Mapa de questões · 1º dia
Questão 33 — ENEM 2017 PPL
Pela primeira vez na vida teve pena de haver tantos assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu. Mas uma mosca fez um ângulo reto no ar, depois outro, além disso, os seis anos são uma idade de muitas coisas pela primeira vez, mais do que uma por dia e, por isso, logo depois, arribou. Os assuntos que não compreendia eram uma espécie de tontura, mas o Ilídio era forte.
Se calhar estava a falar de tratar da cabra: nunca esqueças de tratar da cabra. O Ilídio não gostava que a mãe o mandasse tratar da cabra. Se estava ocupado a contar uma história a um guarda-chuva, não queria ser interrompido. Às vezes, a mãe escolhia os piores momentos para chamá-lo, ele podia estar a contemplar um segredo, por isso, assustava-se e, depois, irritava-se. Às vezes, fazia birras no meio da rua. A mãe envergonhava-se e, mais tarde, em casa, dizia que as pessoas da vila nunca tinham visto um menino tão velhaco. O Ilídio ficava enxofrado, mas lembrava-se dos homens que lhe chamavam reguila, diziam ah, reguila de má raça. Com essa memória, recuperava o orgulho. Era reguila, não era velhaco. Essa certeza dava-lhe forças para protestar mais, para gritar até, se lhe apetecesse.
PEIXOTO, J. L. Livro. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
No texto, observa-se o uso característico do português de Portugal, marcadamente diferente do uso do português do Brasil. O trecho que confirma essa afirmação é:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Variação Linguística Diatópica (português europeu × português brasileiro)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer marcas gramaticais específicas do português de Portugal, e não apenas vocabulário "diferente"
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer usos da língua diferenciados em função da região geográfica de quem fala (Competência de Área 8, Linguagens e Códigos)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Identifique o trecho que comprova, com uma marca linguística concreta, que o texto foi escrito na norma do português europeu, e não na do português brasileiro."
- Palavras-chave decisivas: uso característico, marcadamente diferente, trecho que confirma
- Armadilha típica: apontar um trecho só porque tem palavra rara ou "literária" (como "esmoreceu" ou "velhaco"), confundindo escolha estilística do autor com marca sistemática de variedade geográfica.
- O que a resposta precisa demonstrar: a construção escolhida precisa ser algo que um brasileiro simplesmente não diria de forma espontânea — uma diferença de gramática, não de tema ou de vocabulário raro.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística diatópica: variação da língua conforme a região geográfica. Português europeu e brasileiro são a mesma língua, mas com diferenças fonéticas, lexicais e — o que mais interessa aqui — gramaticais.
- Perífrase "estar a + infinitivo": em Portugal, ação em curso se expressa com "estar a" + infinitivo ("estava a falar"). No Brasil, usa-se o gerúndio ("estava falando"). É a marca mais citada em qualquer gramática comparativa das duas normas.
- "Se calhar": locução adverbial genuinamente portuguesa, equivalente a "talvez"/"pode ser que". Não circula no português brasileiro espontâneo.
- Flexão de 2ª pessoa do singular (tu): em Portugal, "tu" mantém conjugação verbal própria e sistemática ("esqueças", "tu esqueces"). No Brasil, mesmo onde "tu" é usado regionalmente, é comum a concordância com "você" ("tu esquece"), tornando "esqueças" um traço adicional de estranhamento para o leitor brasileiro.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Se calhar estava a falar de tratar da cabra" → reúne, na mesma oração, a locução "se calhar" e a perífrase "estar a + infinitivo", duas construções tipicamente europeias.
- Evidência 2: "nunca esqueças de tratar da cabra" → "esqueças" é a forma verbal de 2ª pessoa do singular associada ao "tu", reforçando o pertencimento à norma portuguesa na mesma frase.
- Síntese: a alternativa D concentra, em uma única frase curta, três marcas gramaticais do português europeu, tornando-a o exemplo mais direto e didático de variação diatópica entre todas as opções — as demais trazem apenas vocabulário incomum, sem alterar a estrutura da língua.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar "vocabulário raro" de "marca gramatical"
O texto de José Luís Peixoto, autor português, tem palavras pouco usuais no Brasil ("esmoreceu", "velhaco", "enxofrado"), mas isso é registro literário culto, compartilhado por toda a língua — um brasileiro entende e pode até usar essas palavras sem sentir que está "traduzindo" algo. A questão exige um trecho em que a estrutura gramatical — não o tema — seja estranha ao português brasileiro.
