Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 15ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia

– Recusei a mão de minha filha, porque o senhor é… filho de uma escrava.

– Eu?

– O senhor é um homem de cor!… Infelizmente esta é a verdade… Raimundo tornou-se lívido. Manoel prosseguiu, no fim de um silêncio:

– Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa, mas é por tudo! A família de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! O senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!… Nunca me perdoariam um tal casamento; além do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de portugueses!

AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Escala, 2008.

Influenciada pelo ideário cientificista do Naturalismo, a obra destaca o modo como o mulato era visto pela sociedade de fins do século XIX. Nesse trecho, Manoel traduz uma concepção em que a

Alternativas

Resolução

📋 Ficha da questão

  • Matéria: Literatura → Naturalismo → "O Mulato", de Aluísio Azevedo
  • Habilidade: H15 — estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político
  • Nível: Médio — o trecho é explícito, mas a fala de Manoel é ambígua de propósito, e é essa ambiguidade que sustenta dois distratores fortes
  • Gabarito: revelado no Passo 4

🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando

  • O comando, em uma linha: que concepção sobre o mulato a fala de Manoel traduz.
  • Palavras-chave decisivas: ideário cientificista do Naturalismo, o modo como o mulato era visto pela sociedade, Manoel traduz uma concepção.
  • A armadilha: confundir o que Manoel diz sentir com o que sua fala revela. Ele afirma que a recusa "não é por mim", chama o preconceito de "asneira" e de "prejuízo tolo". Quem lê isso como condenação da discriminação marca a alternativa C — e cai na inversão que o item preparou.
  • O que a resposta precisa mostrar: que você identifica o critério que fundamenta a recusa. A pergunta não é se Manoel aprova o preconceito, mas qual é a lógica que ele reproduz ao obedecê-lo.

📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo

  • Naturalismo: vertente radicalizada do Realismo, no Brasil a partir de 1881. Aplica à literatura o "ideário cientificista" citado no enunciado: o comportamento humano seria determinado por raça, meio e momento histórico. O narrador naturalista observa a sociedade como um cientista observa um experimento — e "O Mulato" (1881) é o romance-manifesto dessa escola no país.
  • Determinismo racial: ideia, corrente na ciência do século XIX e hoje desacreditada, de que a origem racial define o valor e o destino do indivíduo. Na sociedade retratada, é ela que transforma a ascendência de Raimundo em impedimento social, independentemente do que ele seja ou tenha conquistado.
  • Miscigenação: mistura de ascendências distintas em um mesmo indivíduo. No vocabulário cientificista da época, a mestiçagem era lida como degradação, e não como diversidade — motivo pelo qual o mulato ocupava um lugar socialmente ambíguo e desvalorizado.
  • "Branco de lei": expressão que aparece na fala de Manoel e condensa a norma social vigente. Não basta ser branco de aparência: exige-se pureza de origem, "português ou descendente direto de portugueses". É a regra de linhagem que a família guarda como promessa.
  • Discurso que se descola da prática: Manoel condena verbalmente o preconceito e o cumpre integralmente na conduta. Reconhecer esse descompasso é o que impede a leitura apressada da alternativa C.

🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado

  • Evidência 1: "Recusei a mão de minha filha, porque o senhor é… filho de uma escrava" → a justificativa da recusa é a ascendência, e nada mais. Nenhum defeito de caráter, de conduta ou de posição é atribuído a Raimundo.
  • Evidência 2: "O senhor é um homem de cor!… Infelizmente esta é a verdade" → a cor é enunciada como fato desabonador. O advérbio "infelizmente" trata a mestiçagem como infortúnio, como algo que se lamenta em alguém — é a desqualificação em estado puro.
  • Evidência 3: "Raimundo tornou-se lívido" → a reação física registra o golpe. O narrador naturalista descreve a alteração do corpo como um sintoma, procedimento típico da escola.
  • Evidência 4: "não é por mim que lhe recusei Ana Rosa, mas é por tudo! (…) o que é por cá a prevenção contra os mulatos" → Manoel transfere a responsabilidade para a coletividade. Ao fazê-lo, testemunha que a desqualificação do mestiço é norma social, e não idiossincrasia sua.
  • Evidência 5: "a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de portugueses" → o critério é explicitamente de linhagem. A pureza de origem é condição, e a miscigenação, o impedimento.
  • Síntese: cinco falas seguidas apontam para o mesmo lugar — o que inabilita Raimundo é sua origem mestiça, tomada como marca de inferioridade. Nada no trecho fala de dinheiro, de doença, de maternidade negada ou de risco à hegemonia branca.

🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo

4.1 — Isolar o critério da recusa

Manoel dá uma única razão, repetida em três formulações diferentes:

  • "filho de uma escrava"
  • "um homem de cor"
  • não é "branco de lei, português ou descendente direto de portugueses"

As três dizem a mesma coisa por caminhos distintos: a ascendência de Raimundo o exclui. Não há, no trecho, nenhuma outra objeção — nem à sua fortuna, nem à sua formação, nem ao seu caráter. O critério é racial e apenas racial.

