Mapa de questões · 1º dia
Questão 68 — ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia
Pude entender o discurso do cacique Aniceto, na assembleia dos bispos, padres e missionários, em que exigia nada mais, nada menos que os índios fossem batizados. Contestava a pastoral da Igreja, de não interferir nos costumes tribais, evitando missas e batizados. Para Aniceto, o batismo aparecia como sinal do branco, que dava reconhecimento de cristão, isto é, de humano, ao índio.
MARTINS, J. S. A chegada do estranho. São Paulo: Hucitec, 1993 (adaptado).
O objetivo do posicionamento do cacique xavante em relação ao sistema religioso externo às tribos era
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Antropologia das relações interétnicas e sociologia da religião
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir adesão de fé de uso estratégico de um símbolo religioso
- 🎯 Tema/Habilidade: Agência indígena no contato interétnico e função social do batismo como credencial de reconhecimento
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que o cacique Aniceto exigia o batismo dos índios, contrariando a própria posição da Igreja de não interferir nos costumes tribais?"
- Palavras-chave decisivas: exigia que fossem batizados, contestava a pastoral da Igreja, reconhecimento de cristão, isto é, de humano
- Armadilha típica: confundir o pedido do cacique com conversão religiosa genuína ou com um movimento de defesa das tradições internas da tribo, quando o texto descreve um cálculo político de inserção social.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o batismo, no contexto, funciona como instrumento — um "documento" simbólico que o índio busca obter para ser tratado como humano pelo sistema dominante, não como sinal de fé.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Etnocentrismo: visão que toma a própria cultura como referência de humanidade; o "branco" só reconhecia como humano o índio batizado, revelando hierarquia entre batizado e não batizado.
- Agência indígena: conceito que rejeita o indígena como receptor passivo da colonização; os povos originários formulam estratégias próprias e se apropriam de elementos da cultura do colonizador em benefício próprio.
- Apropriação estratégica de símbolos religiosos: incorporar um sacramento de outra religião não implica abandonar a cosmologia própria; pode ser ferramenta pragmática de negociação de espaço e reconhecimento.
- Reconhecimento social: historicamente, "ser cristão" funcionou como pré-requisito informal de inclusão civil no mundo colonial — o batismo abria portas que a condição de "gentio" não abria.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "exigia nada mais, nada menos que os índios fossem batizados" → a iniciativa parte do cacique, invertendo a lógica esperada de que seria a Igreja a impor o batismo.
- Evidência 2: "Contestava a pastoral da Igreja, de não interferir nos costumes tribais" → Aniceto se opõe à postura mais "respeitosa" da Igreja, o que confirma decisão deliberada e estratégica, não imposição externa.
- Evidência 3: "o batismo aparecia como sinal do branco, que dava reconhecimento de cristão, isto é, de humano, ao índio" → chave interpretativa: o texto equipara "cristão" a "humano" na visão do branco, e o cacique busca esse selo para seu povo ser tratado como gente.
- Síntese: as evidências mostram que o batismo funciona como credencial social — instrumento para obter aceitação e reconhecimento de humanidade perante o sistema dominante, não expressão de fé ou resistência interna.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Sujeito, ação e contexto
Na assembleia entre bispos, padres e missionários, o cacique xavante Aniceto reivindica o batismo dos índios, contrariando a própria pastoral da Igreja, que preferia não interferir nos costumes tribais. O movimento parte do indígena: é uma demanda, não uma imposição do colonizador.
Subpasso 4.2 — O motivo declarado no texto
O autor explicita a razão: "o batismo aparecia como sinal do branco, que dava reconhecimento de cristão, isto é, de humano, ao índio". Apenas o batizado era plenamente reconhecido como humano pelo sistema colonial. Logo, Aniceto não busca aderir à cosmologia cristã por convicção, mas usar o sacramento como ferramenta política de aceitação social para seu povo.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
A alternativa correta deve descrever a apropriação de um elemento religioso dominante (o batismo) como meio para um fim social (aceitação/reconhecimento como humano). Isso corresponde a "incorporar a religiosidade dominante e seus sacramentos como estratégia de aceitação social" — alternativa C. As demais introduzem elementos que o texto não sustenta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) flexibilizar a crença católica e seus rituais como forma de evolução cultural.
❌ Incorreta: o texto não menciona modificação ou flexibilização dos ritos católicos. O cacique pede o batismo tal como praticado; a noção de "evolução cultural" não aparece — o que está em jogo é reconhecimento social, não transformação do rito.
B) acatar a cosmologia cristã e suas divindades como orientação ideológica legítima.
❌ Incorreta: acatar uma cosmologia como "orientação ideológica legítima" significaria adesão de fé e submissão intelectual ao cristianismo. O texto mostra motivação pragmática e instrumental, não conversão espiritual genuína.
C) incorporar a religiosidade dominante e seus sacramentos como estratégia de aceitação social.
✅ Correta: converge com a evidência central do texto. O cacique busca o batismo — sacramento da religiosidade dominante — como estratégia deliberada para que seu povo seja reconhecido como humano pelo sistema social e religioso do branco: uso instrumental de um elemento externo a favor de um objetivo social concreto.
D) prevenir retaliações de grupos missionários como defesa de práticas religiosas sincréticas.
❌ Incorreta: não há no texto menção a temor de retaliações nem defesa de práticas sincréticas. É o cacique quem toma a iniciativa e contesta a posição de não interferência da própria Igreja — não reage a uma ameaça.
E) reorganizar os comportamentos tribais como instrumento de resistência da comunidade indígena.
❌ Incorreta: desloca o foco para dentro da tribo, como se o objetivo fosse reformar costumes internos. O texto trata do contrário: uma reivindicação voltada para fora, em direção a um elemento do sistema religioso externo, buscando inserção e reconhecimento — não resistência por reorganização interna.
🏆 Gabarito: C — o cacique Aniceto busca no batismo, sacramento da religiosidade dominante, uma estratégia concreta de aceitação social, já que esse rito garantia, aos olhos do colonizador, o reconhecimento do indígena como humano.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que capta a lógica estratégica do texto — apropriação pragmática de um sacramento cristão como via de aceitação social —, sem recorrer a elementos ausentes do enunciado, como conversão de fé (B), reforma ritual (A), medo de retaliação (D) ou reorganização interna (E).
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz, em Ciências Humanas, textos historiográficos ou antropológicos sobre o contato entre povos indígenas e a sociedade colonial/nacional, cobrando a identificação da agência indígena — quando o indígena se apropria de elementos da cultura dominante em seu próprio benefício, em vez de sofrer passivamente a imposição externa.
- Generalização: sempre que um texto mostrar um grupo subalternizado incorporando um elemento simbólico do grupo dominante para obter reconhecimento, inclusão ou vantagem social — sem ruptura completa de identidade —, a alternativa correta tende a valorizar a estratégia/negociação, não a adesão ideológica genuína nem a resistência isolacionista.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com "crença legítima" ou "evolução cultural" (A, B) quando o texto trouxer motivo pragmático; descarte também alternativas que introduzam elementos ausentes do enunciado, como "retaliação" de missionários (D).
- Conexões: aculturação e transculturação nas relações entre povos indígenas e sociedade envolvente; capital simbólico (Pierre Bourdieu) aplicado a rituais religiosos como moeda de reconhecimento social.
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