Mapa de questões · 1º dia
Questão 62 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
Enquanto persistirem as grandes diferenças sociais e os níveis de exclusão que conhecemos hoje no Brasil, as políticas sociais compensatórias serão indispensáveis.
SACHS, I. Inclusão social pelo trabalho decente. Revista de Estudos Avançados, n. 51, ago. 2004.
As ações referidas são legitimadas por uma concepção de política pública
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Estado, políticas públicas e desigualdade social
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um conceito sociológico abstrato (política compensatória) a partir de um texto curto e associá-lo à alternativa que o descreve com precisão conceitual, sem nenhuma "pista" explícita no enunciado.
- 🎯 Tema/Habilidade: Políticas públicas compensatórias e o papel do Estado na redução das desigualdades sociais — compreender como o Estado atua para corrigir a exclusão socioeconômica.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual concepção de política pública justifica a existência de políticas sociais compensatórias enquanto durarem as grandes desigualdades e a exclusão social no Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: políticas sociais compensatórias, diferenças sociais, exclusão
- Armadilha típica: associar "compensar" a um gesto pessoal ou informal — favor, laço de parentesco, caridade religiosa — em vez de reconhecer que, em ciência política, compensar desigualdades é uma função técnica e legal do Estado: redistribuir o acesso a oportunidades.
- O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que a política compensatória é um instrumento estatal para nivelar o acesso a bens sociais (educação, trabalho, renda) enquanto a desigualdade estrutural persistir — e não um favor pessoal, um vínculo de sangue ou uma escolha de mercado.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Política pública compensatória: ação estatal temporária e focalizada, criada para corrigir desvantagens historicamente acumuladas por determinados grupos (pobres, negros, mulheres, populações rurais etc.), equalizando o acesso a bens, serviços e oportunidades — exemplos: cotas, Bolsa Família, ProUni, Prouni, políticas de assistência ao trabalhador.
- Exclusão social: processo pelo qual indivíduos ou grupos ficam impedidos de participar plenamente da vida econômica, política e social; não é sinônimo simples de pobreza, mas de estar fora dos circuitos de acesso a direitos e oportunidades.
- Regulação de oportunidades (Estado regulador/redistributivo): concepção segundo a qual cabe ao Estado intervir ativamente para redistribuir chances de ascensão social, corrigindo falhas do mercado e da história — em vez de deixar tudo à "livre concorrência" entre desiguais.
- Contraponto liberal — liberdade de iniciativa: concepção segundo a qual o mercado, por si só, distribui oportunidades de forma eficiente, cabendo ao Estado apenas garantir as regras do jogo, sem correção ativa das desigualdades de partida.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Enquanto persistirem as grandes diferenças sociais e os níveis de exclusão que conhecemos hoje no Brasil" → o autor parte de um diagnóstico concreto de desigualdade estrutural — a política não nasce de um ideal abstrato, mas da necessidade de corrigir um quadro real de exclusão.
- Evidência 2: "as políticas sociais compensatórias serão indispensáveis" → Sachs defende que o Estado precisa agir de forma corretiva, "compensando" quem partiu em desvantagem — isso significa, por definição, reorganizar o acesso às oportunidades sociais.
- Síntese: o texto de Ignacy Sachs, em "Inclusão social pelo trabalho decente", filia-se a uma tradição de pensamento em que o Estado é o agente que corrige as distorções do mercado e da história, redistribuindo chances de forma mais equânime — exatamente o que a alternativa E descreve como "regulação de oportunidades".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a natureza da ação descrita
O texto fala em "políticas sociais compensatórias" como resposta a "diferenças sociais" e "exclusão". Isso classifica a ação como uma intervenção deliberada do Estado voltada a grupos em desvantagem — e não como uma relação privada entre indivíduos, nem como uma política deixada à livre dinâmica do mercado.
