Mapa de questões · 1º dia
Questão 82 — ENEM 2017 PPL
A definição de Aristóteles para enigma é totalmente desligada de qualquer fundo religioso: dizer coisas reais associando coisas impossíveis. Visto que, para Aristóteles, associar coisas impossíveis significa formular uma contradição, sua definição quer dizer que o enigma é uma contradição que designa algo real, em vez de não indicar nada, como é de regra.
COLLI, G. O nascimento da filosofia. Campinas: Unicamp, 1996 (adaptado).
Segundo o texto, Aristóteles inovou a forma de pensar sobre o enigma, ao argumentar que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga (lógica e teoria da linguagem em Aristóteles)
- ⚡ Nível: Médio — não exige conhecimento prévio extenso, mas cobra leitura atenta dos conectivos lógicos do texto para não trocar "parte" por "todo".
- 🎯 Tema/Habilidade: A definição aristotélica de enigma como contradição referencial — compreensão e articulação de argumento filosófico em texto-base (competência de leitura e análise de textos filosóficos)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi exatamente a inovação de Aristóteles ao definir o que é um enigma?"
- Palavras-chave decisivas: contradição, coisas reais, coisas impossíveis
- Armadilha típica: reintroduzir a religião na resposta (o texto diz justamente o contrário: a definição está "totalmente desligada de qualquer fundo religioso") ou escolher uma alternativa que descreva só metade da definição — só o lado "real" ou só o lado "impossível/contraditório".
- O que a resposta precisa demonstrar: que, para Aristóteles, o enigma reúne simultaneamente dois elementos — é uma contradição (associação de coisas impossíveis) e, ao mesmo tempo, designa algo real. A resposta correta precisa manter as duas pontas da definição juntas.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Enigma (tradição pré-aristotélica): antes de Aristóteles, o enigma era associado a oráculos e mistérios, carregando um sentido oculto de origem religiosa ou mística.
- Contradição (lógica): afirmar ao mesmo tempo duas coisas incompatíveis entre si. Em lógica, uma contradição pura "não indica nada" — é vazia de referência, porque não pode corresponder a nenhuma coisa real.
- A inovação aristotélica: Aristóteles retira o enigma do campo religioso e o redefine em termos lógico-linguísticos: o enigma é uma contradição (associação de "coisas impossíveis") que, excepcionalmente, "designa algo real" — ao contrário da contradição comum, que não designa nada.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "totalmente desligada de qualquer fundo religioso" → Aristóteles rompe com a tradição: não explica o enigma pelo sagrado, mas pela lógica.
- Evidência 2: "dizer coisas reais associando coisas impossíveis" → a definição tem DOIS componentes obrigatórios e simultâneos: (1) dizer coisas reais e (2) associar coisas impossíveis.
- Evidência 3: "associar coisas impossíveis significa formular uma contradição" → o texto liga explicitamente "coisas impossíveis" a "contradição": são a mesma ideia dita de dois jeitos.
- Evidência 4: "é uma contradição que designa algo real, em vez de não indicar nada, como é de regra" → contraste crucial: normalmente ("como é de regra") uma contradição não indica nada, é vazia; o enigma é a exceção, pois, sendo contradição, ainda assim designa algo real.
- Síntese: a definição de enigma tem estrutura dupla e simultânea: [contradição = coisas impossíveis] + [designação de algo real]. Qualquer alternativa que apague um dos dois lados, ou que reintroduza a religião excluída na Evidência 1, contraria o texto.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar a definição literal no texto
A frase-definição — "dizer coisas reais associando coisas impossíveis" — se decompõe em dois predicados que precisam valer ao mesmo tempo para algo ser enigma: (i) dizer coisas reais, referir-se a algo que existe; (ii) associar coisas impossíveis, isto é, formar uma contradição.
