Mapa de questões · 1º dia
Questão 60 — ENEM 2020 Digital
Em A morte de Ivan Ilitch, Tolstoi descreve com detalhes repulsivos o terror de encarar a morte iminente. Ilitch adoece depois de um pequeno acidente e logo compreende que se encaminha para o fim de modo impossível de parar. “Nas profundezas de seu coração, ele sabia estar morrendo, mas em vez de se acostumar com a ideia, simplesmente não o fazia e não conseguia compreendê-la”.
KAZEZ, J. O peso das coisas: filosofia para o bem-viver. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2004.
O texto descreve a experiência do personagem de Tolstoi diante de um aspecto incontornável de nossas vidas. Esse aspecto foi um tema central na tradição filosófica:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → tradições filosóficas contemporâneas (existencialismo)
- ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar tradições filosóficas próximas em vocabulário, mas distintas em objeto de estudo
- 🎯 Tema/Habilidade: A finitude humana e a consciência da morte como fundamento da existência (competência de área: reconhecer o papel das tradições filosóficas na compreensão da experiência humana)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Identifique a tradição filosófica que tem a morte/finitude como tema central de sua reflexão, a partir do relato de Ivan Ilitch diante da morte iminente."
- Palavras-chave decisivas: morte iminente, aspecto incontornável de nossas vidas, tradição filosófica
- Armadilha típica: associar "morte" a qualquer corrente que trate de "condição humana" de modo genérico, ou se distrair com termos técnicos das alternativas (materialismo histórico, racionalidade das ações, fluidez das relações) que soam filosóficos mas não tratam da finitude como problema central
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que o enfrentamento da morte, da angústia e da busca por autenticidade diante do fim é o núcleo de uma tradição específica — o existencialismo — e não de qualquer escola de pensamento
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Existencialismo: corrente filosófica dos séculos XIX-XX (Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Camus) que coloca a existência concreta do indivíduo — sua liberdade, angústia, finitude e busca de sentido — no centro da reflexão filosófica, em oposição a sistemas abstratos e essencialistas.
- Ser-para-a-morte (Heidegger): conceito segundo o qual a consciência autêntica da própria finitude é o que revela ao indivíduo o sentido genuíno de sua existência, arrancando-o da vida inautêntica e impessoal do cotidiano.
- Materialismo histórico (marxismo): analisa a sociedade a partir das relações de produção e da luta de classes; seu foco é a estrutura econômico-social, não a experiência subjetiva da morte.
- Racionalidade das ações (utilitarismo): ética que avalia atos pelo critério de maximização de utilidade/felicidade coletiva; não tem a finitude individual como problema central.
- Pós-modernismo: questiona grandes narrativas e valoriza a fluidez, a instabilidade das identidades e relações sociais contemporâneas; tema distinto da angústia existencial diante da morte.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "descreve com detalhes repulsivos o terror de encarar a morte iminente" → o texto coloca a morte, e não outro tema social ou lógico, como experiência central do personagem
- Evidência 2: "nas profundezas de seu coração, ele sabia estar morrendo, mas [...] não conseguia compreendê-la" → revela o abismo entre saber racionalmente da própria finitude e vivenciá-la de modo autêntico — exatamente o problema que Heidegger descreve como a dificuldade humana de assumir o "ser-para-a-morte" e que Kierkegaard e Sartre tratam como angústia existencial
- Síntese: o relato de Tolstoi é, inclusive, citado na tradição filosófica como exemplo paradigmático da experiência da finitude que obriga o indivíduo a um confronto consigo mesmo — esse é o núcleo do existencialismo, não de qualquer outra corrente listada
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o problema filosófico do texto
O trecho de Kazez sobre "A morte de Ivan Ilitch" descreve o momento em que um homem comum, que viveu de forma automática e superficial, é obrigado pela doença a encarar sua própria finitude. O texto não fala de economia, de lógica formal, de cálculo de utilidade ou de relações sociais líquidas — fala da experiência íntima e angustiante de reconhecer que a morte é certa e, ainda assim, "não conseguir compreendê-la". Esse é o núcleo do problema: a dificuldade humana de assimilar a própria finitude.
