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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 54ENEM 2017 PPL

A tecelagem é numa sala com quatro janelas e 150 operários. O salário é por obra. No começo da fábrica, os tecelões ganhavam em média 170$000 réis mensais. Mais tarde não conseguiam ganhar mais do que 90$000; e pelo último rebaixamento, a média era de 75$000! E se a vida fosse barata! Mas as casas que a fábrica aluga, com dois quartos e cozinha, são a 20$000 réis por mês; as outras são de 25$ a 30$000 réis. Quanto aos gêneros de primeira necessidade, em regra custam mais do que em São Paulo.

CARONE, E. Movimento operário no Brasil. São Paulo: Difel, 1979.

Essas condições de trabalho, próprias de uma sociedade em processo de industrialização como a brasileira do início do século XX, indicam a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → industrialização brasileira e movimento operário na Primeira República
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é claro, mas exige articular três dados (salário, aluguel, custo de vida) para identificar o conceito histórico correto
  • 🎯 Tema/Habilidade: Condições de trabalho na industrialização do início do século XX; competência de leitura crítica de fonte histórica primária
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O relato sobre queda de salários, aluguel caro e alto custo de vida numa fábrica têxtil revela qual característica das relações de trabalho no Brasil industrializante?"
  • Palavras-chave decisivas: rebaixamento de salário, 170$000 → 90$000 → 75$000, casas que a fábrica aluga
  • Armadilha típica: confundir o tema com "alta de preços" (E), tratando o texto como se fosse só sobre economia/inflação, e ignorar que o cerne do relato é a relação desigual entre patrão e operário
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler um documento histórico e extrair dele a lógica estrutural das relações de produção capitalista, não apenas os dados isolados que aparecem na superfície do texto

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Industrialização brasileira (início do século XX): processo concentrado sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, marcado por fábricas têxteis, ausência quase total de legislação trabalhista e forte dependência do operário em relação ao empregador, que controlava salário, moradia e, muitas vezes, o próprio abastecimento.
  • Truck system (vale/aluguel controlado pela fábrica): prática em que o empresário fornece moradia, alimentos ou vales aos operários, descontando-os do salário ou cobrando aluguel diretamente — mecanismo que aprofunda a dependência do trabalhador e amplia o lucro do patrão mesmo em contextos de arrocho salarial.
  • Exploração burguesa (mais-valia e "questão social"): apropriação, pelo detentor dos meios de produção, de parte do valor gerado pelo trabalho, mantendo salários baixos e decrescentes enquanto o custo de vida do trabalhador permanece alto — núcleo da "questão social" da Primeira República, tratada pelo Estado como caso de polícia até os anos 1930.
  • Movimento operário organizado: resposta coletiva (greves, sindicatos, imprensa operária) a esse quadro de exploração; no texto não há qualquer menção a organização coletiva dos trabalhadores, apenas a descrição das condições que geram o descontentamento — sinal de que o fenômeno relatado é a causa, não a reação.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "No começo da fábrica, os tecelões ganhavam em média 170$000 réis mensais [...] pelo último rebaixamento, a média era de 75$000!" → mostra queda contínua e acentuada do salário nominal (mais de 55% de perda), decidida unilateralmente pelo patrão, sem qualquer negociação com os trabalhadores.
  • Evidência 2: "as casas que a fábrica aluga [...] são a 20$000 réis por mês; as outras são de 25$ a 30$000 réis. Quanto aos gêneros de primeira necessidade, em regra custam mais do que em São Paulo." → revela que a mesma fábrica que reduz salários mantém — e às vezes lucra com — os custos de moradia e subsistência que o operário precisa pagar, apertando ainda mais sua margem de sobrevivência.
  • Síntese: o documento combina dois movimentos simultâneos e controlados pelo empregador — salário caindo e custo de vida se mantendo alto, inclusive cobrado pela própria fábrica — o que caracteriza uma relação de poder assimétrica entre capital e trabalho, ou seja, a exploração do operário pela burguesia industrial nascente.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de fonte e seu contexto

O texto é um relato descritivo sobre uma fábrica têxtil brasileira do início do século XX, extraído de uma obra sobre o movimento operário no Brasil (Edgard Carone). Esse tipo de fonte é comum em provas de História para avaliar a leitura crítica de testemunhos da época da industrialização, quando não havia legislação trabalhista — a CLT só viria em 1943 — e o empregador tinha controle quase absoluto sobre salário, moradia e condições de vida do operariado.

