Mapa de questões · 1º dia
Questão 59 — ENEM 2017 PPL
Está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano. Pode-se dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial; e do ponto de vista da organização da atividade econômica, as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a pecuária.
SILVA, J. G. O novo rural brasileiro. Nova Economia, n. 7, maio 1997.
As articulações espaciais tratadas no texto resultam do(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Espaço agrário, rede urbana e globalização da produção
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um conceito abstrato (continuum rural-urbano) e relacioná-lo à causa correta, sem que o texto entregue a resposta de forma explícita
- 🎯 Tema/Habilidade: Integração rural-urbana pelas cadeias produtivas globalizadas (Competência de Área 6 do ENEM — dinâmica do espaço geográfico e da produção)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a causa das conexões espaciais entre campo e cidade descritas no texto?"
- Palavras-chave decisivas: continuum, organização da atividade econômica, articulações espaciais
- Armadilha típica: confundir "efeito" com "causa". O texto descreve o resultado (rural e urbano cada vez mais parecidos e interligados), mas o comando pergunta pelo motivo estrutural desse fenômeno — muitos candidatos marcam alternativas que descrevem consequências sociais ou econômicas genéricas (como aumento de renda ou redução de desigualdade) em vez do mecanismo espacial que gera a integração.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a organização da economia em rede — cadeias produtivas que atravessam campo e cidade — é o que dissolve a fronteira rural/urbana, e não fenômenos sociais isolados.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Continuum rural-urbano: conceito que descreve a perda de nitidez entre espaço rural e urbano, cada vez mais interconectados por fluxos de pessoas, mercadorias, capital e informação, em vez de constituírem territórios estanques e opostos.
- Novo rural brasileiro (José Graziano da Silva): noção de que o campo deixou de ser sinônimo apenas de agropecuária, incorporando atividades industriais, de serviços, turismo e lazer — assim como as cidades passaram a abrigar atividades ligadas ao agronegócio (bancos, insumos, pesquisa, logística).
- Cadeia produtiva (agronegócio/agroindústria): sequência de etapas — produção de insumos, cultivo/criação, processamento industrial, distribuição, consumo — que conecta funcionalmente espaços distintos, muitas vezes rurais e urbanos, dentro de um mesmo circuito econômico.
- Divisão territorial do trabalho: cada lugar se especializa em uma etapa da produção (matéria-prima, transformação, serviços, comando financeiro) e depende dos demais, criando uma rede de interdependência espacial típica da globalização.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial" → revela que a separação física entre campo e cidade se tornou fluida, sem limites nítidos.
- Evidência 2: "as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a pecuária" → revela que a causa da integração está na organização da economia: funções antes exclusivas de um espaço agora se espalham pelo outro, porque fazem parte de um mesmo processo produtivo.
- Síntese: o texto não fala em renda, emprego, desigualdade ou crise financeira — fala em organização da atividade econômica. Isso aponta diretamente para o mecanismo das cadeias produtivas, que amarram diferentes lugares (rurais e urbanos) em torno de etapas complementares de um mesmo processo de produção e circulação de mercadorias.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno descrito
O texto de José Graziano da Silva, publicado em 1997, discute a transformação do espaço rural brasileiro sob os efeitos da modernização da agropecuária e da globalização. A tese central é que rural e urbano deixaram de ser categorias opostas e passaram a formar um contínuo espacial, funcionalmente interligado.
