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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 64ENEM 2020 Digital

O fim último, causa final e desígnio dos homens, ao introduzir uma restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados, é o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita; quer dizer, o desejo de sair da mísera condição de guerra que é a consequência necessária das paixões naturais dos homens, como o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. É necessário um poder visível capaz de mantê-los em respeito, forçandoos, por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito às leis, que são contrárias a nossas paixões naturais.

HOBBES, T. M. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (adaptado).

Para o autor, o surgimento do estado civil estabelece as condições para o ser humano

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política Moderna (Contratualismo de Hobbes)
  • ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar, dentro da própria teoria de Hobbes, o meio (poder soberano absoluto) da finalidade (paz e conservação da vida).
  • 🎯 Tema/Habilidade: Contratualismo de Thomas Hobbes e a origem do Estado civil; leitura e interpretação de texto filosófico clássico.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo Hobbes, qual é a finalidade que os homens alcançam ao criar o Estado civil?"
  • Palavras-chave decisivas: conservação, vida mais satisfeita, poder visível
  • Armadilha típica: confundir o meio usado por Hobbes (poder soberano absoluto, quase despótico) com o fim que esse poder garante. O texto descreve um poder forte e coercitivo, e o candidato apressado marca a alternativa que fala em "despotismo" ou "exercício do poder", sem perceber que isso é instrumento, não objetivo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a razão de ser do Estado, para Hobbes, é tirar os homens da guerra e garantir segurança, conservação da vida e bem-estar — não o poder em si, nem a moral, nem a religião.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estado de natureza: condição hipotética sem poder comum, em que as paixões (orgulho, glória, desconfiança, vingança) geram uma "guerra de todos contra todos".
  • Contrato social: acordo pelo qual os indivíduos renunciam ao direito ilimitado de se autogovernar e transferem esse poder a um soberano único — o Leviatã.
  • Poder soberano absoluto: precisa ser incontestável para, "por medo do castigo", forçar o cumprimento das leis. É instrumento, não objetivo em si.
  • Fim último (causa final): o texto declara que a motivação do arranjo é "o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita" — segurança, paz e bem-estar, não moral ou religião.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita" → revela que a motivação primeira dos homens é existencial (sobreviver) e de bem-estar, não moral ou religiosa.
  • Evidência 2: "o desejo de sair da mísera condição de guerra que é a consequência necessária das paixões naturais dos homens" → mostra que o estado de natureza é guerra permanente, e o Estado surge para superá-la.
  • Evidência 3: "é necessário um poder visível capaz de mantê-los em respeito, forçando-os, por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito às leis" → o poder soberano é o instrumento coercitivo, não o fim em si.
  • Síntese: há uma relação clara de meio e fim: o poder absoluto do soberano (meio) existe para que os homens alcancem paz, segurança e conservação da vida (fim). A alternativa correta precisa nomear esse fim.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — O problema que Hobbes quer resolver

No estado de natureza, os homens são movidos por paixões — orgulho, desconfiança, vingança — que geram insegurança permanente. Sem poder comum, ninguém tem garantia de vida, propriedade ou cumprimento de promessas: é a "guerra de todos contra todos".

Subpasso 4.2 — A solução: contrato e poder soberano

Para escapar dessa condição "mísera", os homens pactuam entre si, transferindo seus direitos naturais a um poder soberano único, "visível" e capaz de "manter em respeito" os súditos pelo "medo do castigo". Até aqui, o texto descreve apenas o mecanismo (o meio), não o objetivo dos homens.

Subpasso 4.3 — Verificação: qual é o "fim último, causa final e desígnio"?

A própria primeira frase do texto responde: é "o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita" — equivalente a obter paz e ter o bem-estar assegurado pelas leis, conteúdo que só a alternativa E expressa. Nenhuma outra alternativa menciona conservação, paz ou bem-estar como finalidade, o que confirma E.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) internalizar os princípios morais, objetivando a satisfação da vontade individual.

❌ Incorreta: Hobbes não descreve internalização moral, e sim a necessidade de um poder EXTERNO ("poder visível", "medo do castigo"), justamente porque a vontade individual — movida por paixões como o orgulho — não basta para evitar a guerra.

B) aderir à organização política, almejando o estabelecimento do despotismo.

❌ Incorreta: esta é a armadilha central. O poder absoluto do soberano é meio necessário para conter as paixões e garantir a paz, não o que os homens almejam ao pactuar. Ninguém adere ao contrato "para" viver sob despotismo; adere-se para escapar da guerra.

C) aprofundar sua religiosidade, contribuindo para o fortalecimento da Igreja.

❌ Incorreta: o texto não trata de religião. Hobbes, aliás, subordina o poder religioso ao poder político do soberano no Leviatã, contrariando a ideia de fortalecer a Igreja como instituição autônoma.

D) assegurar o exercício do poder, com o resgate da sua autonomia.

❌ Incorreta: ocorre o inverso. Ao pactuar, os homens RENUNCIAM à autonomia natural e transferem esse poder ao soberano. Não há resgate de autonomia; há cessão voluntária de poder a um terceiro.

E) obter a situação de paz, com a garantia legal do seu bem-estar.

✅ Correta: reproduz o núcleo do texto. "Conservação e vida mais satisfeita" = bem-estar; "sair da mísera condição de guerra" = obter paz; "respeito às leis" impostas pelo soberano = garantia legal desse bem-estar.

🏆 Gabarito: E — o Estado civil hobbesiano existe para retirar os homens do estado de guerra e garantir, pelas leis sustentadas pelo poder soberano, a paz e a conservação da vida de cada indivíduo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que expressa a "causa final" citada pelo texto — conservação e bem-estar, alcançados pela paz civil garantida legalmente.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente o contratualismo (Hobbes, Locke, Rousseau), pedindo a finalidade do Estado em cada autor: Hobbes = segurança/paz por poder absoluto; Locke = proteção da vida, liberdade e propriedade por poder limitado; Rousseau = liberdade civil pela vontade geral.
  • Generalização: em textos contratualistas, separe sempre o MEIO (tipo de poder instituído) do FIM (motivo do pacto); a alternativa correta costuma pedir o FIM.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com elementos ausentes do texto (religião/Igreja em C) e as que invertem meio por fim (poder absoluto em B, autonomia individual em D) — Hobbes descreve exatamente o oposto.
  • Conexões: compare com Locke (poder limitado, propriedade) e Rousseau (vontade geral, liberdade civil) — tema recorrente em filosofia política no ENEM.

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