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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 58ENEM 2017 PPL

TEXTO I

Frantz Fanon publicou pela primeira vez, em 1952, seu estudo sobre colonialismo e racismo, Pele negra, máscaras brancas. Ao dizer que “para o negro, há somente um destino” e que esse destino é branco, Fanon revelou que as aspirações de muitos povos colonizados foram formadas pelo pensamento colonial predominante.

BUCKINGHAM, W. et al. O livro da filosofia. São Paulo: Globo, 2011 (adaptado).

TEXTO II

Mesmo que não queiramos cobrar desses estabelecimentos (salões de beleza) uma eficácia política nos moldes tradicionais da militância, uma vez que são estabelecimentos comerciais e não entidades do movimento negro, o fato é que, ao se autodenominarem “étnicos” e se apregoarem como divulgadores de uma autoimagem positiva do negro em uma sociedade racista, os salões se colocam no cerne de uma luta política e ideológica.

GOMES, N. Corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Disponível em: www.rizoma.ufsc.br. Acesso em: 13 fev. 2013.

Os textos apresentam uma mudança relevante na constituição identitária frente à discriminação racial. No Brasil, o desdobramento dessa mudança revela o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Relações étnico-raciais e movimentos sociais no Brasil
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular dois textos teóricos de épocas diferentes (Fanon e Nilma Lino Gomes) e projetar a síntese sobre o contexto brasileiro contemporâneo
  • 🎯 Tema/Habilidade: Identidade negra, colonialismo e resistência cultural — compreender transformações sociais, culturais e identitárias vividas por grupos étnicos ao longo do tempo
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual foi o desdobramento, no Brasil, da mudança na forma como a identidade negra passou a se constituir diante do racismo, descrita nos dois textos?"
  • Palavras-chave decisivas: mudança relevante, constituição identitária, desdobramento no Brasil
  • Armadilha típica: confundir a expressão "luta política e ideológica" do Texto II com organização político-partidária formal, levando o candidato a marcar a alternativa C por associação apressada entre "político" e "partido"
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de perceber que a superação do modelo identitário branco imposto pelo colonialismo (Texto I) se converteu, no Brasil, em uma valorização positiva de elementos culturais e estéticos próprios do povo negro (Texto II) — e não em uma ação partidária, violenta ou de isolamento social

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Alienação colonial (Frantz Fanon): processo psicossocial pelo qual povos colonizados internalizam os padrões estéticos, culturais e de comportamento do colonizador como superiores, associando "ser aceito" a "tornar-se branco" — isso gera negação da própria identidade e do próprio corpo.
  • Négritude e afirmação identitária: movimento intelectual e cultural (iniciado por autores como Aimé Césaire e Léopold Senghor, e discutido por Fanon) de reconhecimento orgulhoso da cultura, da estética e da história negras como resposta direta ao racismo estrutural herdado da colonização.
  • Corpo e cabelo como símbolos políticos (Nilma Lino Gomes): a estética negra — sobretudo o cabelo crespo — carrega historicamente estigma; ao ressignificá-la, espaços cotidianos como salões "étnicos" tornam-se instrumentos de valorização cultural e de combate simbólico ao racismo, mesmo fora da militância político-partidária tradicional.
  • Resistência cultural cotidiana: diferente da resistência armada ou institucional, essa forma de luta ocorre no dia a dia, por meio de práticas de cuidado com o corpo, moda, música e linguagem, reconstruindo a autoestima e a autoimagem de grupos historicamente discriminados.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "para o negro, há somente um destino, e esse destino é branco" → revela que o colonialismo impôs um único horizonte identitário aceitável — o branco — fazendo com que o negro visse sua própria identidade como algo a ser superado ou escondido.
  • Evidência 2: "ao se autodenominarem 'étnicos' e se apregoarem como divulgadores de uma autoimagem positiva do negro em uma sociedade racista, os salões se colocam no cerne de uma luta política e ideológica" → mostra a inversão histórica desse processo: espaços comerciais cotidianos passam a promover ativamente a valorização da estética e da cultura negras, mesmo sem serem entidades de militância formal.
  • Síntese: os dois textos, lidos em conjunto, narram uma trajetória histórica — da alienação identitária imposta pelo colonialismo (Texto I) à reconstrução de uma autoimagem positiva por meio da valorização de traços culturais e corporais próprios (Texto II). O desdobramento dessa mudança no Brasil, portanto, é a valorização de traços culturais antes estigmatizados.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o eixo comparativo entre os textos

