Mapa de questões · 1º dia
Questão 20 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
O comportamento do público, em geral, parece indicar o seguinte: o texto da peça de teatro não basta em si mesmo, não é uma obra de arte completa, pois ele só se realiza plenamente quando levado ao palco. Para quem pensa assim, ler um texto dramático equivale a comer a massa do bolo antes de ele ir para o forno. Mas ele só fica pronto mesmo depois que os atores deram vida àquelas emoções; que cenógrafos compuseram os espações, refletindo externamente os conflitos internos dos envolvidos; que os figurinistas vestiram os corpos sofredores em movimento.
LACERDA, R. Leitores. Metáfora, n. 7, abr. 2012.
Em um texto argumentativo, podem-se encontrar diferentes estratégias para guiar o leitor por um raciocínio e chegar a determinada conclusão. Para defender sua ideia a favor da incompletude do texto dramático fora do palco, o autor usa como estratégia argumentativa a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Leitura e interpretação de texto argumentativo (estratégias de argumentação)
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir com precisão entre cinco estratégias argumentativas parecidas na superfície, mas conceitualmente distintas
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificação de estratégias argumentativas em texto de opinião (Competência de Área 1 — reconhecer recursos expressivos da linguagem e seus efeitos de sentido em textos argumentativos)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que recurso argumentativo o autor usa para convencer o leitor de que o texto teatral só se completa quando encenado?"
- Palavras-chave decisivas: estratégia argumentativa, defender sua ideia, incompletude do texto dramático
- Armadilha típica: confundir o efeito emocional que a comparação provoca (dá vontade de comer o bolo, gera identificação com a cena cotidiana) com o mecanismo argumentativo em si, marcando "comoção" ou "identificação" em vez de nomear corretamente o recurso de comparação
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que o autor constrói o argumento comparando dois domínios diferentes (texto dramático × bolo) para tornar concreta uma ideia abstrata (a incompletude da obra)
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Analogia: compara duas situações de naturezas diferentes, mas com semelhança estrutural, para explicar uma ideia abstrata a partir de algo concreto e familiar.
- Comoção: apelo direto à emoção do leitor (dor, indignação, ternura), sem necessariamente comparar dois campos distintos.
- Identificação: aproxima o leitor de uma experiência para que ele se reconheça nela, sem o recurso de comparar dois domínios diferentes.
- Contextualização: situa o fato num cenário histórico, social ou cultural mais amplo, oferecendo pano de fundo — ausente no texto.
- Enumeração: lista elementos ou etapas em sequência para reforçar um argumento por acúmulo, sem estabelecer comparação entre campos semânticos distintos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "ler um texto dramático equivale a comer a massa do bolo antes de ele ir para o forno" → o autor transporta a discussão sobre teatro (abstrata, sobre arte e encenação) para o universo doméstico da culinária (concreto, familiar a qualquer leitor), estabelecendo uma correspondência ponto a ponto: texto = massa crua; encenação = assar; obra completa = bolo pronto.
- Evidência 2: "Mas ele só fica pronto mesmo depois que os atores deram vida àquelas emoções; que cenógrafos compuseram os espaços... que os figurinistas vestiram os corpos" → o autor retoma o campo semântico do "ficar pronto" (herdado da metáfora do bolo) para descrever o processo teatral, reforçando a comparação inicial em vez de introduzir um novo recurso.
- Síntese: O autor não apela apenas à emoção do leitor (comoção), não busca fazer o leitor se ver na cena (identificação), não insere dados históricos/sociais (contextualização) e não empilha uma lista de exemplos (enumeração). Ele constrói uma correspondência estrutural entre dois domínios distintos — teatro e culinária — para tornar palpável a ideia de incompletude da peça não encenada. Esse mecanismo é, por definição, uma analogia.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a tese do autor
A tese central é: "o texto da peça de teatro não basta em si mesmo... ele só se realiza plenamente quando levado ao palco". O texto dramático escrito é, para o autor, uma obra incompleta até ser encenada. Antes de buscar a estratégia argumentativa, é preciso fixar essa tese — sem isso, é fácil se distrair com o "clima" da cena do bolo e perder de vista o mecanismo lógico que sustenta o argumento.
