Mapa de questões · 1º dia
Questão 25 — ENEM 2020 Digital

A obra de Joseph Kosuth data de 1965 e se constitui por uma fotografia de cadeira, uma cadeira exposta e um quadro com o verbete “Cadeira”. Trata-se de um exemplo de arte conceitual que revela o paradoxo entre verdade e imitação, já que a arte
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → Arte Conceitual e teoria da representação
- ⚡ Nível: Difícil — exige raciocínio filosófico-estético sobre a diferença entre objeto real, imagem e signo linguístico, algo pouco trabalhado no dia a dia escolar
- 🎯 Tema/Habilidade: A obra como reflexão sobre linguagem e representação (Kosuth e a Arte Conceitual) — competência de leitura de linguagens verbais e não verbais em diálogo
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual conclusão sobre a natureza da arte a obra One and Three Chairs de Kosuth comprova, ao justapor cadeira real, foto da cadeira e definição de dicionário de 'cadeira'?"
- Palavras-chave decisivas: paradoxo, verdade e imitação, arte conceitual
- Armadilha típica: o candidato pode se apegar à ideia de "múltiplas formas de registro" (D) ou à presença do texto de dicionário (E) e concluir, erradamente, que a obra aproxima a arte da verdade objetiva — quando na verdade ela faz o oposto: mostra que toda tentativa de "capturar" a cadeira (foto, palavra) é apenas representação, nunca a coisa em si.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a justaposição de objeto, imagem e palavra evidencia a distância irredutível entre a arte (representação) e a realidade (o objeto/experiência representado).
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Arte Conceitual: movimento dos anos 1960 em que a ideia por trás da obra importa mais que sua execução formal; a obra vira, muitas vezes, uma proposição filosófica sobre o que é a própria arte.
- Mimese (imitação): conceito clássico, de origem aristotélica, segundo o qual a arte imita/representa a realidade — mas a imitação nunca é idêntica ao que imita, é sempre uma mediação.
- Signo e representação: todo signo (foto, palavra) substitui algo ausente; aponta para o objeto, mas não é o objeto. Kosuth explora essa cadeia: objeto → imagem → palavra, todos "cadeira", nenhum é a cadeira.
- Paradoxo verdade x imitação: se a arte busca representar fielmente o real (verdade), mas toda representação é, por definição, imitação (algo derivado), então a arte nunca alcança a "verdade" plena — só a sugere, à distância.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado e da Imagem
A imagem mostra a obra descrita no comando: à esquerda, uma cadeira dobrável de madeira real; ao centro, uma fotografia em tamanho natural dessa mesma cadeira; à direita, um painel de texto com o verbete de dicionário da palavra "Cadeira" (definição lexical: "substantivo feminino. 1 assento com encosto e pernas, para uma pessoa. 2 fig. lugar de honra ocupado por político, cientista, letrado etc. 3 fig. disciplina; cátedra").
- Evidência 1: "uma fotografia de cadeira, uma cadeira exposta e um quadro com o verbete 'Cadeira'" → três linguagens diferentes (objeto físico, imagem, texto) tentando "dizer" a mesma coisa, cada uma com seus próprios limites.
- Evidência 2: "revela o paradoxo entre verdade e imitação" → a obra não afirma uma verdade única sobre "cadeira", mas expõe que toda tentativa de representá-la (por foto ou por palavra) é uma forma de imitação, distinta e distante da cadeira "real".
- Síntese: Kosuth coloca lado a lado o objeto e duas de suas representações (visual e verbal) exatamente para provar que nenhuma delas se confunde com a coisa em si — esse gap entre "a coisa" e "a representação da coisa" é o que a alternativa correta precisa nomear.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que a tríade objeto/foto/texto comunica
Kosuth não quer provar qual das três "cadeiras" é a mais fiel. Ele mostra que cadeira-objeto, cadeira-imagem e cadeira-palavra são três sistemas de signos diferentes, cada um com sua própria lógica (matéria, luz e sombra, convenção linguística). Nenhum dos três é a "cadeira em si" enquanto experiência bruta — todos são, de algum modo, mediações sobre ela. Essa é a base da Arte Conceitual: a obra pergunta "o que é arte?" e "o que é representar?" usando a própria estrutura da obra como argumento filosófico.
