Mapa de questões · 1º dia
Questão 44 — ENEM 2017 PPL
Dois parlamentos
Nestes cemitérios gerais
não há morte pessoal.
Nenhum morto se viu
com modelo seu, especial.
Vão todos com a morte padrão,
em série fabricada.
Morte que não se escolhe
e aqui é fornecida de graça.
Que acaba sempre por se impor
sobre a que já medrasse.
Vence a que, mais pessoal,
alguém já trouxesse na carne.
Mas afinal tem suas vantagens
esta morte em série.
Faz defuntos funcionais,
próprios a uma terra sem vermes.
MELO NETO, J. C. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 (fragmento).
A lida do sertanejo com suas adversidades constitui um viés temático muito presente em João Cabral de Melo Neto. No fragmento em destaque, essa abordagem ressalta o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de poema moderno (João Cabral de Melo Neto)
- ⚡ Nível: Difícil — a linguagem é seca, concreta e cheia de metáforas industriais pouco usuais ("morte em série", "defuntos funcionais"), o que exige leitura atenta para não confundir crítica social com ironia genérica ou com o clichê da "morte igualadora".
- 🎯 Tema/Habilidade: Leitura e interpretação de texto poético; reconhecimento de recursos linguísticos que constroem o efeito de sentido pretendido pelo autor (Competência de Área 1/Habilidade H1 e H3 da Matriz de Linguagens).
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o poema, ao tratar da morte no sertão, quer destacar sobre a condição dos mortos pobres?"
- Palavras-chave decisivas: lida do sertanejo, adversidades, cemitérios gerais
- Armadilha típica: confundir a crítica social específica (pobreza gerando anonimato) com um lugar-comum vago sobre "a morte que iguala todo mundo" ou com uma leitura puramente formal sobre ironia/fragilidade física, ignorando o contexto de miséria indicado no comando.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de conectar o vocabulário do poema (série, padrão, de graça, sem modelo próprio) ao tema da pobreza que apaga a individualidade dos mortos — não apenas identificar "morte" como assunto genérico.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- João Cabral de Melo Neto e a "poesia do osso": poeta pernambucano conhecido por rejeitar o sentimentalismo lírico e tratar temas sociais (especialmente do sertão e do Nordeste pobre) com linguagem seca, técnica, quase arquitetônica — comparações com engenharia, indústria e matéria bruta.
- Metáfora industrial aplicada à morte: o poema usa vocabulário de produção em massa ("em série fabricada", "morte padrão", "fornecida de graça") para descrever cemitérios de gente pobre, nos quais não há caixão, lápide ou sepultamento individualizado — só a vala comum, uniforme e gratuita.
- Anonimato como crítica social: quando o poema diz que "nenhum morto se viu com modelo seu, especial", ele não fala de hierarquia social abstrata, mas do fato concreto de que a miséria retira até o direito a uma morte particular, obrigando todos a uma mesma "matriz" funcional de sepultamento.
- Ironia amarga (não cômica): o trecho final — "tem suas vantagens esta morte em série... faz defuntos funcionais" — não celebra a serialização; expõe, por meio de ironia contida, o absurdo de tratar a morte humana como produto padronizado e "prático".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não há morte pessoal. / Nenhum morto se viu / com modelo seu, especial." → revela que a individualidade é negada já na forma de morrer/ser sepultado — não sobra nem isso para o pobre.
- Evidência 2: "Vão todos com a morte padrão, / em série fabricada. / Morte que não se escolhe / e aqui é fornecida de graça." → a expressão "fornecida de graça" marca a chave socioeconômica do poema: é a pobreza (miséria) que impõe esse padrão uniforme, gratuito porque não há recursos para nada além disso.
- Síntese: o poema não fala de morte em geral nem de ironia sobre corpos frágeis; fala de uma morte "de graça", em série, sem modelo próprio — ou seja, um nivelamento pelo anonimato que só existe porque a miséria não permite outra forma de sepultamento. É esse o fio condutor que leva à alternativa correta.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o cenário concreto do poema
O eu lírico descreve "cemitérios gerais" — expressão que remete a valas comuns, cemitérios públicos e gratuitos destinados a quem não tem condições de pagar por um sepultamento individual. Não se trata de um cemitério qualquer, mas de um espaço marcado pela ausência de recursos: por isso "não há morte pessoal".
