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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 6ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia

O mundo mudou

O mundo mudou. “O mundo mudou” porque está sempre mudando. E sempre estará, até que um dia chegue o seu alardeado fim (se é que chegará). Hoje vivemos “protegidos” por muitos cuidados e paparicos, sempre sob a forma de “serviços”, e desde que você tenha dinheiro para usá-los, claro. Carro quebrou na marginal? Relaxe, o guincho da seguradora virá em minutos resgatá-lo. Tem dificuldade de locomoção? Espere, a empresa aérea disporá de uma cadeira de rodas para levá-lo ao terminal. Surgiu uma goteira no seu chalé em plenas férias de verão? Calma, o moço que conserta telhados está correndo para lá agora. Vai ficando para trás um outro mundo — de iniciativas, de gestos solidários, de amizade, de improvisação (sim, “quem não improvisa se inviabiliza”, eu diria, parafraseando Chacrinha).

Estamos criando uma geração que não sabe bater um prego na parede, trocar um botijão de gás, armar uma rede. É, o mundo mudou sim. Só nos resta o telefone do SAC, onde gastaremos nossa bílis com impropérios ao vento; ou o site da loja de eletrodomésticos onde ninguém tem nome (que saudade dos Reginaldos, Edmilsons e Velosos!). Ligaremos para falar com a nossa própria solidão, a nossa dependência do mundo dos serviços e a nossa incapacidade de viver com real simplicidade, soterrados por senhas, protocolos e pendências vãs. Nem Kafka poderia sonhar com tal mundo.

ZECA BALEIRO. Disponível em: www.istoe.com.br. Acesso em: 18 maio 2013 (adaptado).

O texto trata do avanço técnico e das facilidades encontradas pelo homem moderno em relação à prestação de serviços. No desenvolvimento da temática, o autor

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto argumentativo (crônica opinativa)
  • ⚡ Nível: Médio — não há dificuldade lexical, mas exige distinguir alternativas com vocabulário parecido e captar a ironia do texto.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento do posicionamento crítico do autor diante de um tema social; competência de leitura que articula informações explícitas e implícitas de um texto argumentativo.
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual alternativa descreve corretamente a postura do autor diante das facilidades trazidas pelos serviços modernos?"
  • Palavras-chave decisivas: avanço técnico, facilidades, no desenvolvimento da temática
  • Armadilha típica: confundir a ironia das aspas em "protegidos" e "serviços" com uma defesa literal dessa proteção, ou tomar a única menção a Kafka como prova de que o autor "recorre a clássicos" para sustentar sua tese.
  • O que a resposta precisa demonstrar: captar o tom crítico e pessimista do cronista, além de identificar a consequência que ele atribui às facilidades — o afastamento das relações afetivas e a acomodação do indivíduo moderno.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Crônica argumentativa: gênero que parte de situações cotidianas (o carro na marginal, a goteira no chalé, o SAC) para construir um posicionamento crítico do autor sobre um tema social mais amplo.
  • Ironia marcada por aspas: quando o autor escreve "protegidos", "serviços" e "quem não improvisa se inviabiliza" entre aspas, ele sinaliza distanciamento crítico em relação a esses termos, não adesão a eles.
  • Progressão argumentativa por contraste: o texto opõe um "mundo de antes" (iniciativas, gestos solidários, amizade, improvisação, pessoas com nome) a um "mundo de agora" (serviços impessoais, protocolos, senhas), e essa oposição é o eixo que sustenta o julgamento negativo do autor.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Hoje vivemos 'protegidos' por muitos cuidados e paparicos, sempre sob a forma de 'serviços'" → as aspas denunciam ironia: a proteção é aparente, condicionada a quem pode pagar, e não motivo de celebração.
  • Evidência 2: "Vai ficando para trás um outro mundo — de iniciativas, de gestos solidários, de amizade, de improvisação" → o autor lamenta a perda de vínculos humanos genuínos, evidenciando pesar, não conformismo.
  • Evidência 3: "Estamos criando uma geração que não sabe bater um prego na parede, trocar um botijão de gás, armar uma rede" → crítica direta à acomodação e à perda de autonomia prática do homem moderno.
  • Evidência 4: "Ligaremos para falar com a nossa própria solidão, a nossa dependência do mundo dos serviços e a nossa incapacidade de viver com real simplicidade" → nomeia explicitamente solidão, dependência e incapacidade afetiva como efeitos das facilidades — o núcleo do julgamento pessimista do texto.
  • Síntese: as quatro evidências, lidas em conjunto, mostram que o autor não celebra o avanço dos serviços: ele o problematiza, apontando como consequência a acomodação do indivíduo e o distanciamento das relações afetivas e solidárias que caracterizavam "um outro mundo".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear o eixo temático central

O texto se organiza em torno de uma contraposição: de um lado, o "mundo de antes", marcado por solidariedade, improvisação e relações pessoais (os "Reginaldos, Edmilsons e Velosos" que tinham nome e rosto); de outro, o "mundo de agora", em que tudo é resolvido por "serviços" prestados por empresas sem identidade, mediante pagamento. Essa oposição não é neutra — ela já embute um juízo de valor do cronista.

