Mapa de questões · 1º dia
Questão 64 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
A crítica é uma questão de distância certa. O olhar hoje mais essencial, o olho mercantil que penetra no coração das coisas, chama-se propaganda. Esta arrasa o espaço livre da contemplação e aproxima tanto as coisas, coloca-as tão debaixo do nariz quanto o automóvel que sai da tela de cinema e cresce, gigantesco, tremeluzindo em direção a nós. E, do mesmo modo que o cinema não oferece móveis e fachadas a uma observação crítica completa, mas dá apenas a sua espetacular, rígida e repentina proximidade, também a propaganda autêntica transporta as coisas para primeiro plano e tem um ritmo que corresponde ao de um bom filme.
BENJAMIN, W. Rua de mão única: infância berlinense – 1900. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 (adaptado).
O texto apresenta um entendimento do filósofo Walter Benjamin, segundo o qual a propaganda dificulta o procedimento de análise crítica em virtude do(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Escola de Frankfurt / crítica da cultura e dos meios de comunicação de massa
- ⚡ Nível: Médio — o texto de Walter Benjamin é denso e metafórico, exigindo que o candidato distinga a imagem (o recurso retórico-visual da propaganda) do conteúdo informativo em si
- 🎯 Tema/Habilidade: A crítica benjaminiana à propaganda como destruidora da "distância" necessária ao pensamento crítico — competência de leitura filosófica e interpretação de texto argumentativo (H6/C1 da matriz de Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo Benjamin, o que exatamente na propaganda impede a análise crítica das coisas?"
- Palavras-chave decisivas: distância, contemplação, proximidade espetacular
- Armadilha típica: confundir "distância" com tempo (achar que o problema é a rapidez ou a fugacidade dos acontecimentos, alternativa C) ou supor que o texto fala de tecnologia (alternativa B), quando na verdade o cinema é usado apenas como metáfora de um efeito visual, não como exemplo de avanço tecnológico
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que, para Benjamin, a crítica exige distanciamento, e que a propaganda opera justamente destruindo esse distanciamento por meio de imagens que simulam uma proximidade avassaladora e ilusória — não por manipular fatos, tempo ou liberdade de opinião
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Distância crítica (Benjamin): todo julgamento crítico depende de um espaço de contemplação — um afastamento que permite observar o objeto com calma, comparar, refletir. Sem esse espaço, não há análise possível, apenas impacto imediato.
- Aura e reprodutibilidade técnica: Benjamin discute como a reprodução técnica de imagens (fotografia, cinema) altera a relação do espectador com o objeto observado, trocando a contemplação por choque e proximidade instantânea.
- Propaganda como estética do choque: assim como o cinema projeta imagens que "saltam da tela" (o carro que cresce e treme em direção a nós), a propaganda usa o mesmo recurso — imagens construídas para parecerem grandiosas e inescapáveis, sendo, na essência, uma ilusão visual e não uma informação objetiva.
- Escola de Frankfurt e indústria cultural: Benjamin dialoga com o pensamento frankfurtiano (Adorno, Horkheimer) sobre como os meios de massa moldam a percepção do público, substituindo o juízo crítico por reações espetaculares.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A crítica é uma questão de distância certa" → Benjamin estabelece de saída a tese central: sem distância (espacial/perceptiva, não temporal), não existe crítica possível.
- Evidência 2: "propaganda... arrasa o espaço livre da contemplação e aproxima tanto as coisas, coloca-as tão debaixo do nariz quanto o automóvel que sai da tela de cinema" → a comparação com o cinema mostra que o mecanismo da propaganda é visual e ilusório: ela produz uma proximidade artificial, como um efeito especial, que sufoca a possibilidade de observação distanciada.
- Síntese: o fio condutor do texto não é a velocidade dos fatos, nem a evolução tecnológica, nem a objetividade da informação — é o modo como a imagem publicitária engana o olhar, simulando uma proximidade avassaladora que impede o afastamento necessário ao julgamento crítico. Esse mecanismo é, por definição, um efeito ilusório da imagem.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a tese central do texto
Benjamin abre o trecho afirmando que "a crítica é uma questão de distância certa". Isso significa que todo processo de análise crítica pressupõe um espaço entre o observador e o objeto observado — um intervalo que permite comparar, ponderar e julgar. A propaganda, segundo o filósofo, ataca exatamente esse espaço: ela "arrasa o espaço livre da contemplação".
