Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
Como se apresentam os atos de ler e escrever no contexto dos canais de chat da internet? O próprio nome que designa estes espaços no meio virtual elucida que os leitores-escritores ali estão empenhados em efetivar uma conversação. Porém, não se trata de uma conversação nos moldes tradicionais, mas de um projeto discursivo que se realiza só e através das ferramentas do computador via canal eletrônico mediado por um software específico. A dimensão temporal deste tipo de interlocução caracteriza-se pela sincronicidade em tempo real, aproximando-se de uma conversa telefônica, porém, devido às especificidades do meio que põe os interlocutores em contato, estes devem escrever suas mensagens. Apesar da sensação de estarem falando, os enunciados que produzem são construídos num “texto falado por escrito”, numa “conversação com expressão gráfica”. A interação que se dá “tela a tela”, para que seja bem sucedida, exige, além das habilidades técnicas anteriormente descritas, muito mais do que a simples habilidade linguística de seus interlocutores. No interior de uma enorme coordenação de ações, o fenômeno chat também envolve conhecimentos paralinguísticos e socioculturais que devem ser partilhados por seus usuários. Isso significa dizer que esta atividade comunicacional, assim como as demais, também apresenta uma vinculação situacional, ou seja, não pode a língua, nesta esfera específica da comunicação humana, ser separada do contexto em que se efetiva.
BERNARDES, A. S.; VIEIRA, P M. T. Disponível em: www.anped.org.br. Acesso em: 14 ago. 2012.
No texto, descreve-se o chat como um tipo de conversação “tela a tela” por meio do computador e enfatiza-se a necessidade de domínio de diversas habilidades. Uma característica desse tipo de interação é a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e Interpretação de Texto / Oralidade e Escrita (gêneros digitais)
- ⚡ Nível: Médio — exige compreender um conceito linguístico (o hibridismo oral-escrito) e não apenas localizar informação explícita no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre oralidade e escrita nos gêneros digitais emergentes (chat) — competência de área 1 do ENEM, ligada ao reconhecimento de usos da língua em diferentes suportes e contextos de comunicação
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica do texto define a natureza linguística da conversa realizada em um chat?"
- Palavras-chave decisivas: conversação tela a tela, texto falado por escrito, conversação com expressão gráfica
- Armadilha típica: confundir "sincronicidade" (tempo real) ou "coordenação de ações" (habilidades necessárias para participar do chat) com a característica linguística central que o texto está descrevendo, que é a mescla entre fala e escrita
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende que o chat não é nem uma conversa oral pura nem um texto escrito tradicional, mas um gênero híbrido que recruta traços das duas modalidades da língua
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Continuum oralidade-escrita: a linguística textual contemporânea (Marcuschi e outros) não trata fala e escrita como polos opostos e estanques, mas como extremos de um continuum tipológico; gêneros digitais como chat, e-mail e mensagens instantâneas ocupam posições intermediárias, misturando traços de ambas.
- Gêneros textuais emergentes do meio digital: são práticas comunicativas criadas ou reconfiguradas pela tecnologia (chat, fórum, blog, e-mail), que herdam formato de gêneros já existentes mas ganham propriedades novas por causa do suporte — no caso do chat, a interação síncrona por texto escrito.
- "Texto falado por escrito": expressão-chave do próprio enunciado; descreve o fenômeno de o usuário do chat produzir, na modalidade escrita, enunciados com marcas típicas da fala espontânea (informalidade, elipses, abreviações, marcadores conversacionais, simulação de entonação), sem deixar de ser, materialmente, um texto grafado.
- Situacionalidade e vinculação contextual: o texto reforça que essa atividade comunicativa não pode ser separada do contexto em que ocorre — ou seja, as escolhas linguísticas do chat (mistura de oral e escrito) são funcionais, adequadas àquele propósito comunicativo específico, e não um "erro" de linguagem.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A dimensão temporal deste tipo de interlocução caracteriza-se pela sincronicidade em tempo real, aproximando-se de uma conversa telefônica" → mostra que o chat tem o RITMO de uma conversa oral (tempo real), mas isso por si só ainda não define a natureza híbrida da linguagem produzida — é apenas o pano de fundo temporal.
- Evidência 2: "estes devem escrever suas mensagens. Apesar da sensação de estarem falando, os enunciados que produzem são construídos num 'texto falado por escrito', numa 'conversação com expressão gráfica'" → é o núcleo argumentativo do texto: a interação é vivida como fala (sensação de estar falando), mas se materializa como escrita. Há, portanto, articulação entre as duas modalidades no mesmo enunciado.