Subpasso 4.2 — Conectar à ideia de "paradoxo entre verdade e imitação"
Se a arte fosse capaz de replicar a verdade (a cadeira real, tal qual ela é), foto e texto seriam desnecessários — bastaria a cadeira física. Mas Kosuth expõe o oposto: mesmo com o objeto real ao lado das representações, a obra continua sendo representação, porque até a cadeira física exposta numa galeria, deslocada de seu uso cotidiano, já é tratada como signo, como "obra". Logo, a arte, em qualquer uma de suas formas, nunca é a realidade "crua": é sempre uma leitura dela.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Buscamos a alternativa que descreva a arte como algo que representa a realidade sem se confundir com ela. A alternativa A — "não é a realidade, mas uma representação dela" — expressa exatamente essa conclusão e resume o paradoxo verdade/imitação. É a única leitura compatível com o enunciado.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) não é a realidade, mas uma representação dela.
✅ Correta: sintetiza com precisão o que a obra de Kosuth demonstra — foto, cadeira exposta e verbete são três representações distintas da mesma referência (a cadeira), e nenhuma delas é a "realidade" em si. É exatamente o paradoxo entre verdade (a coisa real) e imitação (suas representações) mencionado no enunciado.
B) fundamenta-se na repetição, construindo variações.
❌ Incorreta: confunde o procedimento formal da obra (repetir a "cadeira" em três suportes) com seu significado conceitual. A obra não trata de repetição/variação como recurso estético (como nas séries seriais de Andy Warhol); ela trata da diferença ontológica entre objeto, imagem e conceito — o foco é a distância entre representação e real, não a repetição em si.
C) não se define, pois depende da interpretação do fruidor.
❌ Incorreta: desloca o problema para a teoria da recepção (papel do espectador na atribuição de sentido). Kosuth não discute se a arte é subjetiva ou indefinível — ele apresenta, de forma analítica, a relação entre linguagem, imagem e objeto, questionando o estatuto da arte, e não a variabilidade de interpretações do público.
D) resiste ao tempo, beneficiada por múltiplas formas de registro.
❌ Incorreta: trata a obra como se seu objetivo fosse preservação/durabilidade por meio de diferentes suportes (foto, objeto, texto como "cópias de segurança" da cadeira). Isso é alheio ao propósito conceitual da obra, que não visa perenizar a cadeira, mas questionar o que significa representá-la.
E) redesenha a verdade, aproximando-se das definições lexicais.
❌ Incorreta: sugere que a definição de dicionário seria a forma mais "verdadeira", hierarquizando os três elementos. Mas a obra trata objeto, foto e verbete como equivalentes em sua condição de representação — o verbete lexical é tão mediado quanto a fotografia, apenas por outro sistema de signos (a linguagem verbal).
🏆 Gabarito: A — a obra de Kosuth demonstra, pela justaposição de objeto, imagem e palavra, que a arte é sempre mediação: ela aponta para a realidade, mas nunca coincide com ela, o que resolve exatamente o paradoxo entre verdade e imitação citado no enunciado.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que descreve corretamente a relação entre arte e realidade evidenciada pela obra — representação, não identidade com o real.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer obras de arte conceitual, moderna ou contemporânea com uma pequena descrição/contexto, pedindo que o candidato identifique a ideia estética por trás da obra, não apenas dados biográficos do artista.
- Generalização: em questões sobre arte conceitual, moderna ou contemporânea, a resposta correta costuma estar ligada ao conceito/crítica que a obra propõe sobre a própria arte, a linguagem ou a sociedade — raramente à técnica ou à cronologia isoladas.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que atribuem à arte um poder de "capturar a verdade plena" (como a E) ou que deslocam o foco para aspectos irrelevantes ao enunciado, como durabilidade material (D) ou subjetividade do público (C) — o próprio enunciado já indica o caminho ao falar em "paradoxo entre verdade e imitação".
- Conexões: o mesmo raciocínio aparece em "Isto não é um cachimbo", de René Magritte, e nas discussões sobre mimese na tradição da Estética, de Aristóteles às vanguardas do século XX.
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