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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensArtesMédio

Questão 32ENEM 2017 PPL

TEXTO I

DUCHAMP, M. Roda de bicicleta. Barcelona: Polígrafa, 1995.

TEXTO II

Ao ser questionado sobre seu processo de criação de ready-mades, Marcel Duchamp afirmou:

— Isto dependia do objeto; em geral, era preciso tomar cuidado com o seu look. É muito difícil escolher um objeto porque depois de quinze dias você começa a gostar dele ou a detestá-lo. É preciso chegar a qualquer coisa com uma indiferença tal que você não tenha nenhuma emoção estética. A escolha do ready-made é sempre baseada na indiferença visual e, ao mesmo tempo, numa ausência total de bom ou mau gosto.

CABANNE, P. Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido. São Paulo: Perspectiva, 1987 (adaptado).

Relacionando o texto e a imagem da obra, entende-se que o artista Marcel Duchamp, ao criar os ready-mades, inaugurou um modo de fazer arte que consiste em

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Artes → vanguardas artísticas do século XX, ready-made e crítica institucional da arte
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular uma imagem (objeto do cotidiano) com um depoimento teórico abstrato do próprio artista
  • 🎯 Tema/Habilidade: Duchamp e o ready-made como ruptura com os critérios tradicionais de definição da obra de arte (Competência de Área 6 de Linguagens — compreender e usufruir das manifestações artísticas)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após a resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a atitude de Duchamp — pegar uma roda de bicicleta e um banco e chamar isso de arte, escolhendo o objeto por indiferença — revela sobre um novo jeito de fazer arte?"
  • Palavras-chave decisivas: indiferença visual, ausência total de bom ou mau gosto, ready-made
  • Armadilha típica: confundir o resultado concreto do gesto (um objeto industrial virou obra) com o seu real significado conceitual (a obra passou a questionar os próprios critérios que definem "o que é arte")
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o ready-made não é sobre embelezar ou elevar um objeto, mas sobre desafiar as regras que tradicionalmente separavam "arte" de "não arte"

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Ready-made: objeto industrial pronto (não fabricado pelo artista) que é deslocado de sua função utilitária e apresentado como obra de arte apenas pelo ato de escolha e assinatura do artista.
  • Dadaísmo e vanguardas históricas: movimentos do início do século XX (Duchamp ligado ao Dadá) que rejeitaram os valores acadêmicos de beleza, técnica e habilidade manual como critérios para julgar arte.
  • Indiferença estética: postura deliberada de Duchamp de escolher objetos sem envolvimento emocional ou juízo de gosto, justamente para impedir que a obra fosse avaliada pelos critérios tradicionais de "bonito/feio", "bem-feito/mal-feito".
  • Institucionalização da arte: a ideia de que uma obra é reconhecida como tal não por suas qualidades intrínsecas, mas pelo contexto (galeria, museu, discurso do artista) que a legitima — questão que os ready-mades escancaram.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1 (Texto I): a imagem mostra uma roda de bicicleta comum, invertida, presa sobre um banquinho de madeira — dois objetos utilitários e sem qualquer refinamento artístico → mostra que a obra não nasce de talento manual do artista, mas da simples combinação e escolha de objetos já existentes.
  • Evidência 2 (Texto II): "É preciso chegar a qualquer coisa com uma indiferença tal que você não tenha nenhuma emoção estética" → revela que o critério de seleção do objeto era exatamente o oposto do critério clássico (beleza, virtuosismo, emoção estética).
  • Evidência 3: "A escolha do ready-made é sempre baseada na indiferença visual e, ao mesmo tempo, numa ausência total de bom ou mau gosto" → reforça que Duchamp anula deliberadamente os parâmetros de gosto que historicamente definiam se algo "merecia" ser chamado de arte.
  • Síntese: ao unir a imagem (objeto banal, sem trabalho artesanal do artista) com a fala (recusa consciente de qualquer critério estético), o texto mostra que Duchamp não estava tentando fazer um objeto industrial "bonito" ou "artístico" — ele estava testando e expondo os próprios limites e regras que decidiam o que contava como obra de arte.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o gesto artístico retratado

"Roda de Bicicleta" (1913) é considerada o primeiro ready-made de Duchamp: uma roda de bicicleta comum montada de cabeça para baixo sobre um banco de cozinha. Não há pintura, escultura talhada ou qualquer intervenção manual tradicional — apenas a montagem de dois objetos industriais já prontos. Isso já rompe com a ideia de que a arte depende da habilidade técnica do artista em produzir algo com as próprias mãos.

