Mapa de questões · 1º dia
Questão 18 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
O último refúgio da língua geral no Brasil
No coração da Floresta Amazônica é falada uma língua que participou intensamente da história da maior região do Brasil. Trata-se da língua geral, também conhecida como nheengatu ou tupi moderno. A língua geral foi ali mais falada que o próprio português, inclusive por não índios, até o ano de 1877. Alguns fatores contribuíram para o desaparecimento dessa língua de grande parte da Amazônia, como perseguições oficiais no século XVIII e a chegada maciça de falantes de português durante o ciclo da borracha, no século XIX. Língua-testemunho de um passado em que a Amazônia brasileira alargava seus territórios, a língua geral hoje é falada por mais de 6 mil pessoas, num território que se estende pelo Brasil, Venezuela e Colômbia. Em 2002, o município de São Gabriel da Cachoeira ficou conhecido por ter oficializado as três línguas indígenas mais usadas ali: o nheengatu, o baníua e o tucano. Foi a primeira vez que outras línguas, além do português, ascendiam à condição de línguas oficiais no Brasil. Embora a oficialização dessas línguas não tenha obtido todos os resultados esperados, redundou no ensino de nheengatu nas escolas municipais daquele município e em muitas escolas estaduais nele situadas. É fundamental que essa língua de tradição eminentemente oral tenha agora sua gramática estudada e que textos de diversas naturezas sejam escritos, justamente para enfrentar os novos tempos que chegaram.
O esforço de preservação do nhengatu, uma língua que sofre com o risco de extinção, significa o reconhecimento de que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto e Sociolinguística (variação e valor social das línguas)
- ⚡ Nível: Médio — o texto é claro, mas a alternativa correta exige síntese de toda a argumentação, e não a localização de uma frase isolada
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer o papel das línguas indígenas na construção da identidade cultural amazônica (Competência de Área 1 — variação linguística e valores sociais das línguas)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que significa, em termos culturais, o esforço para não deixar o nheengatu desaparecer?"
- Palavras-chave decisivas: esforço de preservação, reconhecimento de que, risco de extinção
- Armadilha típica: confundir "preservar uma língua ameaçada" com "a língua se preserva sozinha" (alternativa A) ou com "o problema já foi resolvido" (alternativa C) — o texto não afirma nenhuma das duas coisas
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o esforço de preservação é um gesto de reconhecimento histórico-cultural, não uma descrição de eficácia de políticas públicas nem de autossuficiência linguística
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Língua geral (nheengatu): língua de base tupi, formada no período colonial, que funcionou como principal língua de comunicação na Amazônia — falada até por não indígenas — até o final do século XIX.
- Variação e valor social das línguas: toda língua carrega uma visão de mundo e uma história; quando uma comunidade decide documentar, ensinar e oficializar uma língua ameaçada, ela está afirmando que essa língua tem valor identitário, não apenas comunicativo.
- Cooficialização linguística: ato político de reconhecer, ao lado do português, outras línguas como parte legítima da vida institucional de um território (caso de São Gabriel da Cachoeira, em 2002).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "uma língua que participou intensamente da história da maior região do Brasil" → o texto já abre afirmando que o nheengatu não é um detalhe folclórico, mas parte estruturante da história amazônica.
- Evidência 2: "a língua geral foi ali mais falada que o próprio português, inclusive por não índios, até o ano de 1877" → mostra que a identidade linguística da região, por séculos, não foi construída pelo português, e sim por uma língua de origem indígena.
- Evidência 3: "É fundamental que essa língua de tradição eminentemente oral tenha agora sua gramática estudada e que textos de diversas naturezas sejam escritos" → o esforço de preservação é ativo, institucional e pedagógico — não espontâneo nem automático.
- Síntese: o texto inteiro constrói a ideia de que a Amazônia se formou culturalmente também por meio de línguas indígenas; logo, preservar o nheengatu é reconhecer esse papel histórico da língua na formação da cultura regional.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fio condutor do texto
O texto narra: (1) o nheengatu foi, por séculos, a principal língua falada na Amazônia, superando o português; (2) fatores históricos (perseguição no século XVIII, chegada maciça de falantes de português no ciclo da borracha) levaram ao seu declínio; (3) hoje há um movimento de resgate, com oficialização em São Gabriel da Cachoeira e ensino nas escolas. O comando pergunta o que esse movimento de resgate "significa" — ou seja, pede a leitura do sentido simbólico e cultural do esforço, não um resumo factual.