Subpasso 4.2 — Localizar o recurso que sustenta a tese
Logo após apresentar a tese, o autor não recorre a dados, exemplos numerados ou apelos diretos à emoção. Ele usa uma comparação: "ler um texto dramático equivale a comer a massa do bolo antes de ele ir para o forno". O verbo "equivale" sinaliza uma relação de semelhança entre dois processos de naturezas diferentes (ler uma peça × comer um bolo cru) — traço definidor da analogia: aproximar campos semânticos distantes por semelhança de estrutura, não de identidade literal.
Subpasso 4.3 — Verificação
O parágrafo seguinte confirma essa mesma comparação: o "forno" corresponde à encenação; atores, cenógrafos e figurinistas são os agentes que "assam" o texto, transformando-o em obra acabada, assim como o calor transforma a massa em bolo. Como todo o parágrafo gira em torno dessa correspondência entre dois domínios (teatro/culinária), confirma-se que a estratégia central é a analogia — e não um recurso emocional isolado, uma simples lista ou uma referência a contexto histórico-social.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) comoção.
❌ Incorreta: seria o apelo direto ao emocional do leitor (indignação, compaixão), sem necessariamente construir uma comparação estrutural. O texto até gera familiaridade ao citar o bolo, mas esse efeito é consequência da analogia, não o mecanismo em si.
B) analogia.
✅ Correta: o autor compara explicitamente dois processos distintos — ler uma peça e comer a massa de um bolo cru — para explicar, por semelhança estrutural, por que o texto dramático é incompleto sem encenação. É a definição exata de argumento por analogia.
C) identificação.
❌ Incorreta: ocorreria se o autor levasse o leitor a se reconhecer diretamente na situação descrita. Aqui, o recurso não é fazer o leitor se ver na cena, mas comparar dois processos diferentes entre si.
D) contextualização.
❌ Incorreta: seria inserir a discussão em um cenário histórico, social ou cultural (origem do teatro grego, dados de produção teatral). O texto não recorre a nenhum dado desse tipo, permanecendo no plano da comparação hipotética.
E) enumeração.
❌ Incorreta: o parágrafo cita em sequência atores, cenógrafos e figurinistas, mas essa lista não é o argumento central — é detalhamento de como a analogia se desdobra. A estratégia que sustenta a tese continua sendo a comparação com o bolo, não a enumeração de profissionais.
🏆 Gabarito: B — o autor defende a incompletude do texto dramático fora do palco comparando-o à massa de um bolo antes de ir ao forno, um argumento por analogia entre dois domínios diferentes (teatro e culinária) unidos por uma relação de semelhança estrutural.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A letra B é a única que nomeia corretamente o mecanismo lógico-textual usado — comparar dois processos de naturezas diferentes (ler peça × comer bolo cru) para explicar por semelhança uma ideia abstrata (incompletude da obra não encenada).
- Padrão de cobrança: O ENEM cobra recorrentemente, na prova de Linguagens, questões sobre "qual estratégia/recurso argumentativo o autor utiliza", exigindo que o candidato diferencia analogia, comparação, exemplificação, dados estatísticos, apelo à autoridade, ironia e apelo emocional dentro de textos de opinião ou artigos de divulgação.
- Generalização: sempre que o texto disser "X é como Y", "X equivale a Y" ou "assim como Y, X também...", há grande chance de a estratégia ser analogia — busque no enunciado um verbo ou expressão de equivalência/comparação entre dois campos semânticos distintos.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara "contextualização" se não houver dados históricos/sociais no trecho, e elimine "enumeração" se a lista de elementos for apenas um detalhe secundário e não o cerne do argumento. Isso reduz a questão a uma escolha entre o recurso emocional (comoção/identificação) e o recurso lógico-comparativo (analogia) — e a presença de um verbo de equivalência ("equivale a", "é como") decide a favor da analogia.
- Conexões: revise também metáfora (comparação sem conectivo, mais poética) e comparação explícita com conectivo ("como", "tal qual") — recursos que costumam aparecer como distratores nas mesmas questões de estratégia argumentativa.
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