Subpasso 4.2 — Cruzar os dados numéricos com o argumento histórico

Observe a evolução do salário: 170$000 → 90$000 → 75$000 réis. É uma queda superior a 55% em relação ao valor inicial, decidida de forma progressiva e unilateral pela fábrica ("pelo último rebaixamento"). Ao mesmo tempo, o texto deixa claro que a vida não é barata: aluguéis de 20$ a 30$000 réis e gêneros de primeira necessidade mais caros do que em São Paulo. Ou seja, enquanto a renda do trabalhador diminui, as despesas básicas continuam altas — muitas vezes cobradas pela própria fábrica, que aluga as casas aos operários. Esse desenho, em que quem paga o salário também controla o custo da moradia, é a marca clássica da subordinação do trabalhador ao empregador em contextos industriais sem regulação estatal.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando essa lógica com as cinco alternativas, apenas uma expressão sintetiza corretamente o fenômeno descrito: uma relação em que o detentor do capital — a fábrica, a burguesia industrial — impõe condições cada vez piores ao trabalhador, extraindo o máximo de valor do seu trabalho enquanto mantém elevado o custo de sua sobrevivência, isto é, exploração burguesa. As demais alternativas descrevem elementos ausentes do texto (sindicatos, especialização técnica, ritmo do processo de industrialização) ou tratam apenas de um efeito colateral (preços) sem captar a relação de poder que estrutura todo o relato.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) exploração burguesa.

✅ Correta: o texto mostra, em conjunto, salários decrescentes fixados unilateralmente pela fábrica e custo de vida (moradia e gêneros básicos) mantido alto, muitas vezes cobrado pela própria empresa. Essa combinação é a expressão concreta da exploração do trabalho pelo capital industrial — o empregador amplia sua margem de lucro comprimindo a remuneração do operário sem reduzir o que ele precisa pagar para sobreviver, típica das relações de trabalho na industrialização brasileira sem legislação protetiva.

B) organização dos sindicatos.

❌ Incorreta: o trecho é inteiramente descritivo das condições de trabalho e de vida; não há qualquer menção a greves, associações, reivindicações coletivas ou qualquer forma de organização dos tecelões. O texto relata o problema — a exploração — e não a resposta organizada dos trabalhadores a ele, que historicamente ainda era incipiente nesse período.

C) ausência de especialização.

❌ Incorreta: o documento não trata de qualificação técnica, formação profissional ou divisão de tarefas na tecelagem. O foco está exclusivamente em salário e custo de vida, temas que nada têm a ver com o grau de especialização da mão de obra empregada na fábrica.

D) industrialização acelerada.

❌ Incorreta: embora o texto se passe num contexto de industrialização, ele não fornece dados sobre ritmo de crescimento fabril, número de fábricas, investimento ou expansão do setor têxtil — apenas descreve a rotina de exploração dentro de uma única fábrica já estabelecida. A "aceleração" do processo industrial não é o que o relato evidencia.

E) alta de preços.

❌ Incorreta: essa alternativa capta apenas um fragmento do texto (o custo de aluguéis e gêneros de primeira necessidade), mas ignora o dado central e mais contundente do relato: a queda progressiva do salário decidida pela fábrica. Isolar o preço sem relacioná-lo à exploração salarial é interpretar a fonte de forma parcial e superficial.

🏆 Gabarito: A — o relato articula salário decrescente e custo de vida elevado, ambos sob controle direto da fábrica, evidenciando a relação assimétrica de poder entre patrão e operário típica da exploração burguesa na industrialização brasileira.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A conecta os dois dados centrais do texto (queda salarial + custo de vida alto controlado pela fábrica) em um único conceito histórico coerente; as demais isolam detalhes ou introduzem elementos inexistentes no relato.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fontes primárias (relatos de operários, jornais da época, relatórios de inspetores) sobre a Primeira República para testar se o aluno entende a "questão social" como consequência da industrialização sem regulação trabalhista — não basta identificar o tema geral (indústria), é preciso captar a relação de poder por trás dos números.
  • Generalização: em questões de História com fonte primária, a resposta certa quase sempre é aquela que sintetiza a lógica estrutural do texto (a relação entre os agentes envolvidos), e não a que repete um dado isolado ou insere um evento que a fonte não menciona.
  • Dica de eliminação rápida: primeiro descarte alternativas que citam algo que NÃO aparece no texto (aqui, "sindicatos" e "especialização" somem de imediato); depois, entre as opções restantes, escolha a que engloba TODOS os dados apresentados (salário caindo + moradia/gêneros caros), não apenas um deles.
  • Conexões: compare esse tema com a "questão social" na Primeira República (greve geral de 1917, anarquismo e movimento operário) e com a ausência de direitos trabalhistas antes da Era Vargas — dois assuntos que o ENEM frequentemente cobra em conjunto com este tipo de fonte histórica.

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