Subpasso 4.2 — Interpretar o depoimento de Duchamp

No Texto II, Duchamp explica seu método: a escolha do objeto não podia ser guiada por gosto pessoal, nem por beleza, nem por qualquer "emoção estética". Ele buscava a "indiferença visual" — ou seja, o objeto deveria ser escolhido de forma quase aleatória, sem juízo de valor estético algum. Essa fala é a chave da questão: ela mostra que o objetivo de Duchamp não era criar algo esteticamente agradável (o que ainda preservaria os critérios clássicos de arte, só que aplicados a um objeto novo), mas sim desmontar a própria lógica de que arte = objeto de contemplação estética feito com virtuosismo.

Subpasso 4.3 — Verificação: cruzando imagem e texto com as alternativas

Ao unir os dois textos, a conclusão lógica é: Duchamp inaugura um "modo de fazer arte" em que o valor da obra não está mais em ela ser bela, bem executada ou feita à mão — está em ela provocar uma reflexão sobre o que legitima algo como arte. Isso é, por definição, uma crítica aos princípios (critérios de beleza, técnica, autoria manual) que até então determinavam o que era considerado obra de arte. Esse raciocínio aponta diretamente para a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) designar ao artista de vanguarda a tarefa de ser o artífice da arte do século XX.

❌ Incorreta: o texto não trata de atribuir uma "missão histórica" ao artista de vanguarda como classe; ele descreve um método pessoal e específico de criação (a indiferença na escolha do objeto), sem qualquer menção a um papel geral que os artistas de vanguarda deveriam cumprir no século XX. É uma generalização que os textos não sustentam.

B) considerar a forma dos objetos como elemento essencial da obra de arte.

❌ Incorreta: é o oposto do que Duchamp afirma. Ele diz explicitamente que a escolha se baseava na "indiferença visual", ou seja, a forma/aparência do objeto era irrelevante — não essencial. Valorizar a forma seria manter o critério estético clássico que Duchamp justamente rejeita.

C) revitalizar de maneira radical o conceito clássico do belo na arte.

❌ Incorreta: Duchamp não busca renovar o conceito de belo — ele o descarta como critério. A "ausência total de bom ou mau gosto" mostra que o belo deixa de ser parâmetro, não que é revitalizado ou intensificado de forma nova.

D) criticar os princípios que determinam o que é uma obra de arte.

✅ Correta: ao escolher objetos industriais banais com total indiferença estética e apresentá-los como arte, Duchamp questiona os fundamentos que definiam uma obra — habilidade manual, beleza, originalidade material. O ready-made expõe que esses critérios são convencionais, não naturais, abrindo caminho para a arte conceitual do século XX.

E) atribuir aos objetos industriais o status de obra de arte.

❌ Incorreta: descreve apenas a consequência visível do gesto (um objeto industrial passou a ser exposto como arte), mas não capta o sentido conceitual explicado no Texto II. O foco de Duchamp não era "promover" objetos industriais especificamente, e sim usar qualquer objeto, escolhido com indiferença, para questionar os critérios de definição da arte — o industrial é meio, não o fim da reflexão.

🏆 Gabarito: D — a fala de Duchamp sobre indiferença visual e ausência de bom/mau gosto, somada à imagem de um objeto utilitário transformado em obra, evidencia que seu ready-made questiona os próprios critérios (beleza, técnica, autoria manual) que tradicionalmente definiam o que é arte.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D capta o alcance filosófico do gesto de Duchamp: não é sobre "objeto bonito" (B, C) nem sobre "objeto industrial vira arte" por si só (E), nem sobre um papel genérico do artista de vanguarda (A) — é sobre desestabilizar os critérios que definem a própria noção de obra de arte.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz vanguardas artísticas (Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo, Pop Art) associando uma imagem de obra a um texto teórico ou depoimento do artista, pedindo que o candidato relacione forma e discurso para captar a ruptura estética proposta.
  • Generalização: sempre que a questão envolver "ready-made", "arte conceitual" ou vanguardas que usam objetos do cotidiano, desconfie de alternativas que falem em "beleza", "forma" ou "aprimoramento técnico" — geralmente são armadilhas, pois essas vanguardas costumam negar justamente esses critérios clássicos.
  • Dica de eliminação rápida: procure no texto de apoio palavras como "indiferença", "sem emoção estética", "ausência de gosto" — elas eliminam na hora qualquer alternativa que valorize forma, beleza ou virtuosismo (aqui, B e C caem imediatamente).
  • Conexões: compare com a "Fonte" (Fountain, 1917), outro ready-made de Duchamp (um urinol assinado "R. Mutt"), e com o conceito de "morte do autor tradicional" na arte contemporânea, em que a intenção e o contexto passam a valer mais que a execução manual.

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