Mapa de questões · 1º dia
Questão 62 — ENEM 2020 Digital
O jovem que nasceu e cresceu sob a ditadura perdeu muitos contatos com a realidade e com a história como processo vivo. Mas conheceu em sua carne o que é a opressão e como a repressão institucional (às vezes inconsciente e definitiva, dentro da família, da escola etc.) é odiosa. Essa é uma riqueza ímpar. O potencial radical de um jovem — pobre, de pequena burguesia ou “rico” — que sofre prolongadamente uma experiência dessas, constitui um agente político valioso. Ele está “embalado” para rejeitar e combater a opressão sistemática e a repressão dissimulada, o que o converte em um ser político inconformista promissor.
FERNANDES, F. O dilema político dos jovens. In: Florestan Fernandes na constituinte:
leituras para reforma política. São Paulo: Expressão Popular, 2014.
No contexto mencionado, Florestan Fernandes tematiza um efeito inesperado do exercício do poder político decorrente da
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Florestan Fernandes; ditadura militar; socialização política da juventude
- ⚡ Nível: Difícil — o comando fala em "efeito inesperado", e é preciso identificar qual expectativa foi frustrada
- 🎯 Tema/Habilidade: Compreender consequências não previstas do exercício autoritário do poder
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que resultado o regime não previa ao reprimir a juventude?"
- Palavras-chave decisivas: conheceu em sua carne o que é a opressão, Essa é uma riqueza ímpar, constitui um agente político valioso, está "embalado" para rejeitar e combater a opressão sistemática, um ser político inconformista promissor
- Armadilha típica: ler o texto como denúncia da repressão e escolher "fragilidade moral das instituições", sem perceber que o argumento é sobre o limite do controle
- O que a resposta precisa demonstrar: que a própria repressão formou opositores, revelando que o controle sobre a sociedade nunca é completo
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Florestan Fernandes: sociólogo brasileiro, cassado pelo AI-5; analisou a formação política da juventude sob o autoritarismo.
- Socialização política: processo pelo qual as pessoas formam suas visões sobre poder e sociedade, inclusive pela experiência direta.
- Repressão institucional: controle exercido não só pelo Estado, mas por família, escola e outras instituições — como o texto assinala.
- Efeito não intencional: resultado de uma ação que contraria o objetivo de quem a praticou; conceito clássico da sociologia.
- Controle total: pretensão dos regimes autoritários de moldar integralmente a sociedade — sempre frustrada na prática.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "O jovem que nasceu e cresceu sob a ditadura perdeu muitos contatos com a realidade e com a história como processo vivo" → o regime de fato produziu efeitos de alienação; o controle funcionou em parte.
- Evidência 2: "Mas conheceu em sua carne o que é a opressão" → o conector "mas" marca a virada: houve algo que escapou ao projeto do regime.
- Evidência 3: "Essa é uma riqueza ímpar. O potencial radical de um jovem... constitui um agente político valioso" → a experiência da opressão gerou capacidade de resistência.
- Evidência 4: "Ele está 'embalado' para rejeitar e combater a opressão sistemática e a repressão dissimulada, o que o converte em um ser político inconformista promissor" → o produto final é um opositor, não um súdito conformado.
- Síntese: ao reprimir, o regime formou justamente quem viria a combatê-lo — prova de que o controle pretendido não se realizou por inteiro.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a expectativa do regime
Um regime autoritário que controla escola, imprensa e vida familiar pretende moldar uma geração dócil, desconectada da história e incapaz de contestação. O texto reconhece que parte disso ocorreu: o jovem "perdeu muitos contatos com a realidade e com a história como processo vivo".
Subpasso 4.2 — Identificar o que escapou
O "mas" introduz o que não foi previsto. Ao sofrer a opressão "em sua carne", o jovem aprendeu na prática o que nenhuma escola censurada lhe ensinaria: como a repressão funciona e por que é odiosa. Esse aprendizado involuntário produziu um "agente político valioso", "embalado" para combater a opressão. O regime, ao exercer o controle, fabricou seu próprio opositor.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se a repressão gera resistência, então o projeto de dominação integral falha. É isso que a alternativa C chama de "impossibilidade de realização do controle total" — o efeito inesperado a que o comando se refere. Confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) evolução histórica do conflito de gerações.
❌ Incorreta: o texto não opõe jovens a velhos nem descreve um conflito geracional. Ele analisa o efeito do regime sobre uma geração específica, e o antagonismo é com a opressão, não com os mais velhos.
B) fragilidade moral das instituições públicas.
❌ Incorreta: o problema apontado não é a fraqueza moral das instituições, e sim a força com que elas reprimiram — família, escola e Estado exerceram repressão eficaz. O ponto do texto é o resultado inesperado dessa eficácia.
C) impossibilidade de realização do controle total.
✅ Correta: o regime conseguiu afastar o jovem da história e da realidade, mas não impedir que ele conhecesse a opressão "em sua carne". Essa experiência o converteu em "agente político valioso" e "ser político inconformista promissor" — ou seja, a repressão produziu seu próprio adversário, demonstrando que o controle pretendido não se completa.
D) legitimação ideológica do nacionalismo estatal.
❌ Incorreta: o texto não discute ideologia nacionalista nem os discursos de legitimação do regime. Trata da experiência vivida da repressão e de seus efeitos sobre a formação política dos jovens.
E) restrição da oferta de oportunidades de educação.
❌ Incorreta: a escola é citada como espaço de repressão institucional, e não por falta de vagas ou de acesso. O problema apontado é o conteúdo autoritário da experiência escolar, não a escassez de oportunidades.
🏆 Gabarito: C — Ao reprimir, a ditadura ensinou aos jovens, na própria carne, o que é a opressão, formando opositores — prova de que o controle total pretendido é irrealizável.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que capta o efeito não intencional; A, B, D e E deslocam o texto para conflito geracional, moralidade, ideologia e acesso escolar.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra a ditadura militar também por seus efeitos sociais de longo prazo e pela formação de resistências.
- Generalização: quando o comando fala em "efeito inesperado", procure o conector adversativo. É ele que separa o que o poder pretendia do que efetivamente aconteceu.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevam o regime como fraco quando o texto mostra repressão eficaz; o paradoxo está no resultado, não na falta de força.
- Conexões: Florestan Fernandes e a sociologia crítica brasileira; AI-5 e repressão nas universidades; movimento estudantil de 1968.
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