Mapa de questões · 1º dia
Questão 30 — ENEM 2020 Digital
Indústria cultural da felicidade
Tornou-se perigoso o emprego da palavra felicidade desde seu mau uso pela propaganda. Os que se negam a usá-la acreditam liberar os demais dos desvios das falsas necessidades, das bugigangas que se podem comprar em shoppings grã-finos ou em camelôs na beira da calçada, que, juntos, sustentam a indústria cultural da felicidade à qual foi reduzido o que, antes, era o ideal ético de uma vida justa. Infelicidade poderia ser o nome próprio desse novo estado da alma humana que se perdeu de si ao perder-se do sentido do que está a fazer. Desespero é um termo ainda mais agudo quando se trata da perda do sentido das ações pela perda da capacidade de reflexão sobre o que se faz. A felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois. Resulta disso a massa de “desesperados” trafegando como zumbis nos shoppings e nas farmácias do país em busca de alento.
TIBURI, M. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br. Acesso em: 12 nov. 2014 (adaptado).
Ao reprovar a ação da indústria da felicidade e um comportamento humano, o texto associa a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia / Língua Portuguesa → Indústria cultural; consumo e publicidade; crítica social
- ⚡ Nível: Médio — o texto é denso, e três alternativas se apoiam em elementos periféricos
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificar a associação crítica estabelecida por um texto argumentativo
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que comportamento humano o texto critica, e a que ele o associa?"
- Palavras-chave decisivas: falsas necessidades, bugigangas que se podem comprar em shoppings grã-finos ou em camelôs, indústria cultural da felicidade, A felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois, massa de "desesperados" trafegando como zumbis nos shoppings
- Armadilha típica: fixar-se nos camelôs ou nas farmácias, que são detalhes da enumeração, e perder a associação central
- O que a resposta precisa demonstrar: que o texto liga o comportamento consumista à crença na felicidade prometida pela publicidade
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Indústria cultural: conceito da Escola de Frankfurt para a produção em série de bens simbólicos que padroniza desejos; aqui, aplicado à própria ideia de felicidade.
- Falsas necessidades: desejos criados pelo mercado, que não correspondem a carências reais.
- Felicidade publicitária: promessa de satisfação imediata, "ao alcance dos dedos", que não se sustenta no tempo — "não promete um depois".
- Reificação do ideal ético: substituição da felicidade como "ideal ético de uma vida justa" por um produto comprável.
- Zumbis: imagem usada para descrever quem consome sem refletir, tendo perdido "a capacidade de reflexão sobre o que se faz".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "os desvios das falsas necessidades, das bugigangas que se podem comprar em shoppings grã-finos ou em camelôs na beira da calçada, que, juntos, sustentam a indústria cultural da felicidade" → o consumo, em qualquer faixa de preço, alimenta a indústria da felicidade.
- Evidência 2: "à qual foi reduzido o que, antes, era o ideal ético de uma vida justa" → denuncia-se a troca de um ideal moral por uma mercadoria.
- Evidência 3: "A felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois" → caracteriza a promessa como imediata e sem futuro, isto é, ilusória.
- Evidência 4: "Resulta disso a massa de 'desesperados' trafegando como zumbis nos shoppings e nas farmácias do país em busca de alento" → o conector "resulta disso" liga a promessa publicitária ao comportamento consumista automático.
- Síntese: o texto reprova quem consome acreditando na felicidade anunciada, associando postura consumista e promessa publicitária ilusória.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar os dois termos que o comando pede
O enunciado diz que o texto "reprova a ação da indústria da felicidade e um comportamento humano" e pergunta o que ele associa. São, portanto, dois elementos: de um lado, algo da indústria; de outro, algo das pessoas.
Subpasso 4.2 — Nomear cada um deles
Do lado da indústria: "a felicidade publicitária", que "está ao alcance dos dedos e não promete um depois" — uma promessa imediata e vazia, sustentada pela propaganda que fez "mau uso" da palavra felicidade. Do lado das pessoas: a multidão que circula "como zumbis nos shoppings e nas farmácias do país em busca de alento", comprando bugigangas movida por falsas necessidades. O conector "resulta disso" costura os dois: o comportamento é efeito da crença na promessa.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa D — "postura consumista à crença na promessa ilusória de anúncios publicitários" — nomeia exatamente esses dois polos e a relação entre eles. Confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) ansiedade recorrente ao lançamento de novidades no mercado.
❌ Incorreta: o texto não menciona lançamentos, novidades ou a lógica da renovação de produtos. O que descreve é a busca genérica por "alento" em objetos, e o sentimento nomeado é o desespero, ligado à perda de sentido, não a expectativa por novidades.
B) visita frequente ao shopping à resolução de problemas cotidianos.
❌ Incorreta: o shopping aparece como cenário do comportamento criticado, não como meio de resolver problemas práticos. O texto trata de uma busca existencial malsucedida — "em busca de alento" —, não de conveniência cotidiana.
C) atitude impensada ao atendimento de necessidades emergenciais.
❌ Incorreta: a "perda da capacidade de reflexão" é de fato mencionada, mas o que se atende não são necessidades emergenciais, e sim "falsas necessidades" criadas pelo mercado. A alternativa legitima o que o texto denuncia como artificial.
D) postura consumista à crença na promessa ilusória de anúncios publicitários.
✅ Correta: o texto critica a compra de "bugigangas" movida por "falsas necessidades" e afirma que "a felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois", concluindo que "resulta disso a massa de 'desesperados' trafegando como zumbis nos shoppings". A postura consumista é apresentada como consequência direta da crença nessa promessa vazia.
E) vantagem econômica à venda de produtos falsificados no mercado ambulante.
❌ Incorreta: os camelôs são citados ao lado dos "shoppings grã-finos" apenas para mostrar que o fenômeno atravessa todas as faixas de renda. Não há menção a falsificação nem discussão sobre vantagem econômica.
🏆 Gabarito: D — O texto liga o consumo de bugigangas movido por falsas necessidades à crença na "felicidade publicitária", promessa imediata que "não promete um depois".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que nomeia os dois polos associados pelo texto; A, B, C e E se apoiam em elementos laterais da enumeração.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra a crítica à indústria cultural e ao consumismo, frequentemente com textos de filósofos brasileiros contemporâneos.
- Generalização: quando o comando pede uma associação, identifique os DOIS termos e o conector que os liga. Aqui, "resulta disso" entrega a relação de causa e efeito.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas construídas sobre itens de uma enumeração (camelôs, farmácias); enumerações servem para mostrar abrangência, não para definir a tese.
- Conexões: indústria cultural em Adorno e Horkheimer; sociedade de consumo; publicidade e construção do desejo.
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