Mapa de questões · 1º dia
Questão 26 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
Pra onde vai essa estrada?
— Sô Augusto, pra onde vai essa estrada?
O senhor Augusto:
— Eu moro aqui há 30 anos, ela nunca foi pra parte nenhuma, não.
— Sô Augusto, eu estou dizendo se a gente for andando aonde a gente vai?
O senhor Augusto:
— Vai sair até nas Oropas, se o mar der vau.
Vocabulário
Vau: Lugar do rio ou outra porção de água onde esta é pouco funda e, por isso, pode ser transposta a pé ou a cavalo.
MAGALHÃES, L. L. A.; MACHADO, R. H. A. (Org.). Perdizes, suas histórias, sua gente, seu folclore. Perdizes: Prefeitura Municipal, 2005.
As anedotas são narrativas, reais ou inventadas, estruturadas com a finalidade de provocar o riso. O recurso expressivo que configura esse texto como uma anedota é o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto / Semântica (efeitos de sentido e ambiguidade lexical)
- ⚡ Nível: Fácil — o efeito cômico já é dado pelo próprio texto; basta o candidato identificar qual recurso linguístico específico o produz.
- 🎯 Tema/Habilidade: Recursos expressivos do humor e ambiguidade de sentido (polissemia verbal) — competência de área ligada ao reconhecimento de efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais e sintáticas em gêneros textuais.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso expressivo transforma esse diálogo popular em uma anedota, ou seja, o que gera o efeito de humor?"
- Palavras-chave decisivas: anedota, recurso expressivo, provocar o riso
- Armadilha típica: confundir traços de oralidade e regionalismo (como "sô", "pra", a grafia "Oropas") — que apenas ambientam a fala do personagem — com o mecanismo que efetivamente cria o riso. Esses traços dão verossimilhança ao texto, mas não são, por si só, a fonte do humor.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de separar "cor local" (marcas de fala regional) do gatilho cômico real, que está no plano do sentido — mais precisamente, na dupla interpretação possível de uma mesma palavra.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Anedota: narrativa curta, real ou inventada, cuja estrutura é toda organizada para culminar em um efeito de riso, geralmente por meio de um mal-entendido, um trocadilho ou uma quebra de expectativa.
- Ambiguidade lexical (polissemia): ocorre quando uma mesma palavra comporta mais de um sentido possível dentro do mesmo contexto, permitindo duas leituras simultâneas e legítimas do enunciado.
- Sentido figurado x sentido literal do verbo "ir": em português, dizemos que "a estrada vai para tal lugar" em sentido figurado, significando que ela "leva a" ou "conduz a" um destino — a estrada não se desloca, mas o falante usa "ir" como se ela tivesse essa direção. Já no sentido literal, "ir" significa deslocar-se fisicamente, algo que só um ser animado (uma pessoa, um animal) pode fazer.
- Mal-entendido cômico: recurso clássico de humor em que uma personagem interpreta literalmente uma expressão que foi usada em sentido figurado (ou vice-versa), gerando uma resposta inesperada e engraçada.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Sô Augusto, pra onde vai essa estrada?" → A pergunta usa o verbo "ir" no sentido figurado, corriqueiro na língua: "para onde essa estrada leva/conduz". É a forma como qualquer falante pergunta sobre o destino de um caminho.
- Evidência 2: "Eu moro aqui há 30 anos, ela nunca foi pra parte nenhuma, não." → Sô Augusto responde interpretando "ir" no sentido literal e concreto de deslocamento físico: para ele, a estrada — objeto inanimado, fixo no chão — jamais "andou" para lugar algum. Essa troca de sentido é exatamente o que gera o riso: o interlocutor esperava uma resposta sobre destino, e recebeu uma resposta sobre movimento.
- Síntese: O texto constrói o mal-entendido cômico ao explorar os dois sentidos possíveis do verbo "ir" — um idiomático (a estrada "vai" a algum lugar = leva a algum lugar) e outro literal (a estrada "vai/vai embora" = se desloca). Sô Augusto finge (ou realmente entende) que a pergunta é sobre o segundo sentido, e é essa ambiguidade que sustenta toda a graça da anedota, inclusive prolongando-se na segunda pergunta ("se a gente for andando aonde a gente vai?"), que precisa reformular a pergunta justamente para escapar da ambiguidade inicial.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura do mal-entendido
O diálogo se organiza em duas rodadas de pergunta-resposta. Na primeira, o forasteiro pergunta "pra onde vai essa estrada?", usando uma construção absolutamente comum na língua portuguesa em que se atribui a uma via (estrada, rua, caminho) a capacidade de "ir" a um lugar, no sentido de "conduzir até". Essa é uma metáfora tão cristalizada no uso cotidiano que o falante nem percebe que está personificando a estrada. Sô Augusto, porém, responde como se a pergunta fosse literal, negando que a estrada tenha "ido" a algum lugar em trinta anos — ele trata o verbo "ir" como deslocamento físico do próprio objeto "estrada".