Subpasso 4.2 — Associar o problema à tradição filosófica correta
A morte como limite intransponível da existência é justamente o tema fundador do existencialismo. Kierkegaard já tratava da angústia (Angst) como a experiência que confronta o indivíduo com sua liberdade e finitude. Heidegger, em "Ser e Tempo", desenvolve o conceito de "ser-para-a-morte" (Sein-zum-Tode) e usa exatamente Ivan Ilitch como exemplo de alguém que vivia de modo impessoal ("das Man") até que a morte o forçasse a um reconhecimento autêntico de si mesmo. Sartre e Camus, por sua vez, discutem como a consciência da finitude e do absurdo obriga o sujeito a assumir sua própria existência com responsabilidade. Portanto, o "reconhecimento de si" diante da morte é tema estrutural do existencialismo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as alternativas: nenhuma outra tradição citada (materialismo histórico, logicismo, utilitarismo, pós-modernismo) tem a morte individual e a angústia existencial como eixo central de sua reflexão. Apenas a alternativa E enuncia corretamente "existencialista, na questão do reconhecimento de si" — compatível com o conteúdo do texto e com a história da filosofia. O resultado converge integralmente para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) marxista, no contexto do materialismo histórico.
❌ Incorreta: o materialismo histórico marxista analisa a sociedade a partir dos modos de produção, das relações econômicas e da luta de classes. Seu objeto é a estrutura social e material, não a vivência subjetiva e individual da finitude — o texto de Tolstoi não trata de nenhuma dessas categorias.
B) logicista, no propósito de entendimento dos fatos.
❌ Incorreta: o logicismo é uma corrente voltada à fundamentação da matemática e da lógica formal (ex.: Frege, Russell), preocupada com a estrutura racional dos enunciados e não com experiências existenciais como o medo da morte.
C) utilitarista, no sentido da racionalidade das ações.
❌ Incorreta: o utilitarismo (Bentham, Mill) é uma teoria ética normativa que julga ações pela maximização do bem-estar coletivo. Ivan Ilitch não está calculando consequências de atos — está vivendo uma crise interior diante da finitude, tema estranho ao utilitarismo.
D) pós-modernista, na discussão da fluidez das relações.
❌ Incorreta: o pós-modernismo discute a instabilidade das identidades, das narrativas e das relações sociais na contemporaneidade (ex.: Bauman, Lyotard). Embora trate da condição humana, seu foco não é a morte, mas a fragmentação cultural e social do sujeito líquido.
E) existencialista, na questão do reconhecimento de si.
✅ Correta: o existencialismo tem na consciência da finitude — e no confronto que ela impõe ao indivíduo consigo mesmo — um de seus temas fundadores. A obra de Tolstoi é, inclusive, referência clássica usada por Heidegger para ilustrar como a proximidade da morte arranca o sujeito da vida inautêntica e o leva ao reconhecimento de sua própria existência.
🏆 Gabarito: E — o texto retrata a angústia diante da morte iminente e a dificuldade de reconhecê-la plenamente, problema que constitui o núcleo da reflexão existencialista sobre a finitude e a busca de autenticidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas o existencialismo, entre as tradições listadas, tem a finitude e o autoconhecimento diante da morte como problema filosófico central — por isso E é a única alternativa compatível com o texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer um trecho literário ou biográfico (aqui, Tolstoi) e pedir que o candidato identifique a corrente filosófica cujo vocabulário conceitual explica a experiência narrada — sem citar nomes de filósofos, testando a compreensão dos temas, não a memorização de datas.
- Generalização: sempre que o enunciado tratar de angústia, liberdade, autenticidade, finitude ou "reconhecimento de si", a resposta caminha para o existencialismo; se tratar de classes sociais e produção, para o marxismo; se tratar de prazer/dor e consequências, para o utilitarismo.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas com vocabulário técnico "fora do campo" do texto — logicismo (lógica formal) e utilitarismo (cálculo de consequências) não têm relação com uma cena de sofrimento diante da morte; isso já reduz as opções a A, D e E.
- Conexões: o tema dialoga com Filosofia da existência (Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Camus) e também pode aparecer articulado a discussões de Bioética e cuidados paliativos em questões interdisciplinares de Humanas.
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