- Síntese: o texto constrói, do início ao fim, a ideia de que o chat não é "fala" nem "escrita" no sentido tradicional, mas um produto discursivo que combina as duas modalidades simultaneamente. A resposta correta precisa expressar exatamente essa articulação entre oral e escrito, e não apenas um traço isolado (velocidade, sincronia, iconografia) do fenômeno.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o cerne conceitual do texto
O texto é uma citação acadêmica sobre linguística textual aplicada aos gêneros digitais. Sua tese central, repetida de formas diferentes ao longo do parágrafo, é que o chat gera uma linguagem híbrida: o usuário "sente" que está falando (por causa da sincronicidade e da informalidade da troca), mas o que ele efetivamente produz é um registro escrito. As expressões entre aspas usadas pelos autores — "texto falado por escrito" e "conversação com expressão gráfica" — são paráfrases da mesma ideia: fusão de oralidade e escrita em um único evento comunicativo.
Subpasso 4.2 — Traduzir o conceito para a alternativa esperada
Se a característica central é essa fusão, a alternativa correta precisa mencionar, de alguma forma, a combinação/articulação entre as duas modalidades da língua (oral e escrita) dentro da mesma prática comunicativa. Qualquer alternativa que fale apenas de um único aspecto — só sincronia, só habilidades técnicas, só velocidade de troca de turnos, só recursos gráficos — está descrevendo uma consequência ou uma condição do chat, mas não o fenômeno linguístico central que o texto define como sua marca distintiva.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação
Ao testar cada alternativa contra o texto-base, apenas uma sintetiza corretamente a tese de que o chat produz "uma conversa" (percebida como fala) que "articula elementos das modalidades oral e escrita da língua" (materializada como texto). Essa é a leitura mais fiel ao trecho "texto falado por escrito, conversação com expressão gráfica" — exatamente o que a alternativa D descreve, confirmando-se como a resposta que sintetiza toda a argumentação do fragmento.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) coordenação de ações, ou atitudes, que reflitam modelos de conversação tradicionais.
❌ Incorreta: o texto afirma exatamente o oposto — que a conversação do chat "não se trata de uma conversação nos moldes tradicionais". A "coordenação de ações" mencionada no texto se refere a conhecimentos paralinguísticos e socioculturais partilhados pelos usuários, não a uma reprodução do modelo de conversa tradicional (presencial ou telefônica sem mediação de escrita).
B) presença obrigatória de elementos iconográficos que reproduzam características do texto falado.
❌ Incorreta: o texto em nenhum momento menciona emoticons, emojis ou qualquer elemento iconográfico. Trata-se de uma inferência externa ao fragmento — a questão pede a característica descrita no texto, e o texto fala em "habilidades linguísticas, paralinguísticas e socioculturais", não em recursos gráficos imagéticos como condição obrigatória.
C) inserção sequencial de elementos discursivos que sejam similares aos de uma conversa telefônica.
❌ Incorreta: a comparação com a conversa telefônica no texto se refere apenas à dimensão temporal (sincronicidade), não à natureza discursiva da interação como um todo. Generalizar essa semelhança pontual para "elementos discursivos similares" distorce o argumento: o próprio texto destaca que o chat se diferencia da telefonia justamente porque exige que os interlocutores escrevam suas mensagens.
D) produção de uma conversa que articula elementos das modalidades oral e escrita da língua.
✅ Correta: sintetiza com precisão a tese central do texto — a conversação do chat é sentida como fala (sincronicidade, sensação de estar falando) mas se realiza através da escrita ("texto falado por escrito", "conversação com expressão gráfica"). Essa articulação entre oralidade e escrita é exatamente a característica distintiva apontada pelos autores.
E) agilidade na alternância de temas e de turnos conversacionais.
❌ Incorreta: o texto não trata de velocidade de alternância de turnos ou de troca de temas; essa seria uma característica pragmática de conversas em geral (orais ou escritas), mas não é o foco argumentativo do fragmento, que está centrado na hibridização entre modalidades da língua, não na dinâmica de turnos.
🏆 Gabarito: D — o texto define o chat como um gênero em que a conversação, vivida como fala, se materializa por escrito, articulando as duas modalidades da língua num mesmo evento comunicativo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única alternativa que traduz a tese central do texto — a fusão entre oralidade e escrita —, enquanto as demais isolam aspectos secundários (turnos, iconografia, telefonia, modelos tradicionais) ou contradizem explicitamente o fragmento.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos teóricos sobre linguística aplicada aos gêneros digitais (chat, blog, redes sociais, mensagens de texto), sempre reforçando a ideia de que a internet criou práticas linguísticas híbridas, e não "erros" de português.
- Generalização: sempre que o texto-base apresentar um conceito técnico entre aspas (como "texto falado por escrito"), a alternativa correta costuma ser aquela que parafraseia esse conceito de forma mais fiel e completa, sem acrescentar nem remover elementos do argumento original.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que contradiga uma afirmação explícita do texto (como a A, que fala em "moldes tradicionais") e qualquer alternativa que traga informação não mencionada no fragmento (como a B, sobre iconografia) — nenhuma prova de interpretação de texto do ENEM aceita "informação nova" como resposta correta.
- Conexões: este tema se conecta a variação linguística (formal x informal, escrita x fala) e a multiletramentos digitais, ambos temas recorrentes em Linguagens no ENEM.
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