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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 79ENEM 2017 PPLCaderno azul · 1º Dia

Nos primeiros anos do governo Vargas, as organizações operárias sob controle das correntes de esquerda tentaram se opor ao seu enquadramento pelo Estado. Mas a tentativa fracassou. Além do governo, a própria base dessas organizações pressionou pela legalização. Vários benefícios, como as férias e a possibilidade de postular direitos perante as Juntas de Conciliação e Julgamento, dependiam da condição de ser membro de sindicato reconhecido pelo governo.

FAUSTO, B. História concisa do Brasil. São Paulo: Edusp;
Imprensa Oficial do Estado, 2002 (adaptado).

No contexto histórico retratado pelo texto, a relação entre governo e movimento sindical foi caracterizada

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Era Vargas (1930-1945), legislação trabalhista e sindical
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular o texto de Boris Fausto com o conceito histórico de corporativismo sindical, e não apenas "achar" a alternativa mais óbvia
  • 🎯 Tema/Habilidade: Sindicalismo de Estado no governo Vargas — competência de interpretar processos políticos e sociais do Brasil republicano
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Como o texto caracteriza a relação entre o governo Vargas e o movimento sindical nos primeiros anos de seu governo?"
  • Palavras-chave decisivas: enquadramento pelo Estado, fracassou, sindicato reconhecido pelo governo
  • Armadilha típica: confundir a existência de benefícios trabalhistas (férias, Juntas de Conciliação) com uma relação harmoniosa, democrática ou consensual entre Estado e trabalhadores — quando, na verdade, o texto mostra que esses benefícios eram usados como instrumento de controle
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a alternativa correta identifica o mecanismo de subordinação (direitos condicionados ao reconhecimento estatal), e não apenas o resultado superficial (existência de benefícios)

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Sindicalismo atrelado ao Estado (corporativismo trabalhista): a partir de 1931 (Decreto nº 19.770), Vargas criou um modelo em que os sindicatos só tinham existência legal se reconhecidos e fiscalizados pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio — extinguindo, na prática, a autonomia sindical.
  • Enquadramento sindical: processo pelo qual o Estado organizava os trabalhadores em sindicatos oficiais, únicos por categoria e por município, esvaziando o sindicalismo combativo de base anarquista e comunista que existia na Primeira República.
  • Juntas de Conciliação e Julgamento (JCJ): criadas em 1932, eram órgãos que julgavam conflitos trabalhistas — mas só podiam ser acionadas por quem pertencesse a um sindicato reconhecido pelo governo, o que tornava o acesso à Justiça do Trabalho condicionado à submissão ao controle estatal.
  • Correntes de esquerda no movimento operário: anarquistas e comunistas defendiam sindicatos autônomos e de luta direta, sem tutela estatal; tentaram resistir ao enquadramento, mas foram derrotados pela repressão política e pela adesão pragmática da própria base operária, atraída pelos benefícios legais.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "as organizações operárias sob controle das correntes de esquerda tentaram se opor ao seu enquadramento pelo Estado. Mas a tentativa fracassou." → mostra que havia resistência ao controle estatal, mas essa resistência foi derrotada — ou seja, o Estado impôs sua tutela sobre os sindicatos.
  • Evidência 2: "Vários benefícios, como as férias e a possibilidade de postular direitos perante as Juntas de Conciliação e Julgamento, dependiam da condição de ser membro de sindicato reconhecido pelo governo." → revela o mecanismo central: direitos trabalhistas não eram universais nem automáticos, mas condicionados à filiação a um sindicato chancelado pelo Estado.
  • Síntese: o texto não descreve uma conquista autônoma de direitos pelos trabalhadores, nem um pacto negociado livremente; descreve um sistema em que o próprio acesso aos direitos trabalhistas funcionava como instrumento de cooptação e controle político dos sindicatos pelo aparelho estatal varguista.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o processo histórico retratado

O texto situa-se nos "primeiros anos do governo Vargas" (início dos anos 1930), momento em que o novo governo passou a regulamentar as relações de trabalho por meio de decretos como a Lei de Sindicalização de 1931. Essa legislação criava sindicatos oficiais, subordinados ao Ministério do Trabalho, e retirava a legitimidade dos sindicatos autônomos de orientação anarquista e comunista que haviam protagonizado as greves da Primeira República.

