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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 7ENEM 2020 Digital

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,

Em meus versos teu nome celebrado,

Por que vejas uma hora despertado

O sono vil do esquecimento frio:

Não vês nas tuas margens o sombrio,

Fresco assento de um álamo copado;

Não vês ninfa cantar, pastar o gado

Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as pálidas areias

Nas porções do riquíssimo tesouro

O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planeta louro

Enriquecendo o influxo em tuas veias,

Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

COSTA, C. M. Obras poéticas de Glauceste Satúrnio.

Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 out. 2015.

A concepção árcade de Cláudio Manuel da Costa registra sinais de seu contexto histórico, refletidos no soneto por um eu lírico que

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Arcadismo brasileiro; Cláudio Manuel da Costa; Minas Gerais e o ciclo do ouro
  • ⚡ Nível: Difícil — o soneto inverte as convenções árcades, e a alternativa mais "escolar" é justamente a armadilha
  • 🎯 Tema/Habilidade: Relacionar as marcas de um texto literário ao seu contexto histórico de produção
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que postura o eu lírico assume diante do rio, e o que isso revela do contexto histórico das Minas do ouro?"
  • Palavras-chave decisivas: O sono vil do esquecimento frio, Não vês nas tuas margens o sombrio, Não vês ninfa cantar, pastar o gado, Turvo banhando as pálidas areias, O vasto campo da ambição recreias, brota em ouro
  • Armadilha típica: ler o primeiro verso como pedido de glória literária para o poeta, quando quem é celebrado é o nome do RIO
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o eu lírico lamenta a degradação do rio pela cobiça do ouro e pelo esquecimento a que foi relegado

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Arcadismo: movimento setecentista que valoriza a natureza idealizada, a vida pastoril simples e o equilíbrio racional; Cláudio Manuel da Costa adota o pseudônimo Glauceste Satúrnio.
  • Convenção bucólica: presença de ninfas, pastores, rebanhos e sombra de árvores — repertório que o soneto invoca justamente para NEGAR.
  • Ciclo do ouro: exploração aurífera nas Minas Gerais do século XVIII, que transformou rios em áreas de mineração e turvou suas águas.
  • Planeta louro: o Sol, cujos raios, na imagem final, "fecundam" a terra que produz ouro em vez de vida.
  • Antítese entre paisagem ideal e paisagem real: tensão central do soneto, marca do Arcadismo brasileiro em contexto colonial.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Leia a posteridade, ó pátrio Rio, / Em meus versos teu nome celebrado, / Por que vejas uma hora despertado / O sono vil do esquecimento frio" → o eu lírico escreve para tirar o rio do esquecimento; o objeto da celebração é o rio, não o poeta.
  • Evidência 2: "Não vês nas tuas margens o sombrio, / Fresco assento de um álamo copado; / Não vês ninfa cantar, pastar o gado" → a repetição de "não vês" nega, uma a uma, as imagens bucólicas esperadas: o rio está privado da natureza idealizada.
  • Evidência 3: "Turvo banhando as pálidas areias / Nas porções do riquíssimo tesouro / O vasto campo da ambição recreias" → o rio corre turvo por causa da mineração, e serve de palco à ambição pelo ouro.
  • Evidência 4: "Quanto em chamas fecunda, brota em ouro" → o que a terra produz não é vida, mas metal, fechando a inversão da fertilidade natural.
  • Síntese: o soneto contrapõe a paisagem bucólica que não existe à realidade de um rio turvado pela cobiça e esquecido pelos homens — e o eu lírico lamenta ambas as coisas.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Ver o que os quartetos negam

O Arcadismo europeu descreveria margens sombreadas, álamos, ninfas cantando e gado pastando. Cláudio Manuel da Costa convoca exatamente esse repertório, mas sob negação: "Não vês... Não vês...". A paisagem ideal é evocada para se constatar sua ausência. O rio das Minas não é o rio da poesia clássica.

Subpasso 4.2 — Ver o que os tercetos afirmam

No lugar da natureza idealizada, aparece o que de fato existe: águas turvas, areias pálidas, "porções do riquíssimo tesouro" e o "vasto campo da ambição". A mineração revolveu o leito e sujou as águas; o rio virou cenário da cobiça pelo ouro. O verso final consolida a inversão: sob o sol, a terra "brota em ouro" — produz metal, não vegetação.

Subpasso 4.3 — Somar com a abertura

O primeiro quarteto já havia dado a outra metade do lamento: o rio dorme "o sono vil do esquecimento frio", e é para despertá-lo que o poeta escreve. Temos, portanto, dois males: a cobiça, que degrada o rio, e a indiferença, que o apaga da memória. É exatamente o que enuncia a alternativa C — lamentar os efeitos da cobiça e da indiferença. Confirmada.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) busca o seu reconhecimento literário entre as gerações futuras.

❌ Incorreta: é a leitura mais tentadora, mas troca o objeto. Em "Leia a posteridade, ó pátrio Rio, / Em meus versos teu nome celebrado", o nome celebrado é o do rio, e a posteridade é convocada para lembrar dele, não para consagrar o poeta.

B) contempla com sentimento de cumplicidade a natureza e o pastoreio.

❌ Incorreta: inverte o sentido dos quartetos. As imagens de natureza e pastoreio aparecem sob negação — "não vês ninfa cantar, pastar o gado" —, justamente para marcar que elas não existem naquela paisagem.

C) lamenta os efeitos produzidos pelos atos de cobiça e pela indiferença.

✅ Correta: o soneto mostra o rio correndo "turvo" e servindo de "vasto campo da ambição" pelo "riquíssimo tesouro" — efeito da cobiça pelo ouro nas Minas do século XVIII. E abre justamente pedindo que a posteridade desperte o rio do "sono vil do esquecimento frio", isto é, da indiferença a que foi relegado.

D) encontra na simplicidade das imagens a expressão do equilíbrio e da razão.

❌ Incorreta: descreve o ideal árcade genérico, mas não este poema. Aqui não há equilíbrio: há tensão entre a paisagem idealizada ausente e a realidade degradada presente, resolvida em lamento.

E) recorre a elementos mitológicos da cultura clássica como símbolos da terra.

❌ Incorreta: a ninfa é o único elemento mitológico, e aparece negada ("não vês ninfa cantar"). Ela não simboliza a terra — assinala o que falta à paisagem, sendo recurso da negação, não da representação.

🏆 Gabarito: C — O soneto nega as imagens bucólicas, mostra o rio turvado pela mineração e convertido em campo da ambição, e pede que a posteridade o desperte do esquecimento: um lamento pela cobiça e pela indiferença.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que reúne os dois males apontados no poema; A troca quem é celebrado, B e E leem como afirmação o que está sob negação e D descreve o Arcadismo em tese, não este texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra o Arcadismo brasileiro pela tensão entre convenção europeia e realidade colonial mineira, sobretudo no contexto do ciclo do ouro.
  • Generalização: quando um poema repete "não vês", "não há", "já não", sublinhe: o autor está evocando um repertório para negá-lo. Ler essas imagens como presentes é o erro mais comum.
  • Dica de eliminação rápida: identifique o vocativo. "Ó pátrio Rio" mostra que o interlocutor e o objeto da celebração é o rio — o que derruba de imediato a alternativa sobre a glória do poeta.
  • Conexões: Arcadismo e Inconfidência Mineira; ciclo do ouro e impacto ambiental; convenções bucólicas e sua ruptura no Brasil colonial.

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