4.2 — Separar a opinião declarada da concepção que a fala revela

Manoel constrói uma defesa em três movimentos: nega responsabilidade pessoal ("não é por mim"), classifica o preconceito como erro ("concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo") e, ainda assim, cumpre a recusa.

O comando pergunta pela concepção que a fala traduz, não pelo sentimento que Manoel alega. E a concepção traduzida é justamente aquela que faz da mistura de origens um demérito suficiente para inviabilizar um casamento. Manoel a lamenta e a executa — o lamento não a desfaz.

4.3 — Ler o trecho pelo cientificismo naturalista

O enunciado adianta a chave: a obra é "influenciada pelo ideário cientificista do Naturalismo". Nesse ideário, a raça determina o indivíduo. Aplicada à cena, a lógica é direta: como Raimundo é mestiço, é tido como inferior, e nenhum atributo pessoal compensa essa marca de origem. A miscigenação, nessa concepção, desqualifica.

4.4 — Verificação

Teste cada elemento do trecho contra a formulação escolhida. "Filho de uma escrava", "homem de cor", "infelizmente esta é a verdade", "prevenção contra os mulatos" e "branco de lei" — todos exprimem a mesma ideia: a ascendência mestiça retira valor social do indivíduo. Nenhum trecho sobra sem explicação, e nenhum contradiz a leitura. Gabarito: A.

✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas

(A) miscigenação racial desqualificava o indivíduo — É a síntese exata do que Manoel enuncia. Raimundo é recusado por ser "filho de uma escrava" e "homem de cor", sem que nenhum outro atributo seu seja posto em questão. A palavra "infelizmente" e a exigência de um "branco de lei" confirmam que a origem mestiça funcionava como marca de desvalor — a concepção cientificista de raça que o Naturalismo levava à ficção.

(B) condição econômica anulava os conflitos raciais — Extrapolação sem apoio no texto, e contradita por ele. Não há uma linha sobre dinheiro, posses ou posição econômica no trecho. Ao contrário: o critério apresentado é de linhagem, não de patrimônio, e "branco de lei" é uma exigência que fortuna nenhuma satisfaz. A alternativa importa para o século XIX uma lógica de classe que a cena não aciona.

(C) discriminação racial era condenada pela sociedade — Inversão do sujeito, e o distrator mais forte da questão. Quem condena o preconceito, em palavras, é Manoel — "concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo". A sociedade faz o oposto: é ela quem sustenta a "prevenção contra os mulatos" e quem "nunca perdoaria um tal casamento". Trocar o indivíduo pela coletividade transforma uma ressalva pessoal, aliás inconsequente, em posição social.

(D) escravidão negava o direito da negra à maternidade — Extrapolação a partir de uma única expressão. O trecho menciona a mãe escravizada de Raimundo apenas para localizar sua origem; a maternidade dela não é tematizada, negada nem discutida. A alternativa constrói um tema alheio à cena a partir de quatro palavras isoladas.

(E) união entre mestiços era um risco à hegemonia dos brancos — Troca o par em questão. O casamento discutido não é entre mestiços: é entre Raimundo, mulato, e Ana Rosa, branca. E a razão que Manoel apresenta é a promessa de linhagem feita à sogra, não uma teoria sobre ameaça ao poder branco. A alternativa substitui o motivo declarado no texto por uma justificativa política que ele não formula.

Gabarito: A — Manoel recusa o casamento invocando exclusivamente a ascendência mestiça de Raimundo, o que traduz a concepção, própria do cientificismo naturalista, de que a miscigenação retirava valor ao indivíduo.

🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova

  • Por que só A se sustenta: B e D acrescentam temas ausentes do trecho; C inverte quem condena e quem pratica; E troca os sujeitos da união discutida. Apenas A reformula, sem acrescentar nada, o critério que o próprio Manoel enuncia três vezes.
  • Como o ENEM cobra isso: o Naturalismo brasileiro aparece quase sempre por "O Mulato", "O Cortiço" e "O Ateneu", e o recorte preferido é o determinismo — de raça, de meio ou de instinto. O comando costuma trazer a pista no enunciado, como aqui, ao citar o "ideário cientificista".
  • A regra geral: quando a alternativa afirma que alguém condena ou critica algo, verifique quem é esse alguém no texto. Personagem que lamenta e obedece não constitui crítica social; e a opinião de um personagem nunca é, por si, a posição da sociedade retratada.
  • Eliminação em 30 segundos: procure no trecho as palavras de cada alternativa. Não há nada sobre economia (B), nada sobre maternidade (D) e nenhuma união entre dois mestiços (E). Sobram A e C, e C exige atribuir à sociedade o que só Manoel diz.
  • Temas que costumam vir junto: determinismo de raça, meio e momento; comparação entre Realismo e Naturalismo; a figura do mestiço em Machado de Assis e em Lima Barreto; e as teorias raciais do século XIX na prova de Ciências Humanas.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.