Subpasso 4.2 — Perceber a reformulação e a resolução do mal-entendido
Diante da resposta "sem sentido" (do ponto de vista do forasteiro), a segunda pergunta precisa desambiguizar o verbo: "eu estou dizendo se a gente for andando aonde a gente vai?". Agora o sujeito do verbo "ir" deixa de ser a estrada e passa a ser "a gente" (as pessoas), o que elimina a ambiguidade e obriga Sô Augusto a responder de forma coerente com a intenção original: "Vai sair até nas Oropas, se o mar der vau" — ou seja, andando por aquela estrada, chega-se até a Europa, caso o mar seja rasável a pé. A piada, portanto, nasce exatamente do intervalo entre a primeira pergunta (ambígua) e a resposta literal que ela provoca.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confirmando contra as alternativas: o texto não depende de ironia (as perguntas são sinceras e diretas, não dizem o oposto do que significam), nem a repetição de "não" é o mecanismo do riso (aparece uma única vez, como marca de fala, não como recurso estrutural repetido), nem a grafia "Oropas" ou o vocabulário coloquial ("sô", "pra") criam por si o efeito cômico — eles apenas caracterizam a fala regional do personagem. O único recurso que, de fato, estrutura toda a anedota — do enunciado da primeira pergunta até a necessidade de reformulá-la — é a dupla possibilidade de sentido do verbo "ir". Isso confirma a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) uso repetitivo da negação.
❌ Incorreta: a negação aparece de forma pontual ("nunca foi... não", "nenhuma"), como reforço característico da fala popular (dupla negação), mas não se repete ao longo do texto como estrutura organizadora do humor. Ela participa da caracterização linguística da fala do personagem, não é o gatilho do riso.
B) grafia do termo "Oropas".
❌ Incorreta: "Oropas" é uma grafia que reproduz a pronúncia popular/rural de "Europa" (com queda do ditongo inicial "Eu-"), funcionando como marca de variação linguística regional que confere autenticidade e verossimilhança à fala de Sô Augusto. É um recurso de caracterização do falante, não o mecanismo que provoca o riso na anedota.
C) ambiguidade do verbo "ir".
✅ Correta: todo o efeito cômico do texto decorre da dupla interpretação possível do verbo "ir" — usado pelo forasteiro em sentido figurado (a estrada "vai a" um lugar = leva a um lugar) e respondido por Sô Augusto em sentido literal (a estrada nunca "foi/se deslocou" a lugar nenhum). Esse jogo de sentidos é o núcleo estrutural da anedota, responsável tanto pela resposta inesperada quanto pela necessidade de reformulação da pergunta.
D) ironia das duas perguntas.
❌ Incorreta: não há ironia nas perguntas do forasteiro — ele pergunta de modo sincero e literal, sem qualquer intenção de dizer o contrário do que pensa. A ironia pressupõe uma distância proposital entre o dito e o pretendido, o que não ocorre aqui: o mal-entendido nasce da ambiguidade lexical, não de um discurso irônico.
E) emprego de palavras coloquiais.
❌ Incorreta: expressões como "sô", "pra" e a construção "aonde a gente vai" realmente marcam registro coloquial e regional, dando ao texto sabor de oralidade típica do interior. Contudo, esse traço é ambientação de linguagem, não o recurso que estrutura o riso — a anedota funcionaria com o mesmo efeito cômico mesmo em registro mais formal, desde que mantida a ambiguidade do verbo "ir".
🏆 Gabarito: C — a anedota se sustenta inteiramente sobre a ambiguidade do verbo "ir", que permite duas leituras (a estrada "leva a" um lugar x a estrada "se desloca" fisicamente), gerando o mal-entendido cômico entre pergunta e resposta.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a letra C aponta o mecanismo estrutural do humor — a ambiguidade semântica do verbo "ir" —, enquanto as demais alternativas descrevem traços de caracterização da fala (regionalismo, coloquialismo, grafia) ou recursos que simplesmente não estão presentes no texto (ironia, negação repetitiva).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de humor (piadas, anedotas, tiras, crônicas) pedindo que o estudante identifique o recurso linguístico exato responsável pelo riso — geralmente ambiguidade, polissemia, ironia, hipérbole ou quebra de expectativa —, exigindo que se distinga esse mecanismo de meros traços estilísticos do texto.
- Generalização: em questões sobre humor, pergunte sempre "se eu tirasse esse elemento do texto, a piada continuaria engraçada?". Se a resposta for sim (como ocorre com a grafia de "Oropas" ou o uso de "sô"), esse elemento é ambientação, não a fonte do riso; se a resposta for não, esse é o recurso central buscado pela questão.
- Dica de eliminação rápida: primeiro descarte alternativas que descrevem um recurso ausente no texto (aqui, "ironia" claramente não se aplica a perguntas sinceras); depois, entre os elementos presentes, elimine os que são apenas cor local de linguagem (grafia regional, coloquialismos, marcas de negação típica da fala) e fique com o que efetivamente produz a quebra de expectativa/sentido.
- Conexões: o mesmo raciocínio se aplica a questões sobre trocadilhos, duplo sentido em propagandas publicitárias e tirinhas humorísticas, todos construídos sobre a exploração deliberada da polissemia ou da ambiguidade lexical/sintática de uma palavra ou expressão.
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