Subpasso 4.2 — Compreender a analogia com o cinema
O autor recorre à imagem do automóvel que "sai da tela de cinema e cresce, gigantesco, tremeluzindo em direção a nós" para explicar como a propaganda destrói essa distância. Não é por meio de argumentos ou fatos que a propaganda convence — é por meio de um recurso visual e espetacular, que aproxima as coisas de forma artificial e avassaladora, "debaixo do nariz" do espectador. O cinema, diz Benjamin, "não oferece móveis e fachadas a uma observação crítica completa, mas dá apenas a sua espetacular, rígida e repentina proximidade". Ou seja: o que se vê não é a coisa em si, analisável com calma, mas uma imagem construída para provocar impacto instantâneo — uma ilusão de proximidade e grandiosidade.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se a "propaganda autêntica transporta as coisas para primeiro plano e tem um ritmo que corresponde ao de um bom filme", isso confirma que o problema está na natureza da própria imagem publicitária: ela é construída, espetacular, ilusória — feita para parecer mais próxima e mais urgente do que a realidade permitiria a um olhar distanciado. Esse raciocínio converge para a alternativa A: o caráter ilusório das imagens é o que impede a análise crítica.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) caráter ilusório das imagens.
✅ Correta: é exatamente esse o mecanismo descrito por Benjamin. A propaganda, como o cinema, produz imagens que simulam uma proximidade grandiosa e espetacular — uma ilusão visual que "arrasa o espaço livre da contemplação" e impede a distância necessária ao julgamento crítico.
B) evolução constante da tecnologia.
❌ Incorreta: o texto usa o cinema apenas como analogia para explicar um efeito de proximidade ilusória; em nenhum momento Benjamin atribui o problema ao avanço ou à mudança tecnológica em si — a crítica recai sobre o efeito visual produzido, não sobre a tecnologia que o viabiliza.
C) aspecto efêmero dos acontecimentos.
❌ Incorreta: é uma armadilha, pois o cinema e a propaganda de fato têm ritmo rápido, mas o argumento de Benjamin não trata da fugacidade temporal dos fatos — trata da distância espacial/perceptiva destruída pela imagem que "se aproxima demais", e não do quão rápido algo passa ou desaparece.
D) conteúdo objetivo das informações.
❌ Incorreta: essa alternativa inverte o sentido do texto. Benjamin não afirma que a propaganda dificulta a crítica por trazer conteúdo objetivo — pelo contrário, o problema é que ela substitui qualquer conteúdo analisável por um efeito espetacular e ilusório, sem objetividade nenhuma.
E) natureza emancipadora das opiniões.
❌ Incorreta: o texto não atribui à propaganda nenhuma função emancipadora; ao contrário, Benjamin a descreve como algo que "arrasa" o espaço de contemplação, ou seja, que restringe e manipula a percepção, e não que liberta ou emancipa opiniões.
🏆 Gabarito: A — a propaganda, segundo Benjamin, dificulta a crítica porque opera por meio de imagens ilusórias e espetaculares que destroem a distância necessária à contemplação e ao julgamento, tal como o efeito cinematográfico descrito no texto.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A capta o cerne da metáfora cinematográfica usada por Benjamin: o problema da propaganda está no efeito ilusório e espetacular de suas imagens, que anula a distância crítica, e não em tecnologia, tempo, objetividade ou emancipação.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a textos de teóricos da Escola de Frankfurt (Benjamin, Adorno, Horkheimer) para cobrar a crítica aos meios de comunicação de massa e à manipulação de imagens — sempre pedindo que o candidato identifique o mecanismo específico de dominação ou alienação descrito no texto.
- Generalização: em questões de interpretação filosófica, a alternativa correta é sempre a que reproduz o mecanismo causal explicitado pelo autor — não basta ter relação temática com o texto; é preciso refletir exatamente a relação de causa e efeito apresentada.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que contradizem o sentido do texto (D e E, que sugerem objetividade e emancipação, quando o texto fala de ilusão e restrição) e desconfie de alternativas que generalizam um detalhe da analogia (B e C, que confundem "cinema" com tecnologia ou velocidade) sem captar a tese central.
- Conexões: o tema dialoga com "A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica", também de Benjamin, e com o conceito de "indústria cultural" de Adorno e Horkheimer — frequentes em questões de Filosofia e Sociologia sobre crítica da cultura de massa.
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