Mapa de questões · 1º dia
Questão 84 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
A conclusão tardia e perversa para o meio ambiente é o verdadeiro desastre ecológico e econômico ocasionado pelo plantio de café em terrenos declivosos. E o mais grave é que tal lavoura continua a ser praticada em moldes não muito diferentes daqueles que arrasaram florestas, solos e águas no século XIX.
SOFIATTI, A. Destruição e proteção da Mata Atlântica no Rio de Janeiro: ensaio bibliográfico
acerca da eco-história. História, Ciências, Saúde, n. 2, jul.-out. 1997.
A atividade agrícola mencionada no texto provocou impactos ambientais ao longo do século XIX porque
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Ciclo do café no Brasil Imperial (século XIX) e seus impactos socioambientais
- ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um modelo econômico (agricultura extensiva) a suas consequências ambientais, e não apenas reconhecer um fato histórico isolado
- 🎯 Tema/Habilidade: Expansão da economia cafeeira e degradação da Mata Atlântica; competência de analisar processos históricos e suas relações de causa e efeito com o meio ambiente
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica do modo de produção cafeeiro explica os danos ambientais causados por essa lavoura ao longo do século XIX?"
- Palavras-chave decisivas: terrenos declivosos, arrasaram florestas, solos e águas, século XIX
- Armadilha típica: confundir um fator secundário do café (fertilidade do solo, mão de obra, capital estrangeiro, necessidade de água) com a causa estrutural da degradação, que está no modo de exploração da terra, não nas características do produto em si
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a lavoura cafeeira do XIX se expandia horizontalmente sobre novas áreas de mata — em vez de conservar e manejar tecnicamente o solo já ocupado — e que essa lógica extensiva é a razão do "desastre ecológico" mencionado no texto
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ciclo do café (século XIX): após a decadência da mineração, o café tornou-se o principal produto de exportação do Brasil, expandindo-se do Vale do Paraíba (RJ/SP) rumo ao Oeste Paulista ao longo do século.
- Agricultura extensiva x intensiva: a extensiva aumenta a produção incorporando novas áreas de terra, sem investir em técnicas de conservação (adubação, rotação de culturas, terraceamento); a intensiva aumenta a produtividade na mesma área por meio de tecnologia e manejo do solo.
- "Café que anda": expressão usada pela historiografia para descrever como, ao esgotar a fertilidade de uma região, os cafeicultores simplesmente desmatavam e ocupavam novas terras adiante, em vez de recuperar o solo já cultivado.
- Erosão em terrenos declivosos: o plantio em encostas sem curvas de nível ou terraceamento faz a chuva escoar livremente, arrastando a camada fértil do solo (erosão laminar) e assoreando rios — dano que se agrava justamente porque não havia preocupação com manejo, apenas com abrir novas frentes de cultivo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "desastre ecológico e econômico ocasionado pelo plantio de café em terrenos declivosos" → mostra que o problema não é a declividade em si (isso é apenas a condição física), mas a forma como essa lavoura foi conduzida sobre ela — sem técnicas de contenção do solo.
- Evidência 2: "tal lavoura continua a ser praticada em moldes não muito diferentes daqueles que arrasaram florestas, solos e águas no século XIX" → a palavra "moldes" indica um padrão, um modelo de exploração que se repete no tempo; é esse modelo, e não um insumo específico, que o texto aponta como causa do desastre.
- Síntese: o texto conduz o leitor a procurar, entre as alternativas, o elemento que descreve um modelo de exploração agrícola, não uma característica acessória do café (solo, água, capital, mão de obra). Esse modelo é a ocupação extensiva das terras.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizando o ciclo do café no século XIX
Com a decadência do ouro no final do século XVIII, a economia brasileira precisou de um novo produto para sustentar as exportações. O café cumpriu esse papel a partir do início do século XIX, primeiro no Vale do Paraíba (divisa RJ/SP/MG) e, depois, avançando para o Oeste Paulista à medida que o solo das regiões mais antigas se esgotava. Essa marcha geográfica da lavoura é um dado histórico central para entender a questão.