Subpasso 4.2 — Mapear o campo semântico da "produção em série"
As palavras "padrão", "em série fabricada", "modelo" e "fornecida de graça" formam um campo semântico de linha de montagem industrial. João Cabral transporta esse vocabulário fabril para o universo da morte a fim de chocar o leitor: os corpos são tratados como peças idênticas, sem particularidade, exatamente como aconteceria numa fábrica que produz sempre o mesmo item. Essa uniformização é a tradução poética do anonimato imposto pela pobreza — quem não tem dinheiro não tem nem uma morte "sua".
Subpasso 4.3 — Verificação: relacionar imagem final ao comando da questão
O comando fala expressamente da "lida do sertanejo com suas adversidades" — ou seja, pede que se reconheça a crítica social embutida no poema, não uma reflexão filosófica abstrata sobre a morte. Os versos finais ("defuntos funcionais, / próprios a uma terra sem vermes") reforçam essa leitura: mesmo mortos, os sertanejos pobres continuam sendo tratados de forma "funcional" e prática, como se sua individualidade nunca tivesse tido valor — exatamente o nivelamento pelo anonimato que a miséria impõe. Essa constatação bate perfeitamente com a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) inutilidade de divisão social e hierárquica após a morte.
❌ Incorreta: o poema não discute uma hierarquia social prévia que se tornaria "inútil" com a morte (o clássico tópico de que "todos somos iguais perante a morte"); ele mostra que a uniformização é imposta especificamente pela pobreza, e não uma constatação filosófica universal sobre a morte igualar ricos e pobres.
B) aspecto desumano dos cemitérios da população carente.
❌ Incorreta: embora o poema retrate cemitérios de gente pobre, seu foco não é qualificar os cemitérios em si como "desumanos" — ele descreve o processo de padronização/serialização da morte e a perda da individualidade, o que é mais preciso e mais específico do que a ideia genérica de desumanização do espaço físico.
C) nivelamento do anonimato imposto pela miséria na morte.
✅ Correta: é exatamente isso que os versos constroem — "morte padrão, em série fabricada", "fornecida de graça", sem "modelo seu, especial" para nenhum morto. A miséria (marcada pela gratuidade e pela produção em série) impõe um nivelamento: todos os sertanejos pobres morrem e são sepultados da mesma forma anônima, sem distinção individual.
D) tom de ironia para com a fragilidade dos corpos e da terra.
❌ Incorreta: há, sim, um tom irônico no poema (sobretudo em "tem suas vantagens esta morte em série"), mas essa ironia recai sobre a padronização da morte imposta pela pobreza, não sobre a fragilidade física dos corpos ou do solo — a expressão "terra sem vermes" reforça a funcionalidade do sistema, não a fragilidade da matéria.
E) indiferença do sertanejo com a ausência de seus próximos.
❌ Incorreta: o poema não trata do sentimento dos vivos em relação à ausência de parentes ou entes queridos; o foco está inteiramente nos mortos e no modo padronizado como são sepultados, sem qualquer menção a indiferença afetiva dos sertanejos.
🏆 Gabarito: C — o poema constrói, por meio do vocabulário da produção em série ("padrão", "em série fabricada", "fornecida de graça"), a imagem de uma morte sem individualidade, imposta pela miséria material do sertanejo, que resulta no nivelamento anônimo de todos os mortos pobres.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C nomeia com precisão a causa (a miséria) e o efeito (o nivelamento pelo anonimato) que o poema descreve; as demais ou generalizam demais (A, D) ou deslocam o foco para outro elemento não central no texto (B, E).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz fragmentos de João Cabral de Melo Neto pedindo que o candidato reconheça a crítica social por trás da linguagem seca e concreta do poeta — geralmente ligada ao sertão, à seca, à pobreza ou ao trabalho manual.
- Generalização: em questões de interpretação poética, a alternativa correta costuma ser a que amarra o recurso linguístico específico do texto (aqui, o vocabulário industrial) ao contexto social indicado no comando da questão — nunca a alternativa mais genérica ou mais "poeticamente bonita".
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que trazem sentimentos ou ideias não mencionados literalmente no texto (como "indiferença" em E) e as que generalizam um tema filosófico universal quando o poema é claramente específico e social (como em A); a resposta certa quase sempre reaproveita o vocabulário-chave do próprio poema.
- Conexões: compare com outros textos de João Cabral sobre o Nordeste (como "Morte e Vida Severina") e com poemas que usam metáforas técnicas/industriais para tratar de temas humanos — ambos são recorrentes em provas de linguagens do ENEM.
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