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Mapa de questões · 2º dia
NaturezaBiologiaDifícil

Questão 117ENEM 2017Caderno azul · 2º Dia

A distrofia muscular Duchenne (DMD) é uma doença causada por uma mutação em um gene localizado no cromossomo X. Pesquisadores estudaram uma família na qual gêmeas monozigóticas eram portadoras de um alelo mutante recessivo para esse gene (heterozigóticas). O interessante é que uma das gêmeas apresentava o fenótipo relacionado ao alelo mutante, isto é, DMD, enquanto a sua irmã apresentava fenótipo normal.

RICHARDS, C. S. et al. The American Journal of Human Genetics, n. 4, 1990 (adaptado).

A diferença na manifestação da DMD entre as gêmeas pode ser explicada pela

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Genética (herança ligada ao X e inativação do cromossomo X)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige conhecer um mecanismo epigenético pouco intuitivo (inativação do X) e descartar armadilhas genéticas clássicas
  • 🎯 Tema/Habilidade: Herança ligada ao sexo e compensação de dose gênica (hipótese de Lyon) — interpretar fenômeno biológico a partir de dado experimental
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Duas gêmeas idênticas, com o mesmo genótipo heterozigoto para DMD, têm fenótipos diferentes — qual mecanismo explica isso?"
  • Palavras-chave decisivas: monozigóticas, heterozigóticas (mesmo genótipo), fenótipos diferentes
  • Armadilha típica: explicar a diferença por mecanismo genético "clássico" (dominância, não disjunção, recombinação) quando o problema exige um evento pós-zigótico e independente entre as duas irmãs
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a diferença fenotípica não vem do genótipo (idêntico nas duas), mas de um evento celular ocorrido depois da separação dos embriões

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Distrofia Muscular de Duchenne (DMD): doença recessiva ligada ao X, causada por mutação no gene da distrofina. Homens hemizigotos (X^d Y) sempre manifestam a doença; mulheres precisam ser X^d X^d para manifestá-la classicamente.
  • Gêmeos monozigóticos: originam-se de um único zigoto que se divide em dois embriões geneticamente idênticos. Diferença fenotípica entre eles não pode vir do genótipo — precisa ser epigenética ou ambiental.
  • Hipótese de Lyon (inativação do X): em toda célula XX de mamífero, ainda no início do desenvolvimento embrionário, um dos dois cromossomos X é inativado ao acaso (forma o corpúsculo de Barr), para equalizar a expressão gênica com machos XY. Essa escolha é feita célula a célula e é clonal: a célula-filha herda o mesmo X inativado da célula-mãe.
  • Mosaicismo funcional: toda fêmea heterozigota é, na prática, um mosaico de dois tipos celulares (X paterno ativo / X materno ativo). Se a proporção for muito desigual num tecido crítico, o fenótipo recessivo pode se manifestar mesmo em heterozigose.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "gêmeas monozigóticas... portadoras... (heterozigóticas)" → confirma genótipo idêntico (X^D X^d) nas duas irmãs; a causa não está no DNA herdado.
  • Evidência 2: "uma... apresentava DMD, enquanto a sua irmã apresentava fenótipo normal" → diferença fenotípica entre indivíduos geneticamente idênticos — assinatura clássica de evento epigenético pós-zigótico.
  • Síntese: como o genótipo é o mesmo, a resposta certa precisa ser um evento que ocorre depois da formação do zigoto e que age de forma independente em cada embrião após a separação — exatamente o perfil da inativação aleatória do X.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Estabelecer o genótipo comum às duas gêmeas

Sendo monozigóticas, as duas irmãs herdaram do mesmo zigoto o par de cromossomos X: um normal (X^D) e um com o alelo mutante da distrofina (X^d). Genotipicamente, ambas são X^D X^d — idênticas. Isso já elimina qualquer alternativa que dependa de diferença no DNA herdado, pois vieram do mesmo óvulo fecundado.