Subpasso 4.2 — O modelo extensivo como causa da devastação
A lógica de expansão cafeeira do período não era baseada em conservação do solo: os fazendeiros não praticavam rotação de culturas, adubação orgânica sistemática ou terraceamento em curvas de nível. Em vez disso, aumentavam a produção incorporando novas terras — desmatando trechos ainda cobertos pela Mata Atlântica. Em terrenos declivosos, esse modelo é particularmente destrutivo: sem cobertura vegetal e sem técnicas de contenção, a chuva escoa pela encosta, provoca erosão laminar, carrega a camada fértil do solo e assoreia rios e nascentes. Quando o solo se esgotava, a solução não era recuperá-lo, e sim abandoná-lo e desmatar mais floresta adiante — um ciclo contínuo de ocupação extensiva.
Subpasso 4.3 — Verificação
Esse padrão de crescimento por expansão territorial (e não por intensificação técnica) é exatamente o "molde" citado no texto, que se repetiu ao longo de todo o século XIX e que o autor denuncia como ainda presente em práticas atuais. Isso corresponde diretamente à alternativa que fala em reforço da ocupação extensiva — confirmando o caminho da resposta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reforçava a ocupação extensiva.
✅ Correta: a expansão cafeeira do século XIX se dava pela incorporação constante de novas áreas de Mata Atlântica, sem investimento em técnicas conservacionistas nas terras já cultivadas. Esse modelo extensivo — desmatar, plantar, esgotar o solo e avançar sobre nova mata — é precisamente o "molde" de exploração que devastou florestas, solos e águas descrito no texto.
B) utilizava o solo do tipo terra roxa.
❌ Incorreta: a terra roxa (solo de origem basáltica, rico em nutrientes, comum no oeste paulista) foi um fator que favoreceu a produtividade e atraiu a expansão do café — é um dado de fertilidade, não uma causa de degradação ambiental. A alternativa inverte a relação de causa e efeito.
C) necessitava de recursos hídricos.
❌ Incorreta: toda atividade agrícola depende de água; essa é uma característica genérica, comum a qualquer cultivo, e não explica especificamente por que o café em terrenos declivosos provocou desmatamento e erosão. No texto, os recursos hídricos aparecem como vítimas do processo (águas arrasadas), não como causa dele.
D) estimulava investimentos estrangeiros.
❌ Incorreta: o café de fato atraiu capital estrangeiro para ferrovias, portos e bancos, mas esse é um efeito econômico da prosperidade cafeeira, não uma causa de dano ambiental. A alternativa descreve consequência positiva na esfera econômica, desconectada do problema ecológico apontado pelo texto.
E) empregava mão de obra desqualificada.
❌ Incorreta: a lavoura cafeeira do XIX empregava majoritariamente mão de obra escravizada e, depois, imigrante — mas o grau de qualificação dos trabalhadores não é o que determina a degradação ambiental. O problema estava no modelo de exploração da terra definido pelos proprietários, não na capacitação de quem executava o trabalho.
🏆 Gabarito: A — a devastação ambiental do século XIX decorreu do modelo de ocupação extensiva da lavoura cafeeira, que avançava sobre novas áreas de Mata Atlântica em terrenos declivosos sem qualquer técnica de conservação do solo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A conecta diretamente o modelo de produção (expansão extensiva sobre novas terras) à consequência ambiental descrita no texto (desmatamento, erosão, assoreamento); as demais alternativas citam características do café que são efeitos, condições genéricas ou fatores de fertilidade, não a causa estrutural do dano.
- Padrão de cobrança: o Enem recorrentemente explora o ciclo do café — sua geografia de expansão, sua base de mão de obra e, sobretudo, sua relação com a devastação da Mata Atlântica — como estudo de caso de modelo agroexportador predatório.
- Generalização: em questões que relacionam atividade econômica a impacto ambiental, procure sempre o elemento que descreve o modo de produção (extensivo x intensivo, monocultura, ausência de manejo) — é aí que normalmente está a causa, e não em características físicas do produto ou do território.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que apontam apenas uma necessidade genérica do cultivo (água) ou um efeito econômico favorável (investimento estrangeiro) — nenhuma delas explica destruição ambiental; o que resta como causa estrutural é o modelo de ocupação da terra.
- Conexões: compare com o ciclo da cana-de-açúcar no litoral nordestino (também baseado em desmatamento por expansão de monocultura) e com a atual fronteira agrícola no Cerrado e na Amazônia, que repete a mesma lógica extensiva de avanço sobre áreas nativas.
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