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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaFácil

Questão 69ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia

XI. Jamais, a respeito de coisa alguma, digas: “Eu a perdi”, mas sim: “Eu a restituí”. O filho morreu? Foi restituído. A mulher morreu? Foi restituída. “A propriedade me foi subtraída”, então também foi restituída. “Mas quem a subtraiu é mau”. O que te importa por meio de quem aquele que te dá a pede de volta? Na medida em que ele der, faz uso do mesmo modo de quem cuida das coisas de outrem. Do mesmo modo como fazem os que se instalam em uma hospedaria.

EPICTETO. Encheirídion. In: DINUCCI, A. Introdução ao Manual de Epicteto.
São Cristóvão: UFS, 2012 (adaptado).

A característica do estoicismo presente nessa citação do filósofo grego Epicteto é

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Helenística (Estoicismo)
  • ⚡ Nível: Fácil — o texto de Epicteto é direto e a alternativa correta parafraseia quase literalmente sua tese central, sem exigir conhecimento prévio aprofundado de história da filosofia.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Ética estoica e a aceitação racional dos infortúnios (Competência de área 5 — ENEM: analisar o papel da filosofia e das ciências humanas na compreensão das relações entre o indivíduo e o mundo)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual traço do pensamento estoico está expresso na fala de Epicteto sobre perder pessoas e bens?"
  • Palavras-chave decisivas: restituí, quem cuida das coisas de outrem, hospedaria
  • Armadilha típica: confundir o texto com uma defesa fria ou cínica das perdas ("desprezo pelas convenções sociais"), quando na verdade Epicteto propõe uma atitude interior de aceitação equilibrada diante do que não está sob nosso controle, sem hostilidade contra a sociedade ou seus costumes.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o texto ensina a lidar com a perda (morte, roubo, infortúnio) sem sofrimento excessivo, reinterpretando-a como devolução natural — e não como injustiça — o que é a essência da serenidade estoica diante da dor.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estoicismo: escola filosófica helenística fundada por Zenão de Cítio (séc. III a.C.), que defende viver de acordo com a razão (logos) e com a natureza, cultivando o autocontrole diante das paixões e dos eventos externos.
  • Dicotomia do controle: conceito central de Epicteto — distinguir o que está "em nosso poder" (juízos, desejos, ações internas) do que não está (corpo, posses, fama, vida de terceiros). O sofrimento nasce de tentar controlar o incontrolável.
  • Apatheia (ataraxia estoica): estado de serenidade e equilíbrio emocional alcançado quando o indivíduo não se apega excessivamente a bens externos, aceitando com tranquilidade aquilo que o destino (ou a natureza) determina.
  • Metáfora da hospedaria: Epicteto compara a vida terrena a uma estadia temporária — tudo que possuímos (bens, relações, até a própria vida) é como um empréstimo, algo que "nos foi dado" e que, mais cedo ou mais tarde, "será devolvido". Por isso, a perda não deve ser vivida como tragédia irreparável, mas como devolução natural do que nunca foi definitivamente nosso.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Jamais, a respeito de coisa alguma, digas: 'Eu a perdi', mas sim: 'Eu a restituí'" → Epicteto propõe uma mudança de linguagem e de perspectiva interior: trocar o vocabulário da perda (que gera revolta e sofrimento) pelo vocabulário da restituição (que aceita o caráter provisório de tudo que possuímos).
  • Evidência 2: "O que te importa por meio de quem aquele que te dá a pede de volta?" → mesmo diante de uma perda causada por outrem (um ladrão, por exemplo), o sábio estoico não se apega à indignação ou à revolta: o importante é a atitude interior de aceitação, não a busca por culpados ou justiça imediata.
  • Evidência 3: "Do mesmo modo como fazem os que se instalam em uma hospedaria" → a vida é comparada a uma estadia passageira: quem se hospeda sabe que terá de deixar o quarto, e por isso não se apega a ele como se fosse posse eterna — essa é a chave metafórica de toda a serenidade estoica diante da perda.
  • Síntese: o texto constrói, evidência a evidência, uma pedagogia da resignação racional: reformular mentalmente a perda como devolução, relativizar a culpa alheia e comparar a vida a uma hospedagem temporária são três movimentos que convergem para um único ensinamento — aceitar os sofrimentos (mortes, roubos, infortúnios) com serenidade, sem revolta nem desespero.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo argumentativo do texto

Epicteto não está fazendo um tratado abstrato sobre metafísica ou ciência; ele está oferecendo um exercício prático de conduta diante de eventos dolorosos e irreversíveis: a morte de um filho, a morte da esposa, o roubo de uma propriedade. Em todos os três exemplos, a estrutura é a mesma: um bem valioso é perdido → Epicteto propõe reinterpretar essa perda como "restituição". Isso significa que o filósofo está ensinando como reagir emocionalmente e racionalmente diante do sofrimento, e não descrevendo leis da natureza ou fazendo crítica social.

