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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 87ENEM 2020 Digital

Ao mesmo tempo que as novas tecnologias inseridas no universo do trabalho estão provocando profundas transformações nos modos de produção, tornam cada vez mais plausível a possibilidade de liberação do homem do trabalho mecânico e repetitivo.

JORGE, M. T. S. Será o ensino escolar supérfluo no mundo das novas tecnologias?
Educação e Sociedade, v. 19, n. 65, dez. 1998 (adaptado).

O paradoxo da relação entre as novas tecnologias e o mundo do trabalho, demonstrado no texto, pode ser exemplificado pelo(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Sociologia do Trabalho (tecnologia, automação e relações de trabalho)
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um paradoxo abstrato apresentado no texto-base e reconhecê-lo em uma situação concreta, descartando alternativas plausíveis mas superficiais.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Impactos das novas tecnologias no mundo do trabalho — leitura crítica de texto sociológico e identificação de contradições estruturais do capitalismo contemporâneo.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual situação concreta exemplifica a contradição entre o potencial libertador da tecnologia e os efeitos reais que ela produz sobre o trabalhador?"
  • Palavras-chave decisivas: paradoxo, liberação do trabalho mecânico e repetitivo, exemplificado
  • Armadilha típica: escolher a alternativa sobre desemprego, pois parece a consequência mais visível da automação — mas a questão não pede uma consequência isolada, e sim um paradoxo, ou seja, duas forças opostas coexistindo na mesma dinâmica.
  • O que a resposta precisa demonstrar: uma cena em que a mesma tecnologia que promete libertar o trabalhador do trabalho mecânico também gera, ao mesmo tempo, uma nova exigência ou tensão sobre esse trabalhador — a contradição interna descrita no texto, não apenas um efeito colateral solto.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Paradoxo: coexistência de dois elementos logicamente opostos que se relacionam pela mesma causa — aqui, a tecnologia que "liberta" é a mesma que impõe novas condições ao trabalhador.
  • Qualificação profissional: conjunto de competências técnicas e comportamentais hoje exigido pelo mercado; tornou-se critério decisivo de seleção, permanência e ascensão no emprego diante da automação.
  • Precarização e polarização do trabalho: conceito trabalhado por autores como Ricardo Antunes e André Gorz, segundo o qual a tecnologia não elimina o trabalho de forma neutra — ela o reorganiza, exigindo qualificação crescente de uns e excluindo outros, o que gera disputa social.
  • Trabalho mecânico x trabalho qualificado: a automação de fato substitui tarefas repetitivas, mas desloca a exigência produtiva para funções de maior complexidade cognitiva, que nem todo trabalhador consegue (ou tem condições de) adquirir rapidamente.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "estão provocando profundas transformações nos modos de produção" → a tecnologia reorganiza estrutural e materialmente o processo produtivo, não apenas ajusta detalhes.
  • Evidência 2: "tornam cada vez mais plausível a possibilidade de liberação do homem do trabalho mecânico e repetitivo" → o autor aponta um horizonte otimista (menos trabalho braçal e repetitivo), mas não afirma que essa liberação se realiza sem custo social.
  • Síntese: o "paradoxo" está exatamente na distância entre a promessa de libertação e a realidade concreta das relações de trabalho: para substituir o trabalho mecânico, o mercado passa a exigir trabalhadores mais qualificados, e essa exigência não é neutra — ela gera atrito direto entre quem contrata (busca produtividade e adequação tecnológica) e quem é contratado (precisa se requalificar constantemente, muitas vezes sem suporte ou tempo hábil, sob risco de exclusão). É esse atrito — o conflito em torno da exigência de qualificação — que materializa o paradoxo no mundo real.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura do paradoxo

O texto afirma que a tecnologia produz, simultaneamente, dois efeitos: (1) transforma os modos de produção e (2) abre a possibilidade de libertar o trabalhador do trabalho mecânico/repetitivo. Uma alternativa que exemplifica um paradoxo precisa mostrar tensão — não apenas um efeito isolado. Um efeito isolado (como "haverá desemprego") descreve uma consequência estatística, mas não evidencia a contradição interna entre "libertar" e "ainda gerar conflito para o trabalhador por causa da própria promessa de libertação".

Subpasso 4.2 — Testar o critério do paradoxo em cada alternativa

A pergunta-teste é: "Isso mostra a tecnologia gerando, ao mesmo tempo, avanço E tensão para o trabalhador, ligados pela mesma causa?" Aplicando esse filtro, quatro alternativas caem: recrutamento por redes sociais e transferência de fábricas por benefício fiscal são usos/decisões neutros ou puramente administrativos, sem tensão alguma; flexibilização do trabalhador fica próxima do tema, mas não nomeia o confronto entre as partes; desemprego é resultado, não tensão simultânea — é a negação da liberação, não sua contrapartida. Só a alternativa sobre exigência de qualificação profissional preserva as duas pontas do paradoxo ao mesmo tempo (avanço tecnológico + conflito gerado por ele). O detalhamento de cada uma está no Passo 5.