O Texto I é de 1952 e descreve um momento de forte alienação: o colonialismo condicionou povos colonizados a aspirarem à "branquitude" como sinônimo de dignidade e aceitação social, apagando referências culturais próprias. Já o Texto II, de autoria contemporânea, descreve uma realidade brasileira posterior, na qual o corpo negro — em especial o cabelo — deixa de ser motivo de vergonha e passa a ser celebrado como símbolo de identidade.

Subpasso 4.2 — Relacionar a mudança com o contexto histórico e social brasileiro

No Brasil, a partir sobretudo das décadas de 1970-1980, o movimento negro fortaleceu o debate sobre racismo estrutural e estética afro-brasileira. Esse processo se consolidou em políticas públicas (como a Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira) e, no plano cotidiano, em práticas como a popularização de salões especializados em cabelos crespos e cacheados, campanhas de valorização da beleza negra e do "black is beautiful". O Texto II descreve exatamente esse fenômeno: comércios que assumem a bandeira da valorização estética e cultural negra, ainda que não sejam organizações políticas formais.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao comparar essa síntese com as alternativas, apenas uma expressa esse movimento de reconstrução identitária centrado na cultura e na estética: a valorização de traços culturais (alternativa A). As demais alternativas remetem a fenômenos que não aparecem nos textos (violência, partidos políticos) ou a movimentos opostos ao que é descrito (enfraquecimento comunitário, submissão social).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) valorização de traços culturais.

✅ Correta: é exatamente o que o Texto II demonstra — os salões "étnicos" promovem uma autoimagem positiva do negro ao valorizar o cabelo e o corpo como traços culturais, rompendo com a alienação estética descrita por Fanon no Texto I.

B) utilização de resistência violenta.

❌ Incorreta: nenhum dos textos menciona confronto físico ou ação armada. A resistência descrita é simbólica e cultural, expressa por meio da estética e do discurso identitário, não da violência.

C) fortalecimento da organização partidária.

❌ Incorreta: o próprio Texto II descarta essa leitura ao afirmar que os salões "são estabelecimentos comerciais e não entidades do movimento negro", deixando claro que a mudança ocorre fora da esfera político-partidária tradicional.

D) enfraquecimento dos vínculos comunitários.

❌ Incorreta: o movimento descrito produz o efeito oposto — fortalece vínculos comunitários ao criar espaços de identificação coletiva em torno de uma identidade negra positiva e compartilhada.

E) aceitação de estruturas de submissão social.

❌ Incorreta: essa alternativa descreve o cenário do Texto I (a alienação colonial), não o desdobramento no Brasil apontado pelo Texto II, que representa justamente a ruptura com a submissão estética e identitária imposta pelo colonialismo.

🏆 Gabarito: A — os textos mostram a transição da alienação identitária colonial para a afirmação de uma identidade negra positiva no Brasil, e essa afirmação se manifesta concretamente como valorização de traços culturais.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa A é a única que traduz o movimento histórico descrito nos dois textos — da negação da identidade negra (Fanon) à sua reafirmação cultural e estética no Brasil (Gomes).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cruza textos teóricos (frequentemente estrangeiros ou clássicos) com estudos de caso brasileiros para avaliar se o candidato consegue transportar um conceito abstrato — aqui, alienação colonial — para uma realidade concreta e atual do país.
  • Generalização: em questões de identidade e relações étnico-raciais, a resposta correta quase sempre valoriza processos de afirmação cultural, autoestima e pertencimento coletivo, e raramente aponta para violência, isolamento ou submissão — a menos que o próprio enunciado descreva claramente esses cenários.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que mencionem violência (não há menção a conflito físico) e organização partidária (o texto nega explicitamente esse vínculo); entre as restantes, escolha a que representa fortalecimento, não enfraquecimento, da identidade e da comunidade.
  • Conexões: o tema dialoga diretamente com a Lei 10.639/2003 e com discussões sobre ações afirmativas, cotas raciais e o conceito de racismo estrutural, frequentes em outras questões de Sociologia e História do ENEM.

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