Subpasso 4.2 — Buscar a causa estrutural, não o efeito
A pergunta pede a causa das "articulações espaciais". O próprio texto já indica o caminho ao mencionar a "organização da atividade econômica": cidades deixaram de ser só indústria e campos deixaram de ser só agropecuária porque ambos os espaços passaram a integrar as mesmas cadeias produtivas — por exemplo, uma commodity agrícola é plantada no campo, processada em agroindústrias (muitas vezes em áreas urbanas ou periurbanas), financiada por bancos na cidade, transportada por logística urbano-rural e, por fim, consumida em centros urbanos ou exportada. Cada etapa dessa cadeia ocorre em um lugar diferente, e é justamente essa divisão territorial do trabalho que costura rural e urbano em uma única malha funcional.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as alternativas, apenas a opção C ("integração dos diferentes lugares nas cadeias produtivas") expressa esse mecanismo de conexão espacial pela via da organização econômica em rede — exatamente o que o texto aponta como razão da diluição entre rural e urbano. As demais alternativas tratam de consequências sociais, financeiras ou de renda que não constam do trecho e não explicam a articulação espacial em si.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) aumento da geração de riquezas nas propriedades agrícolas.
❌ Incorreta: o texto não menciona aumento de riqueza nas propriedades rurais; mesmo que a modernização agrícola gere ganhos econômicos em algumas áreas, isso é um possível efeito colateral, não a causa da articulação espacial entre campo e cidade descrita no texto.
B) crescimento da oferta de empregos nas áreas cultiváveis.
❌ Incorreta: o texto não trata de mercado de trabalho ou geração de empregos rurais; além disso, a modernização do campo historicamente tende a reduzir a demanda por mão de obra agrícola (mecanização), o que contraria a ideia de "crescimento de empregos" como fator explicativo.
C) integração dos diferentes lugares nas cadeias produtivas.
✅ Correta: é exatamente o que o texto descreve ao afirmar que a organização da atividade econômica não separa mais cidade (indústria) e campo (agropecuária). A produção contemporânea se organiza em cadeias que atravessam múltiplos lugares — insumos, processamento, distribuição, consumo —, cada um localizado em pontos diferentes do espaço, rural ou urbano. Essa divisão funcional em rede é a causa direta das "articulações espaciais" mencionadas no comando.
D) redução das desigualdades sociais nas regiões agrárias.
❌ Incorreta: o texto não trata de desigualdade social; ao contrário, a modernização e a integração produtiva do campo com a cidade frequentemente aprofundam desigualdades (entre agronegócio exportador e agricultura familiar), não as reduzem.
E) ocorrência de crises financeiras nos grandes centros.
❌ Incorreta: crises financeiras não são mencionadas nem sugeridas pelo texto; trata-se de um elemento estranho ao recorte econômico-espacial discutido pelo autor, que fala em organização produtiva, não em instabilidade financeira.
🏆 Gabarito: C — as articulações espaciais entre rural e urbano resultam da integração de diferentes lugares dentro de cadeias produtivas, que distribuem etapas de um mesmo processo econômico (insumos, produção, processamento, distribuição) por territórios distintos, dissolvendo a fronteira nítida entre campo e cidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa C explica a causa espacial-econômica citada no texto — a divisão territorial do trabalho dentro de cadeias produtivas —, enquanto as demais tratam de temas ausentes do trecho (renda, emprego, desigualdade, crise financeira).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora o "novo rural brasileiro", o agronegócio e a globalização da produção para testar se o candidato entende que a economia contemporânea se organiza em redes e fluxos, e não mais em espaços isolados e autossuficientes.
- Generalização: sempre que uma questão de Geografia tratar de integração entre espaços (rural-urbano, local-global, centro-periferia), desconfie de alternativas que descrevem efeitos sociais genéricos e procure a que aponta o mecanismo econômico-espacial (redes, fluxos, cadeias produtivas, divisão territorial do trabalho).
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que introduzem termos que não aparecem nem são sugeridos pelo texto-base (aqui, "riquezas", "empregos", "desigualdades" e "crises financeiras" são todos estranhos ao recorte do autor) — a resposta certa costuma reaproveitar o vocabulário e a lógica do próprio enunciado.
- Conexões: o tema dialoga diretamente com "globalização e divisão internacional do trabalho" e com "agronegócio e modernização do campo", dois assuntos de altíssima incidência no ENEM.
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