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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 38ENEM 2020 Digital

Relatos de viagem: nas curvas da Nacional 222, em Portugal

Em abril deste ano, fomos a Portugal para uma viagem de um mês que esperávamos há um ano. Pois no dia 4 de maio, chegávamos ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. Que linda a “antiga, muy nobre, sempre leal, e invicta” cidade do Porto! “Encantei-me”, diriam eles… pelas belas paisagens, construções históricas com lindas fachadas, parques e praças muito bem cuidados.

Os tripeiros, sinônimos de portuênses, têm orgulho de sua cidade, apelidade de Invicta – nunca foi invadida. E valorizam tudo o que há de bom ali, como “a melhor estrada para se dirigir do mundo”, a Nacional 222.

Pois na manhã do 25 de abril, dia da Revolução dos Cravos, resolvemos conhecer a tal maravilha. A cada 10 km tínhamos que encostar: corríamos, dançávamos, tomávamos chocolate quente, sopa, tudo que fosse quentinho. E lá íamos para mais uma etapa. Uma aventura deliciosa. Depois de três horas – mais ou menos o dobro do tempo necessário, não fossem as paradas para aquecimento -, chegamos a casa! Congelados, mas maravilhados e invictos!

Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em 6 dez. 2017 (adaptado).

Nesse texto, busca-se seduzir o leitor por meio da exploração de uma voz externa sobre a identidade histórica do povo português. O trecho que evidencia esse procedimento argumentativo é:

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto e estratégias argumentativas (polifonia/discurso relatado)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige distinguir, dentro do mesmo texto, entre uma citação histórica cristalizada, uma fala hipotética e uma opinião popular sobre infraestrutura
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de recursos linguísticos (aspas, citação de outrem) como estratégia de persuasão do leitor
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual trecho mostra o autor usando uma voz que não é a dele para reforçar a identidade histórica do povo português e, assim, seduzir o leitor?"
  • Palavras-chave decisivas: voz externa, identidade histórica, procedimento argumentativo
  • Armadilha típica: marcar qualquer trecho entre aspas do texto, sem checar se o conteúdo citado realmente remete à HISTÓRIA do povo — e não a uma sensação pessoal, a uma opinião hipotética ou ao elogio de uma estrada.
  • O que a resposta precisa demonstrar: o trecho correto precisa cumprir dois requisitos ao mesmo tempo — (1) reproduzir uma fala que não é do narrador (voz externa/citação) e (2) tratar da trajetória histórica/identitária do povo ou da cidade portuguesa.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Polifonia (discurso relatado): um texto pode incorporar vozes alheias ao enunciador principal — citações, ditados, epítetos, apelidos — atribuindo-as a outro sujeito do discurso.
  • Aspas como marca de heterogeneidade enunciativa: sinalizam que a expressão citada não foi criada pelo narrador; ela pertence a uma tradição, a um ditado ou a uma fala coletiva anterior ao texto.
  • Argumento de autoridade/legitimação: recorrer a uma voz coletiva, tradicional ou historicamente consagrada dá mais peso ao elogio do que uma simples opinião pessoal — "não sou só eu quem diz, a história/tradição confirma".
  • Identidade histórica x impressão subjetiva: identidade histórica refere-se a feitos, títulos e trajetória de um povo (resistência, conquistas, brasões); é diferente de uma impressão estética do momento (encantamento com paisagens) ou de uma opinião sobre infraestrutura atual (qualidade de uma estrada).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "'antiga, muy nobre, sempre leal, e invicta' cidade do Porto" → trecho entre aspas que reproduz um título honorífico tradicionalmente atribuído à cidade do Porto; o arcaísmo "muy" (em vez de "muito") comprova que é uma fórmula antiga, cristalizada pelo uso histórico, e não uma frase espontânea do narrador.
  • Evidência 2: o parágrafo seguinte reforça essa leitura ao explicar que os "tripeiros" se orgulham de a cidade ser apelidada de "Invicta — nunca foi invadida", confirmando que o adjetivo citado no primeiro parágrafo tem lastro histórico real, ligado à resistência da cidade a invasões.
  • Síntese: apenas o trecho A une, ao mesmo tempo, a marca formal de voz externa (aspas + arcaísmo) e o conteúdo temático exigido pelo comando (identidade histórica do povo português) — funcionando como argumento de autoridade que empresta legitimidade ao elogio do narrador.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear todas as ocorrências de discurso alheio no texto

O texto traz três trechos entre aspas que merecem atenção: (i) "antiga, muy nobre, sempre leal, e invicta" (1º parágrafo); (ii) "Encantei-me", diriam eles (1º parágrafo); (iii) "a melhor estrada para se dirigir do mundo" (2º parágrafo). Também há o apelido "Invicta" no 2º parágrafo, usado para explicar o título citado antes.

