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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 41ENEM 2017 PPL

Querido Sr. Clemens,

Sei que o ofendi porque sua carta, não datada de outro dia, mas que parece ter sido escrita em 5 de julho, foi muito abrupta; eu a li e reli com os olhos turvos de lágrimas. Não usarei meu maravilhoso broche de peixe-anjo se o senhor não quiser; devolverei ao senhor, se assim me for pedido…

OATES, J. C. Descanse em paz. São Paulo: Leya, 2008.

Nesse fragmento de carta pessoal, quanto à sequenciação dos eventos, reconhece-se a norma-padrão pelo(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Morfologia verbal (tempos e modos), coesão textual, norma-padrão da língua
  • ⚡ Nível: Médio — exige isolar todos os verbos do trecho, classificar seus tempos/modos e descartar distratores sutis (como confundir substantivo com qualificador)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Emprego dos tempos e modos verbais como mecanismo de coesão temporal em gêneros textuais (carta pessoal); reconhecimento dos usos da norma-padrão
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual recurso linguístico da carta, de acordo com a norma-padrão, organiza corretamente a ordem cronológica dos fatos narrados?"
  • Palavras-chave decisivas: sequenciação dos eventos, norma-padrão, reconhece-se
  • Armadilha típica: confundir recursos estilísticos (adjetivação, escolha de vocabulário, negação) com o recurso gramatical que de fato organiza a linha do tempo do texto; ou aceitar exemplos mal formulados, como tratar um substantivo ("peixe-anjo") como se fosse um qualificador.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar, entre os cinco recursos apontados, qual deles é responsável por marcar, com precisão gramatical, o que já aconteceu e o que ainda vai acontecer na narrativa da carta.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Correlação verbo-temporal (consecutio temporum): regra da norma-padrão que exige coerência entre os tempos e modos verbais usados num mesmo texto, para marcar corretamente relações de anterioridade, simultaneidade e posterioridade entre os fatos narrados.
  • Pretérito perfeito do indicativo: expressa ação já concluída no passado (ex.: "ofendi", "foi", "li e reli").
  • Futuro do presente do indicativo: expressa ação vindoura, ainda não realizada no momento da fala (ex.: "usarei", "devolverei").
  • Futuro do subjuntivo: modo/tempo usado em orações condicionais iniciadas por "se", indicando hipótese a se realizar no futuro (ex.: "quiser", "for pedido"); combina-se com o futuro do indicativo na oração principal, formando um padrão de norma-padrão bem definido.
  • Colocação pronominal (próclise/ênclise) e qualificadores (adjetivos): são recursos gramaticais legítimos, mas regem, respectivamente, a posição do pronome átono e a caracterização de substantivos — não a organização temporal dos eventos.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Sei que o ofendi... foi muito abrupta; eu a li e reli com os olhos turvos de lágrimas" → todos os verbos estão no pretérito perfeito do indicativo, marcando fatos já concluídos, anteriores ao momento em que a remetente escreve a resposta.
  • Evidência 2: "Não usarei meu maravilhoso broche de peixe-anjo se o senhor não quiser; devolverei ao senhor, se assim me for pedido" → os verbos "usarei" e "devolverei" (futuro do presente) combinam-se corretamente com "quiser" e "for pedido" (futuro do subjuntivo), indicando ações condicionadas que só ocorrerão dependendo de uma decisão futura do destinatário.
  • Síntese: o texto avança em dois blocos temporais nítidos — passado concluído (o que já causou a mágoa) e futuro condicional (o que a remetente fará ou deixará de fazer) — e essa organização só fica clara porque os tempos verbais foram empregados com exatidão, conforme a norma-padrão. É exatamente essa correlação que a alternativa C descreve como "emprego adequado dos tempos verbais".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar e classificar todos os verbos do trecho

Levantando cada verbo conjugado do fragmento: "ofendi" (pretérito perfeito), "foi" (pretérito perfeito), "li e reli" (pretérito perfeito), "usarei" (futuro do presente), "quiser" (futuro do subjuntivo), "devolverei" (futuro do presente), "for pedido" (futuro do subjuntivo, em voz passiva). Note que não há mistura indevida de tempos: cada verbo aparece exatamente na forma que a norma-padrão prevê para o valor temporal que carrega.

