Mapa de questões · 1º dia
Questão 49 — ENEM 2017 PPL
O dicionário da Real Academia Espanhola não usa a terminologia de Estado, nação e língua no sentido moderno. Antes de sua edição de 1884, a palavra nación significava simplesmente “o agregado de habitantes de uma província, de um país ou de um reino” e também “um estrangeiro”. Mas agora era dada como “um Estado ou corpo político que reconhece um centro supremo de governo comum”.
HOBSBAWM, E. J. Nações e nacionalismo (desde 1870). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990 (adaptado).
A ideia de nação como lugar de pertencimento, ao qual os indivíduos têm ligação por nascimento, constitui-se na Europa do final do século XIX. Sua difusão resultou
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Formação dos Estados Nacionais e Nacionalismo do século XIX
- ⚡ Nível: Médio — exige articular a mudança semântica do dicionário citado com o processo histórico concreto de construção das identidades nacionais europeias
- 🎯 Tema/Habilidade: Nação como construção histórica; competência de compreender processos de formação de identidades territoriais e culturais na Europa contemporânea
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi a consequência prática da disseminação, no final do século XIX, da ideia de que a nação é um lugar de pertencimento por nascimento?"
- Palavras-chave decisivas: pertencimento por nascimento, difusão, resultou
- Armadilha típica: imaginar que a construção da identidade nacional foi um processo espontâneo, harmônico e inclusivo — que "uniu" povos em pé de igualdade. Essa é a leitura ingênua que as alternativas B, D e E tentam explorar.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que o Estado nacional moderno não nasceu de uma identidade cultural já existente e homogênea; ao contrário, ele fabricou essa homogeneidade de cima para baixo, impondo uma cultura e uma língua a territórios internamente muito diversos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Estado-nação moderno: entidade político-territorial que, a partir do século XIX, passa a se legitimar afirmando representar um povo culturalmente unificado — mesmo quando essa unidade cultural não existia de fato antes do próprio Estado.
- Nacionalismo do século XIX (Hobsbawm): ideologia e movimento político que constrói retroativamente uma "essência nacional" (língua, história, tradições) para justificar a existência e a centralização do Estado, geralmente elegendo a cultura da região ou da elite dominante como representante de todo o país.
- Invenção das tradições: conceito de Hobsbawm e Ranger segundo o qual símbolos, hinos, línguas padronizadas e narrativas históricas "nacionais" são criações deliberadas do período, e não heranças espontâneas de um passado remoto.
- Diversidade interna pré-nacional: antes da unificação política, territórios como França, Itália, Alemanha e Espanha abrigavam dezenas de línguas, dialetos e identidades regionais (occitano, bretão, catalão, basco, napolitano, vêneto, entre outros), que os projetos nacionais precisaram subordinar ou apagar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "antes de sua edição de 1884, a palavra nación significava simplesmente 'o agregado de habitantes de uma província, de um país ou de um reino'" → revela um conceito antigo, descritivo e plural: nação era apenas a soma de pessoas que viviam num mesmo território, sem exigência de identidade cultural comum.
- Evidência 2: "mas agora era dada como 'um Estado ou corpo político que reconhece um centro supremo de governo comum'" → revela a virada decisiva: a partir de 1884, nação passa a significar unidade política centralizada em torno de um poder único — não mais simples coabitação, mas subordinação a um governo comum.
- Síntese: a mudança do dicionário espanhol é o retrato lexical de um processo histórico maior: o Estado, ao se tornar "centro supremo de governo", precisava que os habitantes de seu território deixassem de ser apenas um "agregado" diverso e passassem a se reconhecer como um só povo — e essa unificação, na prática, foi construída pela imposição de uma cultura e de uma língua oficiais.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizando o final do século XIX
O período é o auge do nacionalismo europeu: unificação da Itália (1861-1870) pelo Piemonte, unificação da Alemanha (1871) pela Prússia de Bismarck e consolidação de Estados já formados, como a França da Terceira República e a Espanha. Em todos os casos, o território do novo Estado reunia populações com línguas e tradições regionais distintas — a "nação" cultural ainda não existia; era o Estado que precisava construí-la.
