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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 10ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia

O exercício da crônica

Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo.
MORAES, V. Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.

Nesse trecho, Vinicius de Moraes exercita a crônica para pensá-la como gênero e prática. Do ponto de vista dele, cabe ao cronista

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto / Gêneros textuais (crônica)
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta não está dita de forma literal; exige inferir, a partir de uma comparação metafórica, a concepção de ofício que Vinicius de Moraes atribui ao cronista.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer, em texto de opinião/crônica, a concepção de escrita e o papel que o autor atribui ao próprio gênero que pratica.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo Vinicius de Moraes, qual é a função do cronista ao escrever uma crônica?"
  • Palavras-chave decisivas: "prosa do cotidiano", "fato... colhido no noticiário", "injetar um sangue novo"
  • Armadilha típica: marcar "reproduzir as notícias" só porque o texto cita "noticiário", sem perceber que o verbo-chave é transformar esse fato, não repeti-lo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o cronista parte do real cotidiano e o reelabora pela escrita — não inventa do nada (isso é do ficcionista) nem apenas relata (isso é do jornalista).

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Crônica como gênero: texto breve, de fronteira entre literatura e jornalismo, que parte de um fato do cotidiano — muitas vezes uma notícia — para tecer sobre ele uma reflexão, ironia ou comentário pessoal do autor.
  • Contraste ficcionista x cronista: Vinicius abre o trecho opondo dois ofícios. O ficcionista é "levado meio a tapas pelas personagens e situações que... criou porque quis" — inventa um mundo do zero e é dominado por ele. Já o cronista, "prosador do cotidiano", "fia mais fino": trabalha com mais rigor porque não parte da invenção pura, e sim de algo dado pela realidade.
  • Metáfora "injetar um sangue novo": indica vitalidade, sentido renovado. Injetá-lo num fato do noticiário significa dar a esse fato corriqueiro uma vida que ele não tinha na notícia crua — ressignificá-lo pela escrita.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera" → a matéria-prima da crônica é o cotidiano/o real, não uma invenção livre nem uma cópia fiel do texto jornalístico.
  • Evidência 2: "com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo" → a ação do cronista é transformadora: por meio de recursos próprios de estilo, ele dá sentido renovado ao fato colhido.
  • Síntese: somadas, as evidências mostram um movimento em duas etapas — partir de um fato cotidiano/noticioso e reelaborá-lo pela escrita, dando-lhe outro sentido. É esse duplo movimento que a alternativa correta precisa capturar.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear a comparação inicial do texto

Vinicius contrapõe dois tipos de prosa: a do ficcionista, "levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis" (inventa livremente e perde o controle da própria criação); e a do cronista — "prosador do cotidiano" —, para quem "a coisa fia mais fino", ou seja, exige trabalho mais comedido, por não partir da invenção pura.

Subpasso 4.2 — Isolar o verbo de ação central do cronista

Frase-chave: o cronista "busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário... em que... possa injetar um sangue novo". Estrutura lógica: (a) ele parte de um fato já existente, tirado do cotidiano/noticiário; (b) usa imaginação e "artimanhas peculiares" para (c) "injetar um sangue novo" — renová-lo, dar-lhe outro sentido.

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

A alternativa correta precisa reunir dois elementos: o ponto de partida é o cotidiano/fato real e a ação do cronista é transformadora, feita pela escrita. Apenas a opção que fala em "ressignificar o cotidiano pela escrita" contempla os dois simultaneamente — as demais isolam ou distorcem só uma parte do processo.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) criar fatos com a imaginação

❌ Incorreta: é a característica do ficcionista, que "criou porque quis" situações inteiras. O cronista não cria o fato — ele o colhe pronto no noticiário e depois o trabalha com a imaginação. A troca de "colher e transformar" por "criar do zero" inverte o papel de cada ofício.

B) reproduzir as notícias dos jornais

❌ Incorreta: o cronista busca um fato "colhido no noticiário", mas o objetivo não é reproduzi-lo tal como está — é o oposto: "injetar um sangue novo" nele. Reproduzir seria trabalho passivo; "injetar" indica intervenção criativa.

C) escrever em linguagem coloquial

❌ Incorreta: o trecho não trata de registro linguístico. O próprio texto usa vocabulário elaborado ("artimanhas peculiares", "azar dele"), o que já enfraquece a ideia de foco na coloquialidade. A questão trata da relação do cronista com o fato, não do nível de formalidade.

D) construir personagens verossímeis

❌ Incorreta: "personagens" aparece no texto associada exclusivamente ao ficcionista ("levado meio a tapas pelas personagens... que criou"), não ao cronista, cujo foco é o "fato". Misturar as duas figuras é o erro típico de leitura apressada.

E) ressignificar o cotidiano pela escrita

✅ Correta: sintetiza o duplo movimento descrito por Vinicius — o cronista parte de um fato corriqueiro do cotidiano (muitas vezes uma notícia) e, pela escrita e "artimanhas peculiares", "injeta um sangue novo" nesse fato, dando-lhe novo sentido. "Ressignificar" traduz a metáfora do "sangue novo"; "o cotidiano" corresponde ao "fato... colhido no noticiário".

🏆 Gabarito: E — Vinicius define o cronista como aquele que parte de um fato do cotidiano e, pela escrita e imaginação, dá a esse fato um sentido renovado — o que a alternativa E resume como "ressignificar o cotidiano pela escrita".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra E é a única alternativa que une as duas evidências centrais do texto — partida no cotidiano/noticiário e transformação pela escrita — sem confundir o cronista com o ficcionista, nem reduzi-lo a uma cópia passiva da notícia.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência, em linguagens, o reconhecimento da concepção de gênero textual (crônica, conto, notícia, artigo de opinião) manifestada pelo próprio autor, exigindo leitura inferencial de metáforas e escolhas lexicais.
  • Generalização: quando um texto contrapõe dois "papéis" semelhantes (aqui, ficcionista x cronista), desconfie de alternativas que atribuam ao personagem certo características que o texto reservou explicitamente ao outro.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que contradizem verbos de transformação do texto (como "injetar") — corta B. Elimine as que pertencem ao "outro personagem" da comparação (A e D pertencem ao ficcionista) — reduz o problema a duas opções em segundos.
  • Conexões: vale revisar textos de opinião e crônicas que discutem o próprio fazer literário (metalinguagem), além da diferença entre gêneros do domínio jornalístico e gêneros híbridos jornalístico-literários.

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