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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 67ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia

Dado que, dos hábitos racionais com os quais captamos a verdade, alguns são sempre verdadeiros, enquanto outros admitem o falso, como a opinião e o cálculo, enquanto o conhecimento científico e a intuição são sempre verdadeiros, e dado que nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição, e, por outro lado, os princípios são mais conhecidos que as demonstrações, e dado que todo conhecimento científico constitui-se de maneira argumentativa, não pode haver conhecimento científico dos princípios, e dado que não pode haver nada mais verdadeiro que o conhecimento científico, exceto a intuição, a intuição deve ter por objeto os princípios.

ARISTÓTELES. Segundos analíticos. In: REALE, G.
História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994

Os princípios, base da epistemologia aristotélica, pertencem ao domínio do(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Teoria do Conhecimento (epistemologia aristotélica)
  • ⚡ Nível: Difícil — o texto de Aristóteles é denso, sintaticamente encadeado em "dados que..." sucessivos, e exige acompanhar uma cadeia lógica sem perder o fio até a conclusão final.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Hierarquia dos tipos de conhecimento em Aristóteles (opinião, cálculo, ciência e intuição) e o estatuto epistemológico dos princípios — competência de leitura e compreensão de textos filosóficos clássicos.
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A que tipo de conhecimento pertencem os princípios, segundo o texto de Aristóteles?"
  • Palavras-chave decisivas: princípios, intuição, mais exato/mais verdadeiro que o conhecimento científico
  • Armadilha típica: associar "princípios" ao "conhecimento científico" por soarem como sinônimos de rigor e fundamento — o texto faz exatamente o contrário, excluindo os princípios do domínio científico.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de seguir a cadeia argumentativa do texto (silogismo por eliminação) até identificar qual faculdade cognitiva "sobra" para ser o objeto dos princípios.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Opinião (doxa) e cálculo: hábitos racionais que podem ser falsos — não garantem verdade absoluta, por isso ficam fora da disputa sobre os princípios.
  • Conhecimento científico (episteme): para Aristóteles, é sempre demonstrativo, isto é, construído por meio de silogismos que partem de premissas anteriores. Justamente por depender de demonstração, não pode fundamentar aquilo que é indemonstrável.
  • Intuição (nous): faculdade de apreensão imediata e não discursiva da verdade; não depende de argumentação prévia, por isso pode alcançar diretamente aquilo que é primeiro e indemonstrável.
  • Princípios (archai): pontos de partida de toda demonstração; por definição, não podem ser demonstrados por algo anterior a eles (senão não seriam "primeiros"), o que os torna inacessíveis à ciência demonstrativa.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o conhecimento científico e a intuição são sempre verdadeiros" → coloca ciência e intuição no mesmo patamar de infalibilidade, eliminando opinião e cálculo da disputa.
  • Evidência 2: "nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição" → estabelece uma hierarquia: a intuição é superior/mais exata até que a própria ciência.
  • Evidência 3: "todo conhecimento científico constitui-se de maneira argumentativa, não pode haver conhecimento científico dos princípios" → como a ciência depende de demonstração (argumentos construídos a partir de algo anterior), e os princípios são o ponto de partida (não têm nada anterior a demonstrá-los), a ciência é incapaz de captá-los.
  • Síntese: Se nem opinião/cálculo (falíveis) nem o conhecimento científico (demonstrativo, logo incapaz de alcançar o indemonstrável) podem captar os princípios, resta apenas a intuição — a única forma de conhecimento tão ou mais exata que a ciência e que não depende de demonstração.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear os "hábitos racionais" citados por Aristóteles

O texto apresenta quatro formas de captar a verdade: opinião, cálculo, conhecimento científico e intuição. Logo de início, opinião e cálculo são descartados como candidatos a fundamentar os princípios, pois "admitem o falso" — não oferecem a certeza que princípios (fundamentos de todo o saber) exigem.

Subpasso 4.2 — Eliminar o conhecimento científico por definição estrutural

Restam ciência e intuição, ambas sempre verdadeiras. Mas o texto acrescenta um critério estrutural: "todo conhecimento científico constitui-se de maneira argumentativa". Ou seja, a ciência sempre demonstra algo a partir de premissas anteriores. Como os princípios são, por definição, o que vem antes de tudo — não há nada anterior a partir do qual demonstrá-los —, conclui-se que "não pode haver conhecimento científico dos princípios". A ciência é excluída não por ser menos confiável, mas por depender estruturalmente de demonstração, algo que os princípios (indemonstráveis) não comportam.