Subpasso 4.2 — Traduzir a lógica para a linguagem das alternativas
A segunda frase do texto reforça essa dupla estrutura ao contrastar o enigma com a contradição comum: a contradição, "como é de regra", não indica nada; o enigma é especial justamente porque, sendo contradição, consegue designar algo real. Logo, a resposta correta precisa afirmar as DUAS coisas ao mesmo tempo — contradição (impossível) e referência real — não apenas uma delas isoladamente.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Buscando a alternativa que preserva essa estrutura dupla — "algo de real" + "algo de impossível" + simultaneidade —, chega-se à alternativa C: "o enigma é uma contradição que diz algo de real e algo de impossível ao mesmo tempo." É praticamente uma paráfrase do texto-base, sem suprimir nenhum dos dois componentes. Nenhuma outra alternativa preserva essa estrutura completa.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) a contradição que caracteriza o enigma é desprovida de relevância filosófica.
❌ Incorreta: o texto não diz nada sobre a "relevância filosófica" do enigma — pelo contrário, está justamente explicando com rigor conceitual (isto é, filosoficamente) o que é o enigma. A ideia de "desprovida de relevância filosófica" é uma inserção que não tem respaldo em nenhuma passagem do texto.
B) os enigmas religiosos são contraditórios porque indicam algo religiosamente real.
❌ Incorreta: contraria diretamente a primeira frase do texto, que afirma que a definição de Aristóteles é "totalmente desligada de qualquer fundo religioso". Reintroduzir a religião como explicação do enigma é exatamente o oposto da inovação atribuída a Aristóteles.
C) o enigma é uma contradição que diz algo de real e algo de impossível ao mesmo tempo.
✅ Correta: reproduz com fidelidade a estrutura dupla da definição aristotélica — o enigma associa coisas impossíveis (logo, é uma contradição) e, simultaneamente, designa/diz algo real. É exatamente o que as evidências 2, 3 e 4 do Passo 3 comprovam, sem acrescentar nem suprimir nenhum dos dois componentes.
D) as coisas impossíveis são enigmáticas e devem ser explicadas em vista de sua origem religiosa.
❌ Incorreta: comete o mesmo erro da alternativa B (reintroduz a religião, que o texto exclui explicitamente) e ainda inverte a lógica do texto — o texto não diz que as "coisas impossíveis" precisam de explicação religiosa, mas que sua associação constitui uma contradição, tratada em termos lógicos.
E) a contradição enuncia coisas impossíveis e irreais, porque ela é desligada de seu fundo religioso.
❌ Incorreta: erra o ponto central da definição. O texto afirma exatamente o oposto quanto ao caráter "real": o enigma, mesmo sendo contradição, "designa algo real" — não algo "irreal". Ao afirmar que a contradição enuncia coisas "impossíveis e irreais", a alternativa apaga o componente de realidade que é o cerne da inovação aristotélica.
🏆 Gabarito: C — apenas essa alternativa preserva os dois elementos simultâneos e inseparáveis da definição aristotélica de enigma: dizer algo real e, ao mesmo tempo, associar coisas impossíveis (contradição).
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que traduz com exatidão a definição do texto-base, mantendo os dois predicados da definição ("real" e "impossível") unidos pela conjunção "ao mesmo tempo" — exigência explícita do trecho final do texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz um trecho de história da filosofia (aqui, sobre Colli e Aristóteles) e pede que o candidato identifique a paráfrase mais fiel de uma definição ou argumento, sem exigir conhecimento prévio do filósofo — a resposta está inteiramente decifrável dentro do próprio texto.
- Generalização: em questões de Filosofia baseadas em texto-base, a alternativa correta costuma ser a que reformula literalmente a tese central do autor citado, preservando todos os seus elementos constitutivos; alternativas que adicionam causas não mencionadas (como "origem religiosa" aqui) ou que suprimem parte da definição quase sempre estão erradas.
- Dica de eliminação rápida: primeiro, elimine toda alternativa que mencione religião como explicação positiva do enigma (B e D) — o texto exclui isso na primeira linha. Depois, elimine as que descartam a "realidade" do enigma (A e E), pois o texto afirma expressamente que ele "designa algo real". Sobra apenas C.
- Conexões: este tipo de questão dialoga com conteúdos de Lógica Clássica (princípio de não contradição, valor de verdade de proposições) e com a História da Filosofia Antiga (a passagem do pensamento mítico-religioso grego para o pensamento racional e lógico, um dos grandes temas da filosofia pré-socrática e aristotélica).
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