Subpasso 4.2 — Analisar o papel dos dois agentes citados: governo e base operária

O texto destaca dois vetores que convergiam para o mesmo resultado: (1) a pressão institucional do governo, que impunha o enquadramento; e (2) a pressão da própria base operária, que via nos sindicatos reconhecidos a única via de acesso a benefícios concretos (férias, JCJ). Isso significa que a legalização sindical não decorreu de um acordo livre entre iguais, mas de uma engenharia institucional na qual o Estado condicionava direitos sociais à aceitação de seu controle — um mecanismo de tutela, não de negociação democrática.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando a síntese com as cinco alternativas, apenas uma expressão capta exatamente esse mecanismo: direitos trabalhistas (férias, acesso às Juntas) só existiam na prática vinculados à submissão do sindicato à tutela do Estado. Essa é a relação estruturante descrita pelo texto — não a simples existência de benefícios, nem qualquer ideia de diálogo, consenso ou pluralismo ideológico.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) pelas benesses sociais do getulismo.

❌ Incorreta: reduz o processo a uma dádiva generosa do governo ("benesses"), como se os direitos fossem uma concessão espontânea e desinteressada. Ignora o elemento central do texto — que o acesso a esses benefícios era condicionado ao controle estatal sobre os sindicatos, isto é, um instrumento de cooptação política, não um simples gesto de bondade governamental.

B) por um diálogo democraticamente constituído.

❌ Incorreta: o texto mostra exatamente o oposto — as correntes de esquerda tentaram resistir ao enquadramento e "a tentativa fracassou", evidenciando imposição estatal e derrota política de um projeto sindical autônomo, não uma construção dialogada e democrática entre partes com poder equivalente.

C) por uma legislação construída consensualmente.

❌ Incorreta: não houve consenso — houve conflito (resistência das correntes de esquerda) seguido de derrota dessas correntes. A legislação sindical foi imposta de cima para baixo pelo Estado varguista; a adesão da base operária foi pragmática (busca por benefícios concretos), não fruto de um processo consensual de elaboração normativa.

D) pelo reconhecimento de diferentes ideologias políticas.

❌ Incorreta: o texto descreve o inverso — o enquadramento sindical varguista tinha como efeito justamente eliminar a pluralidade ideológica (anarquista, comunista) do movimento operário, substituindo-a por um sindicalismo único, oficial e despolitizado, sob controle do Ministério do Trabalho.

E) pela vinculação de direitos trabalhistas à tutela do Estado.

✅ Correta: é exatamente o que o texto demonstra — férias e o direito de recorrer às Juntas de Conciliação e Julgamento só valiam para quem pertencesse a um "sindicato reconhecido pelo governo". Os direitos trabalhistas, portanto, não eram universais nem autônomos: estavam atrelados à aceitação do controle (tutela) estatal sobre a organização sindical, traço definidor do corporativismo trabalhista da Era Vargas.

🏆 Gabarito: E — o texto evidencia que o acesso a direitos trabalhistas (férias, Juntas de Conciliação) dependia do enquadramento do sindicato pelo Estado, caracterizando uma relação de tutela estatal sobre o movimento sindical, e não de diálogo, consenso ou pluralismo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa E é a única que nomeia corretamente o mecanismo relatado pelo texto — a subordinação (tutela) dos direitos trabalhistas ao reconhecimento estatal dos sindicatos, e não apenas a existência de benefícios ou um suposto pacto democrático.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o corporativismo trabalhista varguista contrapondo a retórica oficial de "outorga de direitos" (o discurso do "pai dos pobres") à realidade de controle político sobre os trabalhadores — é um tema clássico de História do Brasil Republicano.
  • Generalização: sempre que um texto descrever direitos condicionados à submissão a uma estrutura controlada pelo Estado, a chave interpretativa correta é "controle/tutela estatal", mesmo que a superfície do texto mencione conquistas ou benefícios concretos.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa com palavras como "diálogo democrático", "consensual" ou "diferentes ideologias" sempre que o texto mencionar resistência seguida de fracasso — esses termos contradizem diretamente a ideia de imposição vinda de cima.
  • Conexões: compare com a criação da CLT (1943) e da Justiça do Trabalho (1939-1941), ambas herdeiras direta desse modelo de sindicalismo tutelado; relacione também ao conceito de "cidadania regulada", cunhado pelo cientista político Wanderley Guilherme dos Santos para descrever esse padrão de direitos sociais brasileiro atrelado ao vínculo formal com o Estado.

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