Subpasso 4.3 — Verificação: aplicar o critério de exatidão/verdade

Sobra apenas a intuição. O texto reforça essa conclusão por dois caminhos que convergem: (1) "nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição" — a intuição é hierarquicamente superior à ciência em exatidão; (2) "não pode haver nada mais verdadeiro que o conhecimento científico, exceto a intuição" — o mesmo vale para verdade. Como os princípios são "mais conhecidos que as demonstrações" (isto é, ocupam posição epistemológica mais fundamental que aquilo que a ciência demonstra), somente uma forma de conhecimento mais exata e mais verdadeira que a própria ciência pode alcançá-los. Essa forma é a intuição — conclusão que o próprio texto enuncia explicitamente na última linha: "a intuição deve ter por objeto os princípios". A alternativa D confirma exatamente esse resultado.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) opinião, pois fazem parte da formação da pessoa

❌ Incorreta: o próprio texto classifica a opinião entre os hábitos racionais que "admitem o falso", ou seja, não garante verdade — característica incompatível com o estatuto de princípio, que exige certeza absoluta. Além disso, "formação da pessoa" é um critério estranho ao texto, não mencionado em nenhum momento.

B) cálculo, pois são demonstrados por argumentos.

❌ Incorreta: comete dois erros simultâneos. Primeiro, o cálculo, assim como a opinião, é explicitamente citado como um hábito que "admite o falso". Segundo, o texto diz exatamente o oposto sobre demonstração: é porque a ciência (que se apoia em argumentos/demonstração) não consegue alcançar os princípios que a intuição precisa fazê-lo — os princípios são, por definição, indemonstráveis.

C) conhecimento científico, pois admitem provas empíricas.

❌ Incorreta: é a alternativa que mais tenta confundir o candidato, pois soa "racional" e "rigorosa". Mas o texto nega isso de forma direta: "não pode haver conhecimento científico dos princípios", justamente porque toda ciência se constitui de maneira argumentativa/demonstrativa, e os princípios não podem ser demonstrados (não há nada anterior a eles). "Provas empíricas" também não é um critério mencionado no texto, que trata de lógica dedutiva, não de empirismo.

D) intuição, pois ela é mais exata que o conhecimento científico.

✅ Correta: é a conclusão explícita do próprio texto — "a intuição deve ter por objeto os princípios" — sustentada pela premissa de que "nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição". Como a ciência é incapaz de demonstrar os princípios (eles são indemonstráveis por definição) e a intuição é a única forma de conhecimento tão ou mais exata e verdadeira que a ciência, só ela pode captar os princípios diretamente, sem depender de demonstração.

E) prática de hábitos racionais, pois com ela se capta a verdade

❌ Incorreta: "hábitos racionais" é o gênero geral mencionado no início do texto (que inclui opinião, cálculo, ciência e intuição), não uma resposta específica. A questão pede qual desses hábitos particulares tem os princípios como objeto — responder com o gênero inteiro ignora toda a distinção que o texto constrói entre as quatro formas de conhecimento.

🏆 Gabarito: D — a intuição é a única forma de conhecimento, segundo Aristóteles, que é ao mesmo tempo sempre verdadeira e mais exata que a própria ciência, podendo por isso captar diretamente os princípios indemonstráveis que fundamentam todo saber científico.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A letra D é a única compatível com a conclusão textual explícita de Aristóteles e com a lógica de eliminação construída ao longo de todo o trecho: opinião e cálculo caem por serem falíveis; a ciência cai por depender de demonstração, que os princípios não admitem; resta a intuição.
  • Padrão de cobrança: O ENEM costuma trazer trechos originais (ou traduzidos) de filósofos clássicos com estrutura lógica encadeada — "dado que... e dado que..." — testando se o candidato consegue acompanhar premissas até a conclusão, sem precisar de conhecimento prévio aprofundado sobre o autor.
  • Generalização: Em questões de filosofia com textos-fonte, a resposta quase sempre está contida (parafraseada) no próprio enunciado; o trabalho do candidato é rastrear a cadeia de "eliminação de candidatos" até sobrar apenas uma opção coerente com todas as premissas dadas.
  • Dica de eliminação rápida: Descarte de imediato qualquer alternativa que contrarie uma afirmação explícita do texto (aqui, A e B caem na primeira frase, que diz que opinião e cálculo "admitem o falso"); depois, desconfie da alternativa que parece "óbvia demais" por usar um termo técnico central do texto sem sustentação lógica (C usa "conhecimento científico", mas o texto nega isso duas linhas depois).
  • Conexões: Vale revisar também a diferença entre indução e dedução em Aristóteles, e o conceito de "primeiros princípios" (archai) na tradição racionalista, retomado depois por Descartes com as "ideias claras e distintas".

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