Subpasso 4.2 — Identificar o julgamento de valor do autor

Ao longo do texto, os exemplos de "facilidade" (o guincho, a cadeira de rodas no aeroporto, o conserto do telhado) são narrados de forma quase sarcástica, seguidos por um contraponto sombrio: "Só nos resta o telefone do SAC, onde gastaremos nossa bílis com impropérios ao vento" e "Ligaremos para falar com a nossa própria solidão". Ou seja, o autor mostra que, por trás da comodidade, há isolamento, frustração e dependência emocional. Esse é o núcleo do texto: as facilidades modernas não trazem só conforto, trazem também acomodação (a incapacidade de "bater um prego na parede") e afastamento afetivo (a substituição do vínculo humano por "senhas, protocolos e pendências vãs").

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

Com esse juízo de valor mapeado — pessimismo diante das facilidades, por gerarem acomodação e distanciamento das relações afetivas —, basta confrontar cada alternativa com o que o texto efetivamente afirma para localizar a única que reproduz fielmente esse sentido, sem inventar teses que o texto não sustenta (como defesa do anonimato, uso de "clássicos" como prova, conformismo ou crença em proteção plena contra danos).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) mostra a necessidade de se construir uma sociedade baseada no anonimato, reafirmando a ideia de que a intimidade nas relações profissionais exerce influência negativa na qualidade do serviço prestado.

❌ Incorreta: é o oposto do que o texto defende. O autor lamenta justamente a perda do vínculo pessoal — "que saudade dos Reginaldos, Edmilsons e Velosos!" —, mostrando que a intimidade nas relações fazia falta, e não que o anonimato deveria ser buscado como modelo social.

B) apresenta uma visão pessimista acerca de tais facilidades porque elas contribuem para que o homem moderno se torne acomodado e distanciado das relações afetivas.

✅ Correta: resume com precisão o duplo movimento do texto — crítica à acomodação ("geração que não sabe bater um prego na parede") e denúncia do distanciamento afetivo ("nossa própria solidão", perda das "amizades" e dos "gestos solidários"). É exatamente o julgamento de valor construído do início ao fim da crônica.

C) recorre a clássicos da literatura mundial para comprovar o porquê da necessidade de se viver a simplicidade e a solidariedade em tempos de solidão quase inevitável.

❌ Incorreta: há apenas uma referência pontual a Kafka, no fecho do texto ("Nem Kafka poderia sonhar com tal mundo"), usada como comparação hiperbólica e não como recurso de comprovação argumentativa. Uma única citação não configura "recorrer a clássicos" no plural, tampouco tem função de prova.

D) defende uma posição conformista perante o quadro atual, apresentando exemplos, em seu cotidiano, de boa aceitação da praticidade oferecida pela vida moderna.

❌ Incorreta: o autor não aceita passivamente o quadro atual — ele o questiona por meio de ironia ("protegidos" entre aspas) e de lamento explícito pela perda de um "outro mundo". Não há conformismo, e sim crítica.

E) acredita na existência de uma superproteção, que impede os indivíduos modernos de sofrerem severos danos materiais e emocionais.

❌ Incorreta: o texto relativiza justamente essa ideia de proteção plena, colocando "protegidos" entre aspas de forma irônica. Além disso, o próprio autor descreve danos emocionais que persistem — solidão, dependência, incapacidade de viver com simplicidade —, contradizendo a tese de uma proteção eficaz contra sofrimento.

🏆 Gabarito: B — o texto constrói, do início ao fim, uma crítica às facilidades da vida moderna, mostrando que elas geram acomodação prática e isolamento afetivo, exatamente o que a alternativa B sintetiza.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa B traduz o duplo efeito negativo apontado pelo autor — acomodação ("não sabe bater um prego na parede") e distanciamento afetivo ("nossa própria solidão") —, sem extrapolar o texto como fazem as demais opções.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra crônicas ou textos opinativos em que o candidato precisa identificar o ponto de vista do autor (a favor, contra ou ambíguo) sobre um tema social, distinguindo-o de paráfrases distorcidas nas alternativas.
  • Generalização: em textos irônicos, preste atenção redobrada às aspas e aos contrastes ("antes x agora", "parece x é"): eles quase sempre sinalizam o verdadeiro posicionamento do autor, que costuma ser o oposto do sentido literal da palavra destacada.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que atribuam ao autor uma posição de aceitação ou defesa explícita do que ele critica (como D e E) e alternativas que citem um recurso argumentativo (como "clássicos da literatura") não sustentado pela quantidade ou pela função do trecho no texto (como C).
  • Conexões: tema recorrente com questões sobre crônicas de costumes e sobre o efeito de sentido da pontuação (aspas, travessão) na construção da ironia — vale revisar ambos os assuntos juntos.

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