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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 26ENEM 2020 Digital

No anúncio sobre a proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores, a linguagem formal interage com a linguagem informal quando o autor

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Análise de recursos expressivos em prosa naturalista/pré-modernista
  • ⚡ Nível: Médio — as cinco alternativas são semanticamente próximas e exigem diferenciar com precisão a relação entre personagem e paisagem
  • 🎯 Tema/Habilidade: Recursos de linguagem (personificação e correspondência entre estado psicológico e cenário) — reconhecer efeitos de sentido produzidos por escolhas linguístico-discursivas em texto literário
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual efeito de sentido central o narrador constrói ao descrever a natureza da maneira como descreve nesse trecho?"
  • Palavras-chave decisivas: "imaginação perturbada", "expressividade", "percepção"
  • Armadilha típica: parar na camada mais óbvia — "a natureza está ameaçadora" — e marcar alternativas que tratam a natureza como força objetiva e independente (opressora, prevalente, mortal), ignorando que o texto avisa, já na primeira linha, que essa natureza é projeção da mente de Maria.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a paisagem descrita não é um cenário neutro observado de fora, mas o espelho verbal do estado emocional da personagem — interior e exterior se fundem numa única imagem.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Prosa impressionista de Graça Aranha (Canaã, 1902): romance de transição entre Naturalismo e Pré-Modernismo, com paisagens carregadas de subjetividade, funcionando como extensão psicológica dos personagens.
  • Personificação (prosopopeia): atribuição de ações e sentimentos humanos à natureza — nuvens que "rolavam", montanhas que "se perfilavam tenebrosas", caminhos que "se animavam" como serpentes.
  • Falácia patética (pathetic fallacy): recurso em que o cenário externo reflete o estado emocional de quem observa; a paisagem não é descrita "como é", mas "como é sentida".
  • Foco na percepção da personagem: "na sua imaginação perturbada sentia..." é moldura que declara, de saída, que tudo o que segue passa pelo filtro subjetivo de Maria.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para sufocá-la." → Chave de leitura do parágrafo: o que segue não é fato do mundo narrado, é percepção alterada de Maria.
  • Evidência 2: "Os caminhos... animavam-se quais serpentes infinitas... As árvores... choravam ao vento, como carpideiras fantásticas... Os aflitivos pássaros... gemiam agouros com pios fúnebres." → Cada elemento natural recebe verbos e comparações do campo do medo e do luto — o mesmo vocabulário emocional de uma pessoa angustiada. "Carpideiras" (mulheres que choram em funerais) fundem diretamente natureza e sofrimento humano.
  • Evidência 3: "Maria quis fugir, mas os membros cansados não acudiam aos ímpetos do medo e deixavam-na prostrada em uma angústia desesperada." → O parágrafo fecha onde começou: no corpo e na emoção de Maria.
  • Síntese: estrutura circular — abre no interior de Maria, desenvolve-se como paisagem "contaminada" por esse interior, fecha de novo no corpo/emoção dela. O recurso central não é oposição entre personagem e natureza, e sim fusão entre os dois planos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o filtro de percepção do narrador

O trecho é narrado em 3ª pessoa, mas adota o ponto de vista de Maria. A oração de abertura funciona como moldura interpretativa: avisa que a cena seguinte (nuvens, montanhas, caminhos, árvores, pássaros) não é paisagem objetiva, e sim paisagem sentida, filtrada pelo medo de Maria.

Subpasso 4.2 — Mapear o campo semântico compartilhado entre natureza e emoção

Nuvens "colossais e túmidas" (sufocamento); seres com "ares de monstros" (medo); montanhas "ameaçadoras... tenebrosas" (ameaça); caminhos como "serpentes infinitas" (perigo); árvores como "carpideiras" (luto); pássaros com "pios fúnebres" (agouro). Nenhum elemento natural é neutro — todos carregam o vocabulário afetivo do medo de Maria.

Subpasso 4.3 — Verificação

Somando as três evidências: (1) percepção declarada subjetiva; (2) catálogo natural contaminado pela emoção; (3) desfecho no corpo/angústia de Maria. Confirma-se que o efeito central não é "natureza hostil em si", e sim a confluência entre natureza e emoção — resultado que corresponde exatamente à alternativa B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) relação entre a natureza opressiva e o desejo de libertação da personagem.

❌ Incorreta: não há "desejo de libertação" central — Maria "quis fugir", mas o trecho encerra na paralisia ("os membros cansados não acudiam", "prostrada"). A alternativa também trata a natureza como força autônoma que oprime de fora, ignorando que essa natureza é a própria mente perturbada de Maria projetada.

B) confluência entre o estado emocional da personagem e a configuração da paisagem.

✅ Correta: é o mecanismo do Passo 4 — a abertura declara a subjetividade da percepção, os predicados de nuvens, montanhas, caminhos, árvores e pássaros reproduzem o vocabulário do medo e do luto, e o desfecho retorna à angústia de Maria. Emoção e paisagem não se opõem: confluem em uma única imagem verbal, essência da falácia patética.

C) prevalência do mundo natural em relação à fragilidade humana.

❌ Incorreta: pressupõe disputa de forças entre natureza (que "prevalece") e ser humano (que é "frágil"), como planos independentes em que um vence o outro. O texto não constrói hierarquia: a natureza só parece monstruosa porque é vista pelos olhos perturbados de Maria — é fusão de percepção, não oposição de forças.

D) depreciação do sentido da vida diante da consciência da morte iminente.

❌ Incorreta: as imagens fúnebres ("carpideiras", "pios fúnebres") são comparações para expressar o medo de Maria, não indícios de reflexão sobre a proximidade da morte ou o sentido da existência. Confunde recurso figurativo com tema filosófico ausente do trecho.

E) instabilidade psicológica da personagem face à realidade hostil.

❌ Incorreta (a mais próxima da correta, exige atenção): trata a paisagem como realidade externa objetivamente hostil, diante da qual a personagem reage. Isso inverte a lógica do trecho: não é a realidade que desestabiliza Maria, é a perturbação dela que torna a paisagem hostil. E separa causa e efeito; B nomeia o fenômeno certo — confluência, fusão mútua entre os dois planos.

🏆 Gabarito: B — o trecho de Canaã constrói sua expressividade fazendo o estado emocional de Maria e a configuração da paisagem se tornarem uma única imagem, não dois planos separados por oposição, hierarquia ou causa e efeito.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só B reconhece que a descrição da natureza é, ao mesmo tempo, a descrição do estado de espírito de Maria; as demais separam natureza e emoção por oposição (A), hierarquia de força (C), tema alheio ao trecho (D) ou causa e efeito simples (E).
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer excertos de romances naturalistas, românticos ou regionalistas pedindo a identificação de recursos como personificação, comparação e a relação entre ambiente e caracterização psicológica de personagens.
  • Generalização: sempre que um texto narrativo abrir com marca explícita de subjetividade ("sentia", "parecia-lhe", "imaginação perturbada"), o que vem depois deve ser lido como extensão dessa subjetividade, não como fato objetivo do enredo.
  • Dica de eliminação rápida: descarte primeiro alternativas com relação de "força" entre polos separados (opressão x libertação em A, prevalência em C) — quando o texto sinaliza percepção subjetiva desde o início, a resposta certa tende a unir os planos, não a opô-los.
  • Conexões: compare com O Cortiço (Aluísio Azevedo) e com a técnica romântica do "estado de alma refletido na paisagem", recorrente no ultrarromantismo brasileiro (Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu).

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