Subpasso 4.2 — Verificar a coerência da correlação verbal (consecutio temporum)

A norma-padrão exige que, ao relacionar um fato passado com um fato futuro condicionado a ele, o falante mantenha a correlação correta entre os tempos e modos verbais. Aqui isso acontece de forma exemplar: os fatos já ocorridos (a ofensa, a carta abrupta, a leitura em lágrimas) vêm no pretérito perfeito; as ações que dependem de uma resposta do destinatário vêm no futuro do presente amarrado ao futuro do subjuntivo ("se... quiser", "se... for pedido"). É a estrutura que a gramática normativa prescreve para condicionais com valor de futuro — trocar "quiser" por "quer", por exemplo, quebraria a norma-padrão.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando esse padrão verbal com os demais recursos citados nas alternativas (posição de pronome, negação, escolha lexical, adjetivação), só o emprego dos tempos verbais organiza cronologicamente os eventos narrados — os demais atuam em outras camadas do texto (ênfase, estilo, caracterização), sem relação direta com a "sequenciação dos eventos" pedida no comando.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) colocação pronominal em próclise.

❌ Incorreta: há, de fato, um caso de próclise em "eu a li e reli", motivado pelo pronome reto "eu" que atrai o pronome átono para antes do verbo. Mas essa é uma regra de posição do pronome em relação ao verbo, sem qualquer papel na organização temporal dos fatos — e o fenômeno não é recorrente no trecho, aparecendo uma única vez.

B) uso recorrente de marcas de negação.

❌ Incorreta: a carta contém negativas ("não datada", "não usarei", "se... não quiser"), mas a negação nega ou condiciona uma ação; ela não estabelece, por si só, a ordem cronológica dos eventos. O mesmo conteúdo poderia ser reescrito de forma afirmativa e manteria exatamente a mesma sequência temporal dos fatos.

C) emprego adequado dos tempos verbais.

✅ Correta: é a alternância precisa entre o pretérito perfeito (fatos já ocorridos: ofendi, foi, li, reli) e o futuro do presente combinado ao futuro do subjuntivo (fatos vindouros e condicionados: usarei/quiser, devolverei/for pedido) que deixa clara, segundo a norma-padrão, a linha do tempo da narrativa — o que já aconteceu e o que ainda está por acontecer. Essa correlação verbal é exatamente a "sequenciação dos eventos" mencionada no comando.

D) preferência por arcaísmos, como "abrupta" e "turvo".

❌ Incorreta: nem "abrupta" nem "turvos" são arcaísmos — são adjetivos de uso plenamente corrente na língua portuguesa contemporânea, sem qualquer marca de vocabulário ultrapassado ou em desuso.

E) presença de qualificadores, como "maravilhoso" e "peixe-anjo".

❌ Incorreta: "maravilhoso" é, de fato, um adjetivo que qualifica o substantivo "broche". Porém "peixe-anjo" não é um qualificador — é o próprio substantivo composto (nome do peixe ornamental) que está sendo qualificado por "maravilhoso". O exemplo está conceitualmente equivocado, o que invalida toda a alternativa.

🏆 Gabarito: C — o emprego adequado dos tempos e modos verbais (pretérito perfeito para o passado; futuro do presente e futuro do subjuntivo para o futuro condicional) é o recurso que, segundo a norma-padrão, organiza com precisão a sequência cronológica dos eventos narrados na carta.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C aponta um mecanismo gramatical que efetivamente organiza a ordem cronológica dos acontecimentos narrados, em conformidade com a norma-padrão; as demais alternativas ou descrevem recursos estilísticos sem relação com sequenciação temporal, ou trazem exemplos mal formulados.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o reconhecimento da função coesiva dos tempos verbais (consecutio temporum) em textos narrativos, memorialísticos e epistolares, pedindo que o candidato diferencie o que é regra de norma-padrão do que é apenas efeito estilístico (adjetivação, arcaísmo, negação, colocação pronominal).
  • Generalização: sempre que uma questão perguntar sobre "sequenciação", "organização temporal" ou "ordem dos fatos" num texto, a resposta tende a estar nos verbos — são o tempo, o modo e o aspecto verbal que "ordenam a linha do tempo" de um texto.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que descrevem recursos puramente estilísticos (adjetivos, arcaísmos, negação, posição de pronome) quando o comando fala especificamente em "sequenciação de eventos" — esse enunciado quase sempre aponta para os verbos; em seguida, confira se os exemplos citados na alternativa restante fazem sentido gramatical (como o erro de tratar "peixe-anjo" como qualificador em E).
  • Conexões: correlação verbal (consecutio temporum) em orações condicionais com "se"; coesão textual por meio de conectores e marcadores temporais; diferença entre norma-padrão e variação estilística em gêneros textuais como a carta pessoal.

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