Mapa de questões · 1º dia
Questão 13 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
Tenho visto criaturas que trabalham demais e não progridem. Conheço indivíduos preguiçosos que têm faro: quando a ocasião chega, desenroscam-se, abrem a boca e engolem tudo.
Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas primeiras tentativas e obriguei a fortuna a ser-me favorável nas seguintes.
Depois da morte do Mendonça, derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para além do ponto em que estava no tempo de Salustiano Padilha. Houve reclamações.
– Minhas senhoras, Seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é isto. E quem não gostar, paciência, vá à justiça.
Como a justiça era cara, não foram à justiça. E eu, o caminho aplainado, invadi a terra do Fidélis, paralítico de um braço, e a dos Gama, que pandegavam no Recife, estudando direito. Respeitei o engenho do Dr. Magalhães, juiz.
Violências miúdas passaram despercebidas. As questões mais sérias foram ganhas no foro, graças às chicanas de João Nogueira.
Efetuei transações arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e não prestei atenção aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas. Iniciei a pomicultura e a avicultura. Para levar os meus produtos ao mercado, comecei uma estrada de rodagem. Azevedo Gondim compôs sobre ela dois artigos, chamou-me patriota, citou Ford e Delmiro Gouveia. Costa Brito também publicou uma nota na Gazeta, elogiando-me e elogiando o chefe político local. Em consequência mordeu-me cem mil réis.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1990.
O trecho, de São Bernardo, apresenta um relato de Paulo Honório, narrador-personagem, sobre a expansão de suas terras. De acordo com esse relato, o processo de prosperidade que o beneficiou evidencia que ele
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Regionalismo/Segunda geração modernista (Graciliano Ramos), leitura crítica do narrador-personagem
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade está em não se deixar enganar pelo tom orgulhoso do narrador e reconhecer, nos próprios fatos relatados, a crítica que o texto faz a ele
- 🎯 Tema/Habilidade: Caracterização do narrador-personagem Paulo Honório e leitura crítica de textos literários que exigem ir além do discurso explícito do enunciador
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que os fatos narrados por Paulo Honório, sobre como ele prosperou e expandiu suas terras, revelam sobre o tipo de homem/empreendedor que ele é?"
- Palavras-chave decisivas: processo de prosperidade, que o beneficiou, evidencia que ele
- Armadilha típica: tomar ao pé da letra o tom confiante e autoelogioso do narrador — e os elogios de terceiros dentro do relato ("chamou-me patriota") — como se fossem juízos confiáveis sobre seu caráter, em vez de perceber a ironia entre o que ele diz de si mesmo e o que ele efetivamente faz.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de cruzar o discurso do narrador com as ações concretas que ele narra (invasão de terras, manipulação da Justiça, suborno da imprensa) para identificar o verdadeiro perfil que o texto constrói dele.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Narrador-personagem: narra em primeira pessoa a própria trajetória; sua visão de si é subjetiva e parcial, podendo ser desmentida pelos próprios fatos que ele mesmo relata — recurso comum para gerar ironia.
- Romance de 30 / regionalismo nordestino: em São Bernardo, Graciliano Ramos constrói a ascensão de um fazendeiro que acumula terra e poder por meio da exploração de vizinhos fracos, da manipulação da Justiça e da imprensa — crítica ao coronelismo e ao capitalismo rural predatório.
- Ironia e autorretrato involuntário: Paulo Honório narra com orgulho ações eticamente condenáveis; o leitor atento percebe a distância entre a autoimagem que ele constrói ("fui feliz", "não sou preguiçoso") e a realidade violenta e corrupta dos fatos.
- Coronelismo: estrutura de poder do Brasil rural em que grandes proprietários usam violência, compadrio e controle sobre a Justiça e a imprensa local para expandir seus domínios à custa de quem tem menos força.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para além do ponto em que estava" → invasão deliberada de terra alheia, tratada como algo "natural", sem qualquer remorso ou hesitação.
- Evidência 2: "invadi a terra do Fidélis, paralítico de um braço, e a dos Gama, que pandegavam no Recife" → o avanço se dá justamente sobre quem está fragilizado (deficiência física) ou ausente (estudando fora) — oportunismo predatório, não mérito ou esforço legítimo.
- Evidência 3: "Como a justiça era cara, não foram à justiça" / "Violências miúdas passaram despercebidas" / "graças às chicanas de João Nogueira" → o sucesso vem de neutralizar e manipular o sistema jurídico, e não de agir dentro das regras do Estado de direito.
- Evidência 4: "Costa Brito também publicou uma nota... elogiando-me... Em consequência mordeu-me cem mil réis" → a boa reputação pública (inclusive o rótulo de "patriota") é literalmente comprada, o que desmonta qualquer leitura ingênua de que esses elogios representem um juízo confiável de virtude.
