Mapa de questões · 1º dia
Questão 47 — ENEM 2017 PPL
As primeiras ações acerca do patrimônio histórico no Brasil datam da década de 1930, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 1937. Nesse período, o conceito que norteou a política de patrimônio limitou-se aos monumentos arquitetônicos relacionados ao passado brasileiro e vinculava-se aos ideais modernistas de conhecer, compreender e recriar o Brasil por meio da valorização da tradição.
SANTOS, G. Poder e patrimônio histórico: possibilidades de diálogo entre educação histórica e educação patrimonial no ensino médio. EntreVer, n. 2, jan.-jun. 2012.
Considerando o contexto mencionado, a criação dessa política patrimonial objetivou a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Era Vargas, modernismo brasileiro e políticas de patrimônio (SPHAN)
- ⚡ Nível: Médio — exige articular o contexto histórico dos anos 1930 (Estado Novo, modernismo) com a função política da preservação patrimonial, mesmo que o texto ofereça pistas diretas.
- 🎯 Tema/Habilidade: Formação do patrimônio histórico nacional e construção da identidade brasileira (Competência de Área 5 — ENEM, Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi o objetivo político por trás da criação do SPHAN e da primeira política de patrimônio histórico brasileira, na década de 1930?"
- Palavras-chave decisivas: SPHAN (1937), ideais modernistas, valorização da tradição
- Armadilha típica: confundir o instrumento da política (preservar monumentos arquitetônicos, criar acervos, listar sítios) com o seu objetivo político maior, que é simbólico e não técnico-administrativo.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que preservar o passado arquitetônico, no contexto do Estado Novo e do movimento modernista, era um projeto de construção de uma narrativa unificada sobre "o que é ser brasileiro".
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional): órgão federal criado em 1937, no governo Vargas, para inventariar, tombar e proteger bens considerados representativos da história e da arte nacionais — em grande parte, igrejas, fortes e conjuntos urbanos coloniais e barrocos.
- Modernismo brasileiro e patrimônio: intelectuais como Mário de Andrade (autor do anteprojeto do SPHAN) e Rodrigo Melo Franco de Andrade não buscavam apenas "arte pela arte": queriam redescobrir raízes culturais brasileiras autênticas para construir uma identidade nacional moderna, rompendo com a cópia de modelos europeus.
- Estado Novo (1937-1945) e nacionalismo: o governo Vargas tinha interesse político direto em fortalecer um sentimento de unidade nacional e de brasilidade, e a valorização do patrimônio histórico servia como instrumento simbólico desse projeto — junto com medidas como o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e o incentivo ao futebol e ao samba como símbolos nacionais.
- Conceito seletivo de patrimônio nos anos 1930: o tombamento privilegiava monumentos arquitetônicos ligados à colonização portuguesa e ao catolicismo (igrejas barrocas mineiras, por exemplo), deixando de lado saberes populares, patrimônio indígena e afro-brasileiro — isso só seria ampliado décadas depois, com o conceito de "patrimônio imaterial".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o conceito que norteou a política de patrimônio limitou-se aos monumentos arquitetônicos relacionados ao passado brasileiro" → mostra que a política tinha um recorte físico e histórico específico: valorizar construções que contassem uma versão do passado do país.
- Evidência 2: "vinculava-se aos ideais modernistas de conhecer, compreender e recriar o Brasil por meio da valorização da tradição" → revela a intenção central: usar o passado (tradição) como matéria-prima para "recriar" o Brasil no presente, ou seja, construir um sentido de nação.
- Síntese: o texto liga explicitamente a criação do SPHAN a um projeto de "conhecer, compreender e recriar o Brasil" — linguagem que aponta diretamente para a construção de uma identidade nacional, e não para fins comerciais, museológicos ou arqueológicos isolados.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizar o SPHAN dentro do projeto de Estado do governo Vargas
Nos anos 1930, o Brasil vivia um processo de centralização política sob Getúlio Vargas, que culminaria no Estado Novo (1937). Um dos pilares desse projeto era fabricar um sentimento de unidade nacional em um país marcado por diversidade regional, étnica e cultural. Para isso, o Estado precisava de símbolos concretos que pudessem ser apresentados como "a essência" do Brasil. A criação do SPHAN, em 1937 — mesmo ano da instauração do Estado Novo — não é coincidência: ela integra esse esforço de dar materialidade histórica à ideia de nação.