Subpasso 4.3 — Verificação

Revendo o enunciado: "novas tecnologias... provocam transformações" + "tornam plausível a liberação do trabalho mecânico". A alternativa correta precisa amarrar as duas pontas em uma única cena de conflito real, e apenas a que trata da exigência de qualificação profissional faz isso: a exigência de qualificação é a face concreta, no mundo do trabalho, dessa promessa de "liberação", e o conflito entre trabalhadores e empresários é o desdobramento social dessa promessa que não se cumpre de forma simples ou gratuita. As demais alternativas descrevem fenômenos reais do mundo do trabalho contemporâneo, mas nenhuma delas amarra explicitamente a tensão "libertação × exigência/conflito" com a mesma precisão.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) utilização das redes sociais como ferramenta de recrutamento e seleção.

❌ Incorreta: descreve apenas uma nova aplicação tecnológica ao processo de seleção de pessoal. Não há paradoxo aqui — é um uso instrumental da tecnologia, sem tensão entre "libertação do trabalho mecânico" e algum efeito conflitante.

B) transferência de fábricas para locais onde estas desfrutem de benefícios fiscais.

❌ Incorreta: trata de uma decisão estratégica de natureza tributária e geográfica (guerra fiscal entre municípios/países, globalização produtiva), fenômeno ligado à mobilidade do capital, não à relação específica entre tecnologia e liberação do trabalho mecânico.

C) necessidade de trabalhadores flexíveis para se adequarem ao mercado de trabalho.

❌ Incorreta: aborda a flexibilização do trabalho, tema relevante da sociologia contemporânea, mas não expõe o confronto direto entre trabalhadores e empregadores nem se prende à lógica específica do texto-base (liberação do trabalho mecânico via tecnologia).

D) fenômeno do desemprego que aflige milhões de pessoas no mundo contemporâneo.

❌ Incorreta (a mais tentadora): o desemprego é de fato uma consequência real da automação, mas representa o oposto de "liberação" no sentido pretendido pelo texto — é exclusão do trabalho, não libertação dele. Além disso, a alternativa descreve um resultado estatístico amplo, sem evidenciar o mecanismo de disputa entre partes que caracteriza um paradoxo em ação.

E) conflito entre trabalhadores e empresários por conta da exigência de qualificação profissional.

✅ Correta: exemplifica com precisão o paradoxo descrito. A tecnologia promete libertar o trabalhador da tarefa mecânica e repetitiva, mas, para isso, passa a exigir qualificação cada vez maior — exigência que nem sempre é acompanhada de suporte, tempo ou remuneração adequados. Essa exigência gera disputa concreta entre empresários (que cobram produtividade e adequação tecnológica) e trabalhadores (que lutam por condições de se qualificar, por estabilidade e por reconhecimento), materializando exatamente o paradoxo apontado no texto.

🏆 Gabarito: E — apenas essa alternativa une, em uma única situação concreta, o potencial libertador da tecnologia (menos trabalho mecânico) e o conflito real que essa mesma promessa gera no mundo do trabalho (a exigência de qualificação como fonte de disputa entre capital e trabalho).

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa E é a única que amarra causa e efeito dentro da mesma dinâmica descrita no texto — a tecnologia que liberta também exige, e essa exigência gera conflito social direto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra Sociologia/Geografia do Trabalho a partir de textos que discutem automação, revolução tecnológica e seus efeitos ambíguos (positivos e negativos simultâneos), pedindo que o aluno reconheça a dimensão social e conflituosa por trás da mudança técnica.
  • Generalização: quando a questão pede um "exemplo de paradoxo", desconfie de alternativas que descrevem apenas um fato isolado (efeito único, sem tensão); a resposta certa costuma amarrar duas forças opostas (avanço e tensão) na mesma cena concreta.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que descrevem fenômenos "neutros" ou puramente administrativos/geográficos (ferramentas de recrutamento e mudança de fábricas por incentivo fiscal, que não tocam a essência do texto); depois compare as demais — se a alternativa não menciona explicitamente um confronto/disputa entre partes (trabalhador × empregador), ela expressa apenas uma consequência, não o paradoxo.
  • Conexões: o tema dialoga com a teoria marxista do "exército industrial de reserva" e com autores contemporâneos como Ricardo Antunes ("Adeus ao Trabalho?") e André Gorz, que discutem os efeitos ambíguos da automação sobre a classe trabalhadora.

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