Subpasso 4.2 — Aplicar o mecanismo de inativação do X

Em toda célula somática XX, ainda na fase inicial de blástula, ocorre a inativação aleatória de um dos dois X em cada célula (lionização), padrão depois mantido por mitose em todas as células-filhas. Como a separação em gêmeos monozigóticos também ocorre nessa fase inicial, esse evento pode acontecer depois da divisão que gera os dois embriões — ou seja, cada gêmea passa, de modo independente, pelo seu próprio "sorteio" celular. Por acaso, uma delas pode acumular predomínio do X^d ativo no tecido muscular (manifestando DMD), enquanto a outra acumula predomínio do X^D ativo (permanecendo normal).

Subpasso 4.3 — Verificação

Esse mecanismo — inativação aleatória e assimétrica do X ("skewed X-inactivation") — é o fenômeno relatado no estudo citado (Richards et al., 1990) para explicar a discordância de DMD entre gêmeas monozigóticas heterozigotas. Ele preserva o genótipo idêntico, ocorre após a separação embrionária e explica proporções diferentes de expressão do alelo mutante em cada gêmea: corresponde exatamente à alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) dominância incompleta do alelo mutante em relação ao alelo normal.

❌ Incorreta: dominância incompleta geraria fenótipo intermediário e constante em todo heterozigoto. Como as gêmeas têm o mesmo genótipo, esse mecanismo previa que as duas manifestassem o mesmo grau intermediário — não explica uma ter DMD plena e a outra ser normal.

B) falha na separação dos cromossomos X no momento da separação dos dois embriões.

❌ Incorreta: essa "falha" descreve não disjunção cromossômica, que altera o número de cromossomos (gerando aneuploidias como X0 ou XXY). O enunciado não menciona alteração cariotípica; ambas as gêmeas são XX normais, apenas com expressão diferente do mesmo genótipo.

C) recombinação cromossômica em uma divisão celular embrionária anterior à separação dos dois embriões.

❌ Incorreta: se a recombinação ocorresse antes da divisão que originou os embriões, o novo arranjo estaria na célula-tronco comum às duas, e ambas herdariam o mesmo resultado — não geraria diferença entre elas.

D) inativação aleatória de um dos cromossomos X em fase posterior à divisão que resulta nos dois embriões.

✅ Correta: por ocorrer depois da formação dos dois embriões, o processo é independente e aleatório em cada gêmea. O padrão de inativação pode variar muito por acaso entre elas, explicando fenótipos opostos em irmãs geneticamente idênticas.

E) origem paterna do cromossomo portador do alelo mutante em uma das gêmeas e origem materna na outra.

❌ Incorreta: impossível em gêmeas monozigóticas, pois se originam de um único zigoto (um espermatozoide e um óvulo) que depois se divide. Os cromossomos X de origem paterna e materna são os mesmos e têm a mesma origem parental nas duas irmãs.

🏆 Gabarito: D — a única explicação compatível com genótipos idênticos e fenótipos distintos é um evento epigenético pós-zigótico e independente em cada embrião: a inativação aleatória do cromossomo X.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: com DNA idêntico entre as gêmeas, só um mecanismo pós-zigótico e variável entre embriões explica a discordância fenotípica — a inativação aleatória do X, descrita na alternativa D.
  • Padrão de cobrança: o ENEM associa herança ligada ao X (hemofilia, daltonismo, DMD) a casos reais ou "curiosos" (gêmeos discordantes, mulheres afetadas) para forçar o aluno a ir além da genética mendeliana básica.
  • Generalização: sempre que dois indivíduos de genótipo comprovadamente idêntico (gêmeos monozigóticos, clones) tiverem fenótipos diferentes, a explicação está em fatores epigenéticos (inativação do X, metilação, imprinting) ou ambientais — nunca no DNA herdado.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que impliquem alteração do número de cromossomos (B) ou de origem parental diferente (E) — gêmeos monozigóticos vêm do mesmo zigoto, então cariótipo e origem parental são necessariamente idênticos entre eles.
  • Conexões: compare com o mosaicismo de pelagem em gatas calicó (também por inativação aleatória do X) e com os princípios gerais de epigenética (metilação do DNA, imprinting genômico).

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