- Síntese: todas as evidências convergem para um mesmo perfil: um homem que constrói riqueza e prestígio por meio de violência, fraude jurídica e corrupção da imprensa — um empreendedorismo pragmático e amoral, e não um exemplo de virtude, honradez ou responsabilidade social.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de narrativa e a armadilha da autoimagem
O trecho é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que relata sua própria ascensão com tom confiante e até jactancioso ("Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas primeiras tentativas"). Esse tom pode induzir o leitor apressado a aceitar como verdadeiras as qualidades que o narrador atribui a si mesmo. O primeiro passo da resolução é desconfiar desse discurso e buscar, nos fatos narrados, confirmação ou desmentido dele.
Subpasso 4.2 — Mapear as ações concretas narradas
Ao listar cronologicamente o que Paulo Honório realmente faz, obtém-se: (1) derruba a cerca do vizinho e avança sobre terra alheia; (2) invade as terras de quem está fisicamente incapacitado (Fidélis) e de quem está ausente (os Gama); (3) sabe que os prejudicados não terão dinheiro para acionar a Justiça e se aproveita disso; (4) usa "chicanas" (artimanhas jurídicas) para vencer as questões mais sérias no foro; (5) suborna o jornalista Costa Brito para garantir elogios públicos. Nenhuma dessas ações é fruto de mérito legítimo, esforço coletivo ou respeito às regras — todas são formas de vantagem obtida à custa de outros e à margem da ética.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando esse mapeamento com as cinco alternativas, apenas uma descreve com precisão esse padrão: um empreendedor pragmático que busca o êxito "a qualquer custo", ignorando princípios éticos e valores humanitários — exatamente o que a sequência de invasões, coações e subornos comprova.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) revela-se um empreendedor capitalista pragmático que busca o êxito em suas realizações a qualquer custo, ignorando princípios éticos e valores humanitários.
✅ Correta: é exatamente o que o relato comprova — Paulo Honório expande seu patrimônio invadindo terras de vizinhos vulneráveis, manipulando a Justiça e subornando a imprensa, sem qualquer consideração ética pelos prejudicados.
B) procura adequar sua atividade produtiva e função de empresário às regras do Estado democrático de direito, ajustando o interesse pessoal ao bem da sociedade.
❌ Incorreta: o texto mostra exatamente o oposto — ele burla a Justiça por meio de chicanas, se aproveita da incapacidade financeira dos vizinhos de recorrer aos tribunais e comete "violências miúdas" que ficam impunes; não há ajuste algum entre interesse pessoal e bem coletivo.
C) relata aos seus interlocutores fatos que lhe ocorreram em um passado distante, e enumera ações que põem em evidência as suas muitas virtudes de homem do campo.
❌ Incorreta: é uma leitura superficial que aceita o discurso do narrador ao pé da letra; as ações narradas (invasão de terras, coação, suborno) revelam vícios morais, não virtudes — a alternativa erra ao classificar como "virtudes" o que o próprio relato desmente.
D) demonstra ser um homem honrado, patriota e audacioso, atributos ressaltados pela realização de ações que se ajustam ao princípio de que os fins justificam os meios.
❌ Incorreta: "honrado" e "patriota" são rótulos vindos de um jornalista subornado (Azevedo Gondim), não juízos confiáveis do texto sobre seu caráter; a alternativa até acerta ao mencionar "os fins justificam os meios", mas erra ao qualificar isso positivamente como honradez e patriotismo, quando o texto ironiza essa fama comprada.
E) amplia o seu patrimônio graças ao esforço pessoal, contando com a sorte e a capacidade de iniciativa, sendo um exemplo de empreendedor com responsabilidade social.
❌ Incorreta: "esforço pessoal" e "responsabilidade social" contradizem diretamente o relato — não há esforço legítimo nem preocupação social alguma; há usurpação de terras de vizinhos fragilizados e corrupção de agentes públicos e da imprensa.
🏆 Gabarito: A — o relato de Paulo Honório, lido além do seu próprio discurso elogioso, evidencia um empreendedor que prospera por meio de violência, fraude e suborno, sem qualquer compromisso ético — o retrato irônico de um capitalismo predatório.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A descreve, sem eufemismo, o padrão de ação revelado pelos fatos: sucesso obtido a qualquer custo, à margem da ética.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de romances de 30 (Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz) para testar a leitura crítica de narradores que não são confiáveis ou que revelam, sem perceber, sua própria condenação moral.
- Generalização: diante de um narrador-personagem que se autoelogia, sempre verifique se as ações que ele narra sustentam ou desmentem o elogio — a resposta certa costuma estar na tensão entre discurso e fato, não no discurso isolado.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas com adjetivos totalmente positivos e sem ressalva ("honrado", "virtudes", "responsabilidade social", "Estado democrático de direito") quando o texto narra violência, coação ou corrupção — são armadilhas para quem lê apenas a superfície do discurso do narrador.
- Conexões: compare com Vidas Secas, do mesmo autor, e com outras críticas literárias ao coronelismo e à formação do capitalismo agrário brasileiro na literatura modernista.
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