Subpasso 4.2 — Aplicar o teste em cada alternativa
Pergunta-chave: "um falante brasileiro diria essa frase exatamente assim, com naturalidade?"
- Em A, B, C e E, a resposta é sim: são orações subordinadas, coordenadas e uso de pronome oblíquo ("lhe") plenamente compatíveis com a norma culta brasileira escrita.
- Em D, a resposta é não: "se calhar" seria "talvez"; "estava a falar" seria "estava falando"; "esqueças" seria "esqueça" (para "você"). Três substituições gramaticais na mesma frase.
Subpasso 4.3 — Verificação
"Traduzindo" D para o português brasileiro coloquial: "Talvez estivesse falando de cuidar da cabra: nunca esqueça de cuidar da cabra." A reescrita altera justamente os três pontos gramaticais apontados, confirmando que D é o trecho que evidencia, sem ambiguidade, o uso característico do português de Portugal.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) "Pela primeira vez na vida teve pena de haver tantos assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu."
❌ Incorreta: estrutura sintática (oração principal + subordinada substantiva) idêntica nas duas normas. "Esmorecer" é vocabulário raro, não marca gramatical exclusiva de Portugal.
B) "Os assuntos que não compreendia eram uma espécie de tontura, mas o Ilídio era forte."
❌ Incorreta: oração coordenada adversativa simples, de uso corrente também no português brasileiro. Nenhuma perífrase, locução ou flexão verbal exclusiva do PT-PT.
C) "Essa certeza dava-lhe forças para protestar mais, para gritar até, se lhe apetecesse."
❌ Incorreta: a colocação do pronome oblíquo "lhe" é mais comum na fala informal portuguesa, mas é plenamente aceita e registrada na norma culta escrita brasileira — não configura, isolada, uma marca inconfundível de português europeu.
D) "Se calhar estava a falar de tratar da cabra: nunca esqueças de tratar da cabra."
✅ Correta: reúne três marcas gramaticais típicas do português europeu — a locução "se calhar" (= "talvez"), a perífrase "estar a + infinitivo" (em vez do gerúndio brasileiro) e a flexão de 2ª pessoa do singular "esqueças" (uso do "tu"). É o único trecho em que a diferença está na própria gramática da frase, não apenas no vocabulário.
E) "O Ilídio não gostava que a mãe o mandasse tratar da cabra."
❌ Incorreta: oração subordinada substantiva objetiva direta com verbo causativo "mandar" + infinitivo, estrutura idêntica em Portugal e no Brasil. Só o item lexical "cabra" remete ao universo rural português, mas isso é tema, não gramática.
🏆 Gabarito: D — é o único trecho que combina locução lusitana ("se calhar"), perífrase verbal exclusiva ("estar a + infinitivo") e flexão de 2ª pessoa do singular ("esqueças"), evidenciando diferença gramatical — e não apenas lexical — entre o português europeu e o brasileiro.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D concentra marcas morfossintáticas (perífrase verbal e flexão de "tu") ausentes do uso espontâneo do português brasileiro; as demais variam apenas em vocabulário ou recursos estilísticos compartilhados pelas duas normas cultas.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra variação linguística quase todo ano — registro formal x informal, variação regional dentro do Brasil, ou, como aqui, português europeu x brasileiro —, sempre pedindo que o candidato justifique com um recurso linguístico concreto do trecho, não com impressão geral de "estranheza".
- Generalização: ao comparar duas variedades de uma língua, priorize diferenças de gramática (verbos, pronomes, regência) sobre diferenças de léxico (palavras raras ou temáticas), pois a gramática é o critério mais robusto cobrado nesse tipo de questão.
- Dica de eliminação rápida: procure verbos com "a + infinitivo" ("estar a" + verbo), pronomes "tu/vós" com flexão própria, ou locuções como "se calhar", "pois não", "com certeza que". Encontrando qualquer uma dessas marcas, a resposta certa aparece em segundos.
- Conexões: compare com questões sobre registro formal x coloquial na fala brasileira e com variação lexical regional dentro do próprio Brasil (ex.: "mandioca" x "aipim" x "macaxeira"), outro clássico da Competência de Área 8 do ENEM.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.