Mapa de questões · 1º dia
Questão 31 — ENEM 2017 PPL
A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós. Seis. O pai, amparado pela prateleira da cozinha, com o suor desinfetando o ar, tamanho o cheiro do álcool, reparava na fome dos filhos. Enxergava o manejo da faca desafiando o tomate e, por certo, nos pensava devorados pelo vento ou tempestade, segundo decretava a nova mulher. Todos os dias — cotidianamente — havia tomate para o almoço. Eles germinavam em todas as estações. Jabuticaba, manga, laranja floresciam, cada uma em seu tempo. Tomate, não. Ele frutificava continuamente, sem demandar adubo além do ciúme. Eu desconhecia se era mais importante o tomate ou o ritual de cortá-lo. As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar.
QUEIRÓS, B. C. Vermelho amargo. São Paulo: Cosac & Naify, 2011.
Ao recuperar a memória da infância, o narrador destaca a importância do tomate nos almoços da família e a ação da madrasta ao prepará-lo. A insistência nessa imagem é um procedimento estético que evidencia a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → interpretação de prosa contemporânea e análise de recursos estéticos (imagem, símbolo, procedimento narrativo)
- ⚡ Nível: Difícil — exige distinguir, dentro de um texto denso e simbólico, qual relação humana o procedimento estético (a insistência na imagem do tomate) efetivamente evidencia
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de procedimentos estéticos na construção do sentido (competência de leitura literária — relação entre forma e conteúdo)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a repetição obsessiva da cena do tomate sendo cortado revela sobre as relações da família?"
- Palavras-chave decisivas: insistência nessa imagem, procedimento estético, evidencia
- Armadilha típica: confundir um detalhe pontual do texto (a saudade da mãe, citada uma única vez) com o sentido geral que a repetição da cena constrói ao longo de todo o fragmento
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler o texto como um todo coeso — não apenas localizar uma frase isolada, mas perceber para que relação converge o campo semântico de violência, ódio e vigilância que cerca o ritual do tomate
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Procedimento estético: escolha formal (repetição, escolha lexical, imagem recorrente) que o autor usa deliberadamente para construir um sentido que vai além da informação literal — não é enfeite, é significado.
- Narrador-personagem (foco interno): o texto é narrado em primeira pessoa por um dos filhos ("eu insistia em justificar", "nos pensava devorados"), o que filtra toda a cena pela percepção infantil da criança em relação à madrasta.
- Campo semântico de violência velada: palavras como "envenenar", "degolasse", "faca", "desafiando", "ódio" formam uma rede lexical que transforma um ato doméstico banal (cortar tomate) em cena de tensão e ameaça simbólica.
- Repetição como marca de permanência do conflito: o texto opõe explicitamente o tomate ("germina em todas as estações", "todos os dias") às demais frutas (sazonais) — essa insistência temporal é o próprio "procedimento estético" que a questão pede para interpretar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos" / "como se degolasse cada um de nós" → a ação da madrasta é descrita com vocabulário de agressão e morte, associando-a a uma ameaça constante dirigida às crianças, entre elas o narrador.
- Evidência 2: "Todos os dias — cotidianamente — havia tomate para o almoço. (...) Tomate, não. Ele frutificava continuamente, sem demandar adubo além do ciúme." → a repetição diária do ritual é explicada por uma emoção negativa (o ciúme), o que ancora a imagem do tomate na tensão afetiva entre a madrasta e os filhos do marido, não em qualquer outro conflito.
- Evidência 3: "As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar." → o ódio é nomeado explicitamente, e quem o sente como "intruso" é justamente a criança (o narrador), que se percebe deslocada no afeto entre o pai e a nova mulher.
- Síntese: as três evidências, lidas juntas, mostram que a insistência na cena do tomate não fala primeiro da saudade da mãe nem do pai, mas constrói, cena após cena, o retrato de uma convivência tensa, hostil e cotidiana entre o narrador-criança e a esposa do pai — é esse atrito sustentado no tempo que o "procedimento estético" (a repetição da imagem) evidencia.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem está no centro da cena repetida
A cena que se repete "todos os dias" tem sempre dois polos ativos: a madrasta, que corta o tomate com um gesto descrito em termos de violência ("degolasse", "envenenar"), e o narrador-criança, que observa, sente ("saudade evaporando pelos olhos") e interpreta esse gesto como hostil ("insistia em justificar a economia"). O pai aparece como figura passiva e alcoolizada ("suor desinfetando o ar", "cheiro do álcool"), que apenas constata a fome dos filhos sem intervir — ele não é o foco da tensão, é testemunha periférica dela.
