Mapa de questões · 1º dia
Questão 32 — ENEM 2020 Digital
Caso pluvioso
A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
E eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
Matinal e noturna, ativa... Nossa!
ANDRADE, C. D. Viola de bolso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952 (fragmento).
Considerando-se a exploração das palavras “maria” e “chuvosíssima” no poema, conclui-se que tal recurso expressivo é um(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Poesia de Carlos Drummond de Andrade; criação lexical; função poética
- ⚡ Nível: Médio — as alternativas exploram a confusão entre criação literária e variação linguística
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer a criação lexical como recurso expressivo da linguagem literária
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que tipo de recurso são 'maria' escrito em minúscula e o adjetivo 'chuvosíssima'?"
- Palavras-chave decisivas: descobri que maria é que chovia, A chuva era maria, cada pingo de maria, maria, chuvosíssima criatura!, Ela chovia em mim
- Armadilha típica: classificar como marca de oralidade, regionalismo ou informalidade — categorias da variação linguística, não da criação literária
- O que a resposta precisa demonstrar: que o poeta cria usos novos para as palavras, e que essa invenção singulariza o texto literário
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Neologismo semântico: atribuição de sentido novo a palavra existente; aqui, "maria" deixa de ser apenas nome próprio e passa a funcionar como substância — a própria chuva.
- Grau superlativo absoluto sintético: formação em "-íssimo"; "chuvosíssima" aplica a uma pessoa um adjetivo próprio de fenômeno meteorológico.
- Função poética: foco na elaboração da mensagem, que chama atenção para a forma da linguagem.
- Metáfora sustentada: a identificação entre a mulher e a chuva atravessa todo o poema, organizando suas imagens.
- Variação linguística x criação literária: a primeira é fenômeno coletivo e espontâneo da língua; a segunda é invenção individual e deliberada do autor.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "descobri que maria é que chovia" → o nome próprio, grafado em minúscula, deixa de designar uma pessoa e passa a nomear o fenômeno; a mulher vira a chuva.
- Evidência 2: "E cada pingo / de maria ensopava o meu domingo" → "maria" é tratada como substância contável em pingos, uso inexistente na língua corrente.
- Evidência 3: "maria, chuvosíssima criatura!" → o adjetivo "chuvoso", que qualifica dias e climas, é levado ao superlativo e atribuído a uma pessoa.
- Evidência 4: "Ela chovia em mim, em cada gesto, / pensamento, desejo, sono, e o resto" → o verbo "chover", impessoal na língua comum, ganha sujeito humano.
- Síntese: o poeta reinventa o funcionamento das palavras — nome próprio vira substância, adjetivo meteorológico vira qualidade de pessoa, verbo impessoal ganha sujeito.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Descrever com precisão o que foi feito com "maria"
Na língua corrente, Maria é nome próprio, escrito com inicial maiúscula e sem plural nem partitivo. No poema, aparece em minúscula e em construções impossíveis fora dali: "maria é que chovia", "cada pingo de maria". O nome passa a funcionar como substantivo comum, designando a matéria da chuva. Isso é criação, não uso corrente.
Subpasso 4.2 — Descrever o que foi feito com "chuvosíssima"
"Chuvoso" qualifica tempo, dia, estação. Drummond o aplica a uma "criatura" e ainda o intensifica no superlativo. O resultado — "chuvosíssima criatura" — condensa em uma palavra toda a metáfora do poema: a mulher não apenas traz chuva, ela é chuva em grau máximo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Nenhum dos dois usos pertence ao português falado por qualquer comunidade: não são regionalismos, não vêm da oralidade e não são informalidade. São invenções do poeta, que existem naquele texto e produzem seu efeito estético. Trata-se de inovação lexical que singulariza a linguagem literária. Alternativa C confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) registro social típico de variedades regionais.
❌ Incorreta: não há marca regional alguma. "Maria" como substância e "chuvosíssima" aplicada a pessoa não pertencem ao falar de nenhuma região — são construções criadas pelo poeta.
B) variante particular presente na oralidade.
❌ Incorreta: esses usos não ocorrem na fala espontânea. Ninguém diz "cada pingo de maria" fora do poema; a construção é escrita, deliberada e literária.
C) inovação lexical singularizante da linguagem literária.
✅ Correta: o poeta cria usos inexistentes na língua corrente — grafa "maria" em minúscula e a converte em substância que cai em pingos, e forma "chuvosíssima" para qualificar uma pessoa. Essas invenções não pertencem ao português comum: existem para produzir o efeito estético do poema, o que caracteriza a inovação lexical própria da literatura.
D) marca de informalidade característica do texto literário.
❌ Incorreta: dois erros. Os usos não são informais, e sim inventivos; e a informalidade não é característica definidora do texto literário, que pode ser tanto formal quanto coloquial.
E) traço linguístico exclusivo da linguagem poética.
❌ Incorreta: a criação lexical não é exclusividade da poesia — ocorre na prosa literária, na publicidade, no humor e até na fala cotidiana. O termo "exclusivo" torna a alternativa falsa, ainda que ela se aproxime do fenômeno.
🏆 Gabarito: C — Ao grafar "maria" em minúscula, convertê-la em substância que cai em pingos e criar "chuvosíssima" para uma pessoa, Drummond inventa usos que não existem na língua corrente e singularizam o texto literário.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que identifica criação deliberada; A e B remetem à variação linguística, D confunde invenção com informalidade e E erra ao afirmar exclusividade.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra neologismos e criação lexical em Drummond, Guimarães Rosa e Manoel de Barros, sempre pedindo que se distinga invenção literária de variação linguística.
- Generalização: pergunte se o uso existe fora do texto. Se existir em alguma comunidade de fala, é variação; se só existe ali, é criação literária.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas com "exclusivo", "único" ou "sempre" — o ENEM costuma usá-las para invalidar opções quase certas.
- Conexões: neologismo e função poética; Drummond e a linguagem do cotidiano; metáfora sustentada.
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