Subpasso 4.2 — Conectar o argumento à doutrina estoica da aceitação

Para os estoicos, sofremos não pelos fatos em si, mas pelos juízos que formamos sobre eles. Se julgamos que uma posse é "nossa" de modo absoluto e permanente, sua perda parece uma injustiça revoltante. Mas se compreendemos — como ensina a metáfora da hospedaria — que tudo o que temos (inclusive a vida das pessoas amadas) é um empréstimo temporário da natureza (ou dos deuses, na cosmologia estoica), a perda deixa de ser vista como roubo do destino e passa a ser aceita como parte natural e inevitável da existência. Essa aceitação racional e serena diante do sofrimento é justamente o que caracteriza a ética estoica: não a ausência de dor, mas o cultivo de uma atitude equilibrada e não desesperada diante dela.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa síntese com as cinco alternativas, apenas uma expressa esse conteúdo com precisão: a que fala em "aceitar os sofrimentos com serenidade". As demais tratam de temas ausentes do texto (matemática, prazer como fim último, ciência, convenções sociais), confirmando que o raciocínio conduz inequivocamente à alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) explicar o mundo com números.

❌ Incorreta: essa é uma característica do pitagorismo, escola que atribuía aos números a essência última da realidade. Não há, no texto de Epicteto, nenhuma referência a quantificação, matemática ou estrutura numérica do cosmos — o assunto é inteiramente ético e existencial.

B) identificar a felicidade com o prazer.

❌ Incorreta: essa é a tese central do epicurismo (doutrina de Epicuro, facilmente confundida pelo nome semelhante ao do autor "Epicteto", mas de origem totalmente distinta). O texto de Epicteto não menciona prazer nem o toma como critério de felicidade; ao contrário, trata de como lidar com a dor e a perda, temas opostos à busca hedonista.

C) aceitar os sofrimentos com serenidade.

✅ Correta: é exatamente isso que o texto ensina. Ao reformular a morte de entes queridos e o roubo de bens como "restituições" — e ao comparar a vida a uma estadia passageira em hospedaria —, Epicteto orienta o leitor a enfrentar as perdas inevitáveis da vida com equilíbrio emocional e racional, sem revolta, sem desespero e sem apego excessivo àquilo que não está sob seu controle. Essa é a marca distintiva da ética estoica: a serenidade (ataraxia) diante do sofrimento.

D) questionar o saber científico com veemência.

❌ Incorreta: o texto não trata de ciência, conhecimento ou método algum; é um texto de orientação moral e prática sobre como lidar com a perda. Não há questionamento epistemológico em nenhuma linha do excerto.

E) considerar as convenções sociais com desprezo.

❌ Incorreta: essa característica é mais associada aos cínicos (como Diógenes), que rejeitavam abertamente as convenções sociais como artificiais. Epicteto, ao contrário, não despreza a sociedade nem suas normas — ele apenas orienta a atitude interior do indivíduo diante da perda, sem propor ruptura ou desprezo pelas convenções que regem a vida em comunidade.

🏆 Gabarito: C — o texto de Epicteto ensina, por meio da reformulação linguística "perdi" → "restituí" e da metáfora da hospedaria, que o sábio estoico deve enfrentar mortes, roubos e infortúnios com equilíbrio racional e serenidade, sem se revoltar contra o que está fora de seu controle.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C traduz com fidelidade o conteúdo do texto — a aceitação serena da perda como parte inevitável da existência —, enquanto as demais alternativas remetem a outras escolas filosóficas (pitagorismo, epicurismo, cinismo) ou a temas ausentes do excerto (ciência).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o Estoicismo por meio de fragmentos de Epicteto, Sêneca ou Marco Aurélio, sempre girando em torno da mesma ideia central: distinguir o que está sob nosso controle do que não está, e cultivar a serenidade diante do incontrolável (morte, doença, perdas materiais).
  • Generalização: em questões de filosofia antiga que citam textos-fonte, a estratégia mais eficaz é identificar primeiro o problema prático que o filósofo está resolvendo (aqui: como lidar com a perda) e só depois associá-lo à escola filosófica correspondente — isso evita confundir escolas com nomes parecidos, como epicurismo e estoicismo.
  • Dica de eliminação rápida: sempre que o texto tratar de perda, morte ou infortúnio com tom de aceitação e equilíbrio (sem menção a prazer, números ou crítica à ciência), é praticamente certo que se trata de Estoicismo — elimine de cara alternativas sobre matemática (pitagorismo) e prazer (epicurismo), que são as confusões mais comuns nesse tipo de questão.
  • Conexões: compare com textos de Sêneca sobre a brevidade da vida e de Marco Aurélio nas "Meditações" — ambos reforçam a mesma dicotomia estoica entre o que depende de nós e o que não depende, tema recorrente em provas anteriores do ENEM.

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