, está sendo resgatada a festa do Rosário e o Terno de Congado" → mostra que, mesmo depois da dispersão física da comunidade negra original, a memória cultural ligada àquele espaço permaneceu viva e está sendo deliberadamente reativada no presente — um gesto de retomada, não de mera preservação arquitetônica.
- Síntese: o texto narra a trajetória de um patrimônio construído por mãos negras, esvaziado pela dispersão econômica e agora reativado ritualisticamente. Isso indica que o propósito do resgate não é religioso genérico nem econômico, mas sim a reafirmação da presença, da história e da identidade cultural afrodescendente que aquele espaço sempre representou.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem construiu e para quem servia a tradição
O texto deixa claro que a capela de Nossa Senhora do Rosário e o oratório de São Benedito foram erguidos pelos próprios escravizados que trabalhavam na mineração, organizados em irmandades divididas por cor (brancos, crioulos, mulatos, pardos). Isso significa que a irmandade negra não era um apêndice do catolicismo oficial, mas um espaço de autogestão religiosa e cultural criado pela população negra dentro das brechas permitidas pelo sistema colonial. São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, nesse contexto, tornam-se símbolos ressignificados por essa comunidade — não apenas santos católicos "importados", mas ícones apropriados e reinterpretados a partir de referências africanas.
Subpasso 4.2 — Entender o esvaziamento e o "resgate"
Com o declínio da mineração no século XVIII, a população negra migrou para outras atividades econômicas em outros arraiais, e a igreja ficou fisicamente presente, mas esvaziada de sua comunidade original — um símbolo sem prática viva. O texto afirma que, "hoje", a Festa do Rosário e o Terno de Congado "estão sendo resgatados". A palavra "resgate" é a chave interpretativa: ela indica um movimento deliberado e contemporâneo de reativação de uma tradição que corria risco de desaparecer, e não a simples manutenção ininterrupta de um costume católico tradicional.
Subpasso 4.3 — Verificação: conectar a lógica do texto à alternativa correta
Se quem construiu a tradição foi a população negra escravizada e livre, organizada por irmandade de cor, e se o que está sendo "resgatado" hoje é justamente essa prática associada à sua história e identidade — então o propósito do resgate só pode ser a valorização da cultura afrodescendente e de suas tradições religiosas (que combinam elementos católicos com raízes africanas, como o próprio Congado). Essa leitura converge diretamente com a alternativa A, e nenhuma outra alternativa dá conta simultaneamente da origem étnica da tradição e do sentido de "resgate" mencionado no texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) valorizar a cultura afrodescendente e suas tradições religiosas.
✅ Correta: a Festa do Rosário e o Terno de Congado nasceram da organização social e religiosa da população negra escravizada em Tiradentes. Resgatá-las hoje significa reconhecer, celebrar e manter viva uma manifestação cultural de matriz afro-brasileira, reafirmando a presença histórica e a identidade dessa população mesmo após sua dispersão física do local.
B) retomar a veneração católica aos valores do passado colonial.
❌ Incorreta: essa alternativa erra o sujeito histórico da ação. A veneração religiosa é apenas a forma externa (o "invólucro" católico) através da qual a comunidade negra expressava sua identidade; o conteúdo do resgate não é a nostalgia de "valores coloniais" em geral (que remeteriam à ordem escravista e à hierarquia branca dominante), mas sim a cultura do grupo que construiu e sustentou aquela prática.
C) reunir os elementos constitutivos da história econômica regional.
❌ Incorreta: o texto menciona a mineração apenas como pano de fundo histórico que explica a origem e a posterior dispersão da comunidade negra — não como o objeto central que está sendo celebrado. As festividades resgatadas são de natureza religiosa e cultural, não uma comemoração da economia aurífera de Minas Gerais.
D) combater o preconceito contra os adeptos do catolicismo popular.
❌ Incorreta: o texto não trata de discriminação religiosa contra praticantes do catolicismo popular em geral, mas da trajetória específica de uma comunidade étnica (a população negra) e de suas irmandades. O foco é a valorização identitária afrodescendente, não uma disputa ou combate a preconceito religioso genérico.
E) produzir eventos turísticos voltados a religiões de origem africana.
❌ Incorreta: o texto não menciona finalidade turística nem economia do lazer; além disso, o Congado e a Festa do Rosário são expressões de sincretismo afro-católico, não "religiões de origem africana" propriamente ditas (como Candomblé ou Umbanda). A alternativa erra tanto no propósito atribuído (comercial/turístico) quanto na caracterização religiosa da manifestação.
🏆 Gabarito: A — o resgate da Festa do Rosário e do Terno de Congado em Tiradentes tem como propósito valorizar a cultura afrodescendente e suas tradições religiosas, já que essas festividades nasceram da organização das irmandades negras no período da mineração e permanecem como símbolo vivo da identidade e da resistência cultural desse grupo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A relaciona corretamente origem (irmandades e comunidade negra) e propósito (valorização cultural/identitária) do resgate narrado no texto; todas as demais deslocam o foco para economia, catolicismo genérico ou turismo, elementos secundários ou ausentes no enunciado.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora manifestações culturais de matriz africana (Congado, Maracatu, Capoeira, Jongo, Candomblé, Reisado, Folia de Reis) como veículo para discutir resistência cultural, sincretismo religioso e patrimônio imaterial, sempre associando a prática ao grupo social que a criou e sustentou historicamente.
- Generalização: em questões sobre "resgate" ou "revitalização" de tradições populares, pergunte sempre "quem criou essa prática e por quê?" — a resposta correta quase sempre reafirma a identidade do grupo originário, e não uma leitura genérica ou descontextualizada (como turismo, economia ou religião oficial).
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que atribuem finalidade econômica (C, E) ou que ignoram o sujeito histórico específico mencionado no texto — "escravos", "irmandade", "população negra" (B, D) — e fique com a opção que nomeia diretamente esse grupo e sua cultura (A).
- Conexões: compare com questões sobre a Lei 10.639/2003 (obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira) e sobre patrimônio imaterial tombado pelo IPHAN (como o próprio Complexo Cultural do Rosário e outras festas de congado em Minas Gerais), temas que costumam aparecer emparelhados no ENEM.
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