Subpasso 4.2 — Conectar o modernismo à seleção do que seria "patrimônio"
O texto destaca que a política se vinculava aos "ideais modernistas". Os modernistas de 1922 já discutiam a busca por uma identidade cultural genuinamente brasileira, superando o complexo de imitar a Europa. Ao assumirem cargos públicos (como Mário de Andrade, convidado a elaborar o anteprojeto do SPHAN), esses intelectuais aplicaram essa busca por brasilidade à política de preservação: escolheram tombar igrejas barrocas, fortes e conjuntos urbanos coloniais porque esses bens contavam uma narrativa de formação da nação — não porque fossem tecnicamente os mais "antigos" ou "raros" de forma neutra.
Subpasso 4.3 — Verificação
Toda a lógica do enunciado converge para um único objetivo: usar o patrimônio arquitetônico do passado para "conhecer, compreender e recriar o Brasil" — isto é, para dar aos brasileiros uma imagem coesa de quem eles são enquanto povo e nação. Esse objetivo corresponde exatamente à ideia de afirmação da identidade nacional, confirmando que a resposta caminha para a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) consolidação da historiografia oficial.
❌ Incorreta: a política de patrimônio agia sobre bens materiais (prédios, monumentos), não sobre a produção e o controle de uma versão oficial da escrita da história como disciplina acadêmica. Consolidar uma historiografia oficial seria uma ação sobre livros, currículos e narrativas escritas — o SPHAN atuava sobre pedra e cal, com fins simbólicos mais amplos.
B) definição do mercado cultural.
❌ Incorreta: nos anos 1930 não havia um "mercado cultural" estruturado em torno do patrimônio, e o tombamento tinha caráter protetivo e simbólico-estatal, não comercial. Essa alternativa projeta uma lógica contemporânea (turismo cultural, indústria do patrimônio) sobre um contexto histórico em que o objetivo era político-identitário.
C) afirmação da identidade nacional.
✅ Correta: o próprio texto afirma que a política se ligava a "ideais modernistas de conhecer, compreender e recriar o Brasil por meio da valorização da tradição" — ou seja, usar monumentos do passado para construir e afirmar uma imagem coesa de nação brasileira, alinhada ao projeto nacionalista do Estado Novo.
D) divulgação de sítios arqueológicos.
❌ Incorreta: o enunciado é explícito ao dizer que o conceito de patrimônio "limitou-se aos monumentos arquitetônicos", como igrejas e construções coloniais — sítios arqueológicos (vestígios pré-coloniais, indígenas) não eram o foco dessa primeira política e só ganhariam maior atenção institucional décadas depois.
E) universalização de saberes museológicos.
❌ Incorreta: a museologia trata da gestão de acervos em museus e da difusão de técnicas de conservação e exposição; o SPHAN, por sua vez, tratava da preservação de bens arquitetônicos in situ (edificações, conjuntos urbanos), não da criação de uma rede de museus ou da disseminação de métodos museológicos universais.
🏆 Gabarito: C — a criação do SPHAN, sob influência modernista e no contexto do Estado Novo, tinha como finalidade usar o patrimônio arquitetônico do passado para construir e afirmar uma identidade nacional coesa.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C traduz literalmente a expressão-chave do texto — "conhecer, compreender e recriar o Brasil" —, que é a definição textual de um projeto de identidade nacional.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o tema patrimônio histórico associando-o à construção de identidades (nacional, regional, étnica) e questionando o caráter seletivo e político — nunca neutro — das políticas de tombamento e preservação.
- Generalização: sempre que uma questão de humanas tratar de "patrimônio", "memória" ou "tombamento", desconfie de alternativas técnicas ou administrativas (museus, mercado, arqueologia) e procure a alternativa que fale em identidade, pertencimento ou memória coletiva — geralmente é o cerne da resposta.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que introduzam elementos ausentes do texto-base (como "mercado" em B ou "sítios arqueológicos" em D) — se a palavra-chave da alternativa não aparece nem é sugerida no enunciado, ela costuma ser distrator.
- Conexões: compare com o tema do patrimônio imaterial (Constituição de 1988, art. 216, e o registro de saberes e celebrações populares) e com as políticas culturais do Estado Novo, como o DIP e a valorização do samba e do futebol como símbolos de brasilidade.
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