Subpasso 4.2 — Conectar "esforço de preservação" a "reconhecimento"
Preservar uma língua ameaçada de extinção só faz sentido se essa língua for entendida como parte relevante da identidade de um povo. O texto deixa isso explícito ao mostrar que a língua geral "participou intensamente da história da maior região do Brasil" e foi, por décadas, mais falada que o português. Assim, o esforço atual de ensino, gramatização e produção de textos em nheengatu é a materialização do reconhecimento de que a cultura amazônica não foi construída apenas com a língua portuguesa, mas também — "em parte", como diz a alternativa B — pela expressão em línguas indígenas.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao comparar essa síntese com as cinco alternativas, apenas a alternativa B expressa exatamente essa ideia: a cultura amazônica se constituiu, ao longo do tempo, também pela expressão em línguas de origem indígena — o que justifica, logicamente, o esforço de preservar o nheengatu hoje. As demais alternativas ou contradizem trechos explícitos do texto, ou trazem afirmações que o texto não sustenta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) as línguas de origem indígena têm seus próprios mecanismos de autoconservação.
❌ Incorreta: o texto mostra exatamente o oposto — o nheengatu está "em risco de extinção" e só se mantém vivo por causa de ações humanas deliberadas (oficialização, ensino nas escolas, produção de gramática e textos escritos). Não há autoconservação espontânea; há intervenção institucional e pedagógica ativa.
B) a construção da cultura amazônica, ao longo dos anos, constituiu-se, em parte, pela expressão em línguas de origem indígena.
✅ Correta: é a única alternativa que capta o sentido histórico do texto. O nheengatu foi, por séculos, a língua mais falada na Amazônia, moldando a comunicação, a identidade e a memória da região. Reconhecer isso — e agir para preservar essa língua — é reconhecer que a cultura amazônica não se formou só a partir do português, mas também da expressão em línguas indígenas.
C) as ações políticas e pedagógicas implementadas até o momento são suficientes para a preservação da língua geral amazônica.
❌ Incorreta: contradiz literalmente o texto, que afirma que "a oficialização dessas línguas não tenha obtido todos os resultados esperados" — ou seja, as ações até agora são insuficientes, e é justamente por isso que a língua "sofre com o risco de extinção".
D) a diversidade do patrimônio cultural brasileiro, historicamente, tem se construído com base na unidade da língua portuguesa.
❌ Incorreta: inverte o argumento do texto. O texto valoriza exatamente a diversidade linguística (nheengatu, baníua e tucano oficializados junto com o português), não uma suposta unidade em torno do português como base cultural única.
E) o Brasil precisa se diferenciar de países vizinhos, como Venezuela e Colômbia, por meio de um idioma comum na Amazônia brasileira.
❌ Incorreta: extrapola e distorce a informação do texto. A menção a Venezuela e Colômbia serve apenas para indicar que o nheengatu é falado num território que ultrapassa fronteiras nacionais — não há qualquer menção a disputa ou necessidade de diferenciação entre países, nem a ideia de "idioma comum" imposto.
🏆 Gabarito: B — o esforço de preservar o nheengatu só se justifica porque a cultura amazônica foi, historicamente, construída também por meio de línguas indígenas, e é exatamente esse reconhecimento que a alternativa B expressa.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa B é a única que sintetiza corretamente a relação de causa e efeito do texto: porque a língua indígena moldou a cultura regional, seu resgate é um ato de reconhecimento histórico — nenhuma outra alternativa sustenta essa lógica sem contradizer algum trecho do enunciado.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa textos sobre línguas indígenas, crioulas ou de imigração para testar se o estudante entende que toda variedade linguística carrega valor cultural e identitário, combatendo o preconceito linguístico.
- Generalização: em questões sobre variação linguística e línguas minoritárias, a alternativa correta quase sempre valoriza a diversidade e o papel identitário da língua; alternativas que defendem "suficiência de políticas já implementadas" ou "superioridade/unidade de uma única língua" costumam ser armadilhas.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que afirme que "já está resolvido" (contradiz o tom de alerta do texto) e qualquer alternativa que hierarquize uma língua sobre outra (o texto trata todas com igual respeito, daí a cooficialização de três línguas indígenas).
- Conexões: compare com outras questões ENEM sobre preconceito linguístico e sobre línguas de comunidades quilombolas ou de imigrantes (como o talian ou o hunsrückisch) — o raciocínio de "língua como patrimônio cultural" se repete nesses casos.
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