Subpasso 4.2 — Traduzir "compensar" para o vocabulário de ciência política
Compensar desigualdades de partida significa alterar as condições de disputa por bens sociais escassos — emprego, renda, educação, saúde. Em outras palavras, o Estado regula quem tem acesso a quê e em que medida, corrigindo o resultado que o mercado, sozinho, produziria caso agisse com plena "liberdade de iniciativa". Esse mecanismo é tecnicamente descrito como regulação (ou redistribuição) de oportunidades.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as cinco alternativas, apenas a opção E emprega vocabulário compatível com o que foi identificado: "regulação de oportunidades" traduz com precisão o papel do Estado ao instituir políticas compensatórias — ele intervém ativamente para redistribuir chances, e não deixa isso a cargo do mercado, de laços pessoais, de parentesco ou de instituições religiosas. A alternativa E é, portanto, a única coerente com a lógica do texto de Sachs.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) focada no vínculo clientelista.
❌ Incorreta: clientelismo é uma relação de troca de favores entre líder político e beneficiário (voto ou apoio em troca de benefício pessoal), baseada em lealdade individual, e não em critérios universais de justiça social. A política compensatória descrita no texto é instituída por critérios técnicos e legais (renda, território, vulnerabilidade), válidos para toda a população que se enquadra na regra — não depende de laço pessoal com quem governa.
B) pautada na liberdade de iniciativa.
❌ Incorreta: "liberdade de iniciativa" é o princípio liberal segundo o qual o mercado e a ação individual, livres de interferência estatal, é que devem alocar recursos e oportunidades. É exatamente o oposto do que Sachs propõe: ele defende a ação ativa e reguladora do Estado justamente porque a "liberdade de iniciativa" sozinha reproduz e aprofunda a exclusão social já existente.
C) baseada em relações de parentesco.
❌ Incorreta: relações de parentesco (nepotismo, favorecimento familiar) constituem um critério particularista e privado de distribuição de benefícios, incompatível com o caráter público, legal e generalizável que caracteriza as políticas sociais compensatórias mencionadas no texto.
D) orientada por organizações religiosas.
❌ Incorreta: o texto trata de política pública estatal, formulada e/ou regulada pelo poder público, e não de ação assistencial promovida por igrejas ou entidades confessionais. Ainda que instituições religiosas realizem trabalho social relevante, isso não é o que Sachs descreve como "política social compensatória" legitimada pelo Estado.
E) centrada na regulação de oportunidades.
✅ Correta: é exatamente essa a concepção que legitima as políticas compensatórias citadas no texto — o Estado intervém para regular o acesso a oportunidades (educação, trabalho, renda), compensando quem parte de posição de desvantagem histórica, até que as "grandes diferenças sociais" mencionadas por Sachs sejam superadas.
🏆 Gabarito: E — as políticas sociais compensatórias citadas no texto só fazem sentido dentro de uma concepção de Estado que regula ativamente o acesso a oportunidades, corrigindo desigualdades estruturais enquanto elas persistirem.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa E é a única que descreve, em linguagem de ciência política, o mecanismo por trás de qualquer política compensatória — redistribuir/regular oportunidades, e não vínculos pessoais, de parentesco, religiosos ou de livre mercado.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o papel do Estado como agente corretor de desigualdades, em textos de sociólogos e economistas (Sachs, Milton Santos, relatórios do IBGE e do PNUD) que discutem cidadania, inclusão e desenvolvimento social, sempre contrastando ação estatal reguladora versus lógica de mercado ou vínculos privados (clientelismo, parentesco, caridade).
- Generalização: quando o enunciado apresentar uma política do tipo "compensatória", "afirmativa" ou "redistributiva", a resposta certa quase sempre remete à ideia de correção de desigualdades de acesso/oportunidade pelo Estado — não a laços pessoais, mercado livre ou caridade privada.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara as alternativas que descrevem relações privadas e particularistas (clientelismo, parentesco, religião) — política pública compensatória é, por definição, ação estatal, legal e universal dentro do grupo-alvo; entre as que sobram, escolha a que fala em regulação/redistribuição, não em "liberdade de iniciativa", que é justamente o oposto do espírito compensatório.
- Conexões: ações afirmativas e cotas raciais/sociais nas universidades públicas; programas de transferência de renda (Bolsa Família/Auxílio Brasil) como políticas compensatórias de combate à pobreza e à exclusão.
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