Subpasso 4.2 — Ligar a repetição do tomate ao sentimento nomeado no texto
O texto faz questão de explicar por que o tomate, ao contrário das demais frutas sazonais, aparece sempre: "sem demandar adubo além do ciúme". Essa frase é a chave interpretativa da questão — o autor associa deliberadamente a permanência da cena (o "procedimento estético" da insistência) a uma emoção relacional negativa. E o parágrafo final reforça: "escreviam um ódio", sentido por "aqueles que se sentem intrusos ao amor" — ou seja, pelas crianças, e em especial pelo narrador, que se vê como intruso na relação entre o pai e a madrasta.
Subpasso 4.3 — Verificação: a imagem central sustenta qual relação?
Reunindo os subpassos: a repetição diária do corte do tomate não ilustra nostalgia pontual (que aparece uma única vez, de passagem), nem insegurança do pai (ele é coadjuvante passivo), nem raiva da madrasta por indiferença do marido (não há qualquer menção a essa causa) e muito menos carinho a ser resistido (o campo lexical é inteiramente hostil, nunca afetuoso). O que a imagem construída e repetida evidencia, de forma consistente do início ao fim do texto, é o atrito permanente e cotidiano entre o menino-narrador e a esposa do pai — a alternativa E confirma-se como a única sustentada por todas as evidências textuais.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) saudade do menino em relação à sua mãe.
❌ Incorreta: a saudade é citada uma única vez, en passant ("Com a saudade evaporando pelos olhos"), e funciona como pano de fundo emocional do narrador, não como o que a insistência na imagem do tomate evidencia. A repetição do ritual está associada ao ciúme e ao ódio ligados à madrasta, não a uma memória saudosa da mãe ausente — essa alternativa toma um detalhe isolado pelo sentido central do texto.
B) insegurança do pai diante da fome dos filhos.
❌ Incorreta: o pai é retratado como figura enfraquecida e alienada ("amparado pela prateleira", cheirando a álcool), que apenas "reparava" na fome dos filhos sem agir — ele é objeto de observação do narrador, não o sujeito em torno do qual a imagem repetida do tomate se organiza. Não há, no texto, qualquer elaboração sobre insegurança paterna quanto à fome; essa leitura extrapola o que está escrito.
C) raiva da madrasta pela indiferença do marido.
❌ Incorreta: em nenhum momento o texto atribui à madrasta uma raiva motivada pela indiferença do marido. Essa é uma causa inventada, sem respaldo textual — o texto associa o comportamento da madrasta ao ciúme (dela em relação aos filhos, e não ao marido) e a uma hostilidade dirigida às crianças, não a um conflito conjugal entre ela e o pai.
D) resistência das crianças quanto ao carinho da madrasta.
❌ Incorreta: a alternativa pressupõe que a madrasta oferece "carinho" e que as crianças resistem a ele — mas o campo semântico do texto é o oposto: envenenar, degolar, ódio, ciúme. Não há carinho a ser resistido; há hostilidade sentida e nomeada pelo próprio narrador, o que inverte completamente a lógica proposta por essa alternativa.
E) convivência conflituosa entre o menino e a esposa do pai.
✅ Correta: é exatamente isso que a repetição obsessiva da cena do tomate constrói — um retrato cotidiano, sustentado ao longo de todo o texto, do atrito entre o narrador-criança (que se sente "intruso ao amor") e a madrasta (cujo gesto de cortar o tomate é descrito com violência simbólica e associado ao ciúme). A insistência na imagem — o "procedimento estético" citado no comando — é justamente o recurso que transforma um gesto doméstico repetido em evidência de conflito relacional permanente.
🏆 Gabarito: E — a repetição diária da cena do tomate, carregada de vocabulário de violência e explicitamente associada ao ciúme e ao ódio, constrói o retrato de uma convivência tensa e conflituosa entre o narrador-menino e a esposa do pai.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E é sustentada pelo conjunto do texto: o vocabulário de agressão, a explicação causal do ciúme e a autoidentificação do narrador como "intruso ao amor" convergem todos para o mesmo alvo — a relação hostil entre a criança e a madrasta.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos literários em que um objeto ou cena cotidiana (aqui, o tomate) funciona como símbolo condensador de uma relação familiar ou social; a pergunta sempre pede para identificar o que esse símbolo, e não um detalhe secundário, revela sobre o conjunto do texto.
- Generalização: em questões de "procedimento estético" ou "recurso de linguagem evidencia", a resposta correta deve ser sustentada por evidências distribuídas ao longo de todo o texto (repetição, causalidade explícita, campo lexical), nunca por uma única menção isolada.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa cujo sentimento-chave (carinho, indiferença conjugal, insegurança paterna) não tenha nenhuma palavra correspondente no campo lexical do texto — aqui, a ausência total de vocabulário afetivo positivo já elimina a alternativa D em segundos.
- Conexões: compare com outras questões de leitura literária que exploram a relação entre forma (repetição, ritmo, imagem) e conteúdo (sentimento, conflito), e com textos que usam objetos cotidianos como metáfora de relações familiares — recurso comum em prosa memorialística contemporânea, como a de Bartolomeu Campos de Queirós.
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