Subpasso 4.2 — Testar cada trecho contra os dois critérios do comando

Para cada citação, pergunte: (a) é realmente uma voz externa, e não uma criação do narrador? (b) fala da identidade histórica do povo/cidade?

  • "antiga, muy nobre, sempre leal e invicta": (a) SIM — é uma fórmula tradicional, repetida ao longo do tempo, marcada pelo arcaísmo "muy"; (b) SIM — os termos "leal" e "invicta" remetem diretamente à trajetória histórica de resistência da cidade, retomada explicitamente linhas depois. Atende aos dois critérios.
  • "Encantei-me", diriam eles: (a) é uma fala apenas IMAGINADA pelo narrador — o verbo "diriam", no futuro do pretérito, indica hipótese, não uma voz histórica consolidada; (b) o conteúdo trata de paisagens, fachadas e praças — impressão estética do presente, não identidade histórica.
  • "a melhor estrada para se dirigir do mundo": (a) SIM, é atribuída aos tripeiros, uma voz coletiva; (b) NÃO — o assunto é a qualidade de uma rodovia (orgulho contemporâneo com infraestrutura), e não a história do povo português.

Subpasso 4.3 — Verificação

Somente a alternativa A satisfaz simultaneamente os dois requisitos do comando. Ao citar entre aspas um título histórico e tradicional da cidade do Porto, o narrador não apenas expressa sua própria admiração, mas "empresta" a voz da tradição/história portuguesa para validar esse elogio — exatamente o procedimento argumentativo de sedução do leitor que a questão pede que se identifique.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) "Que linda a 'antiga, muy nobre, sempre leal e invicta' cidade do Porto!".

✅ Correta: o trecho entre aspas reproduz um epíteto histórico e tradicional da cidade, confirmado pela explicação posterior sobre a Invicta "nunca foi invadida" — é voz externa que fala diretamente da identidade histórica do povo.

B) "'Encantei-me', diriam eles… pelas belas paisagens, construções históricas com lindas fachadas […]".

❌ Incorreta: "diriam" marca uma fala hipotética, imaginada pelo próprio narrador, não uma voz histórica real e cristalizada; além disso, o conteúdo é sobre impressão estética (paisagens, fachadas), não sobre identidade histórica do povo.

C) "Os tripeiros, sinônimo de portuenses, têm orgulho de sua cidade […]".

❌ Incorreta: é uma afirmação do próprio narrador, sem aspas de citação — não há aqui incorporação de uma voz externa, apenas comentário direto do autor sobre os habitantes do Porto.

D) "E valorizam tudo o que há de bom ali, como 'a melhor estrada para se dirigir do mundo' […]".

❌ Incorreta: embora seja uma citação de voz externa (fala popular sobre a estrada), o conteúdo trata de infraestrutura viária e não da identidade histórica do povo português — não atende ao segundo critério do comando.

E) "Pois na manhã do 25 de abril, dia da Revolução dos Cravos, resolvemos conhecer a tal maravilha".

❌ Incorreta: é um trecho puramente narrativo, sem qualquer marca de discurso alheio (não há aspas nem voz externa citada); apenas situa o momento em que a viagem pela estrada começou.

🏆 Gabarito: A — é o único trecho que combina uma citação de voz externa (marcada pelas aspas e pelo arcaísmo "muy") com um conteúdo que remete diretamente à identidade histórica do povo português, cumprindo integralmente o que o comando exige.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa em que a voz emprestada (citação entre aspas) fala especificamente de história e tradição ("leal", "invicta"), e não de impressões pessoais ou de infraestrutura — por isso é a resposta que atende plenamente ao comando.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente pede o reconhecimento de "vozes" incorporadas a um texto (polifonia, discurso relatado, citação, itálico, aspas) como estratégia argumentativa, sobretudo em textos jornalísticos e de crônica de viagem.
  • Generalização: sempre que o comando pedir "voz externa", "discurso de outrem" ou "vozes do texto", procure primeiro as marcas formais (aspas, itálico, verbos de citação como "diz", "segundo", "diriam") e, em seguida, confira se o CONTEÚDO dessa voz atende ao critério temático específico exigido pela questão — não basta haver aspas, é preciso que o conteúdo combine com o que se pergunta.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro os trechos sem qualquer marca de citação (C e E, sem aspas); depois, entre B e D, elimine os que tratam de estética/paisagem ou de infraestrutura em vez de história — sobra apenas A.
  • Conexões: discurso direto x indireto x indireto livre; argumento de autoridade; heterogeneidade enunciativa e polifonia (conceitos de análise do discurso frequentemente cobrados em textos jornalísticos e literários do ENEM).

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