Subpasso 4.2 — O mecanismo de fabricação da identidade nacional
Para transformar esse mosaico regional em uma "nação" coesa, os Estados usaram escola pública obrigatória, serviço militar, imprensa de massa e administração centralizada. Com esses instrumentos, impuseram uma língua oficial única (o francês parisiense na França, o toscano-florentino como "italiano padrão" na Itália, o alemão de referência na Alemanha) e uma narrativa histórica comum, relegando línguas e culturas regionais a um status marginal — muitas vezes proibidas nas escolas e na administração pública.
Subpasso 4.3 — Verificação com o texto de Hobsbawm
Essa é a trajetória descrita no enunciado: de "agregado de habitantes" (pluralidade reconhecida) para "Estado que reconhece um centro supremo de governo comum" (poder centralizado exigindo convergência). O resultado histórico não foi o respeito à diversidade, mas a imposição de uma única língua, cultura e tradição às comunidades que compunham o Estado nacional — o que corresponde à alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) na rápida ascensão de governos com maior participação popular, dado que a unidade nacional anulava as diferenças sociais.
❌ Incorreta: o nacionalismo do XIX foi conduzido predominantemente "de cima para baixo", por elites monárquicas e burguesas (a unificação alemã foi obra de Bismarck e da Prússia, não de um movimento popular), e conviveu com regimes autoritários. A industrialização do período, aliás, aprofundou as diferenças de classe — não as anulou.
B) na construção de uma cultura que incorporava todas as parcialidades equilibradamente dentro de uma identidade comum.
❌ Incorreta: não houve equilíbrio nenhum. O processo foi de hierarquização: a cultura de uma região (geralmente a capital ou o centro político) foi elevada à condição de "cultura nacional", enquanto as demais culturas regionais foram subordinadas, desprestigiadas ou silenciadas.
C) na imposição de uma única língua, cultura e tradição às diferentes comunidades agregadas ao Estado nacional.
✅ Correta: é exatamente o movimento revelado pela mudança semântica do dicionário — de um Estado que apenas reconhece um agregado plural de habitantes para um Estado que exige um "centro supremo" comum, o que na prática histórica significou padronizar língua, cultura e tradição sobre territórios internamente diversos.
D) na anulação pacífica das diferenças étnicas existentes entre as comunidades que passaram a compor a nacionalidade.
❌ Incorreta: o processo esteve longe de ser pacífico. Envolveu guerras de unificação, repressão de línguas e culturas regionais, perseguição a minorias étnicas e linguísticas, e conflitos que persistem até hoje (como as tensões catalã e basca na Espanha).
E) em um intenso processo cultural marcado pelo protagonismo das populações autóctones.
❌ Incorreta: o protagonismo não foi das populações periféricas ou autóctones, mas das elites políticas, intelectuais e culturais do centro do poder, que definiram qual língua e qual tradição seriam elevadas à condição de "nacionais", em detrimento das demais.
🏆 Gabarito: C — a difusão da ideia de nação como pertencimento por nascimento resultou na imposição de uma única língua, cultura e tradição sobre comunidades internamente diversas, processo que o próprio dicionário espanhol registra ao redefinir "nación" como um Estado centralizado em torno de um governo comum.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que capta o caráter impositivo e uniformizador — e não harmônico ou espontâneo — da construção da identidade nacional moderna.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente a ideia de que a nação é uma construção histórica, e não um dado natural, geralmente citando autores como Hobsbawm ou explorando o conceito de "comunidades imaginadas" de Benedict Anderson.
- Generalização: sempre que uma questão tratar do nacionalismo do século XIX, desconfie de alternativas que descrevem o processo como equilibrado, pacífico ou espontaneamente democrático — a construção do Estado-nação moderno foi, historicamente, um processo de centralização política e homogeneização cultural forçada.
- Dica de eliminação rápida: corte de imediato alternativas com termos como "equilibradamente", "anulação pacífica" e "rápida ascensão de governos populares" — são idealizações que não resistem aos fatos históricos; procure a alternativa que fale em "imposição".
- Conexões: o conceito de "comunidades imaginadas" (Benedict Anderson) e a "invenção das tradições" (Hobsbawm e Ranger) são leituras complementares indispensáveis para dominar esse tema; vale também relacionar com os movimentos linguísticos e identitários atuais na Europa (catalães, bascos, corsos, escoceses).
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