Mapa de questões · 1º dia
Questão 55 — ENEM 2020 Digital
As pessoas do Rio de Janeiro se fazem transportar em cadeirinhas bem douradas sustentadas por negros. Esta cadeira é seguida por um ou dois negros domésticos, trajados de librés mas com os pés nus. Se é uma mulher que se transporta, ela tem frequentemente quatro ou cinco negras indumentadas com asseio; elas vão enfeitadas com muitos colares e brincos de ouro. Outras são levadas em uma rede. Os que querem andar a pé são acompanhados por um negro, que leva uma sombrinha ou guarda-chuva, como se queira chamar.
LARA, S. H. Fragmentos setecentistas. São Paulo: Cia. das Letras, 2007 (adaptado).
Essas práticas, relatadas pelo capelão de um navio que ancorou na cidade do Rio de Janeiro em dezembro de 1748, simbolizavam o seguinte aspecto da sociedade colonial:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil colonial; escravidão urbana; hierarquia e ostentação social
- ⚡ Nível: Médio — as alternativas suavizam a escravidão de várias formas, e é preciso recusá-las
- 🎯 Tema/Habilidade: Interpretar práticas cotidianas como expressão da hierarquia de uma sociedade escravista
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o costume de ser carregado por escravizados bem vestidos revela sobre a sociedade colonial?"
- Palavras-chave decisivas: cadeirinhas bem douradas sustentadas por negros, trajados de librés mas com os pés nus, negras indumentadas com asseio, enfeitadas com muitos colares e brincos de ouro, um negro, que leva uma sombrinha
- Armadilha típica: interpretar as roupas e joias como benevolência do senhor ou como sinal de vínculo afetivo
- O que a resposta precisa demonstrar: que pessoas escravizadas eram vestidas com luxo para exibir a posição de seus proprietários, enquanto executavam trabalho pesado e humilhante
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escravidão urbana: no Brasil colonial, escravizados desempenhavam serviços domésticos, de transporte e de rua nas cidades.
- Cadeirinha (serpentina): meio de transporte carregado por dois ou mais escravizados; carregar gente era trabalho extenuante.
- Libré: uniforme luxuoso de criados, que assinala a quem eles pertencem — riqueza exibida no corpo alheio.
- Pés nus: marca legal e simbólica da condição escrava; calçar sapatos era privilégio de livres.
- Ostentação senhorial: exibição pública de riqueza como forma de afirmar posição social.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "se fazem transportar em cadeirinhas bem douradas sustentadas por negros" → seres humanos são usados como meio de transporte, em trabalho de grande esforço físico.
- Evidência 2: "trajados de librés mas com os pés nus" → a conjunção "mas" é decisiva: o luxo do uniforme convive com a marca inequívoca do cativeiro.
- Evidência 3: "quatro ou cinco negras indumentadas com asseio; elas vão enfeitadas com muitos colares e brincos de ouro" → o ouro que elas carregam serve para exibir a riqueza de quem as possui.
- Evidência 4: "Os que querem andar a pé são acompanhados por um negro, que leva uma sombrinha" → mesmo caminhando, o senhor faz questão do séquito, o que confirma a função de exibição.
- Síntese: o luxo das vestes é ornamento da propriedade; a atividade executada continua degradante, e o conjunto anuncia publicamente a hierarquia social.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer a natureza do trabalho descrito
Carregar uma cadeirinha com uma pessoa dentro, ao longo das ruas do Rio, é esforço físico extremo. Levar sombrinha atrás do senhor é serviço de subordinação pura. São atividades que anulam a autonomia de quem as realiza e existem para poupar e distinguir quem é servido.
Subpasso 4.2 — Entender por que os escravizados aparecem tão bem vestidos
A libré, o asseio e o ouro não beneficiam quem os usa. Funcionam como vitrine: quanto mais numeroso e mais bem ornamentado o séquito, maior a riqueza aparente do proprietário. O detalhe dos "pés nus" mostra que o luxo é adorno da propriedade, não melhoria da condição — o corpo continua marcado como cativo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Juntando as duas leituras: pessoas bem vestidas executando trabalho degradante para exibir a posição de outrem. É exatamente o que descreve a alternativa B, ao falar em "marca da hierarquia social". Confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) A devoção de criados aos proprietários, como expressão da harmonia do elo patriarcal.
❌ Incorreta: trata escravizados como "criados" devotados e a relação como harmoniosa. O texto descreve trabalho compulsório e a marca dos pés nus; não há indício de devoção, tampouco de harmonia — há propriedade sobre pessoas.
B) A utilização de escravos bem-vestidos em atividades degradantes, como marca da hierarquia social.
✅ Correta: reúne os dois elementos que o texto articula. As librés, o asseio e os "colares e brincos de ouro" contrastam com a natureza do serviço — carregar pessoas em cadeirinhas e segurar sombrinhas — e com os "pés nus". O luxo serve para exibir a riqueza do proprietário, tornando visível, na rua, a hierarquia da sociedade colonial.
C) A mobilização de séquitos nos passeios, como evidência do medo da violência nos centros urbanos.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a insegurança, ameaça ou proteção. O séquito cumpre função de ostentação, não de defesa pessoal.
D) A inserção de cativos na prestação de serviços pessoais, como fase de transição para o trabalho livre.
❌ Incorreta: o relato é de 1748, um século e meio antes da Abolição, em plena vigência e expansão do sistema escravista. Não há transição em curso — os serviços pessoais eram parte estrutural da escravidão urbana.
E) A concessão de vestes opulentas aos agregados, como forma de amparo concedido pela elite senhorial.
❌ Incorreta: as pessoas descritas são escravizadas, não agregados, e as vestes não são amparo. Servem à exibição do senhor, como evidencia o contraste entre a libré e os pés nus.
🏆 Gabarito: B — Escravizados bem vestidos carregando cadeirinhas e sombrinhas eram vitrine ambulante da riqueza senhorial: luxo no corpo, trabalho degradante nas mãos e pés nus como marca do cativeiro.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que preserva a violência da relação; A e E a suavizam, C inventa um motivo de segurança e D projeta uma transição inexistente.
- Padrão de cobrança: o ENEM aborda a escravidão urbana e os "negros de ganho", recusando leituras que apresentem a escravidão como branda ou harmoniosa.
- Generalização: em textos sobre escravidão, desconfie de qualquer alternativa que use palavras como devoção, amparo, harmonia ou concessão — o ENEM rejeita a tese da escravidão benevolente.
- Dica de eliminação rápida: procure o detalhe contrastivo. "Librés mas com os pés nus" resume a questão inteira: aparência de luxo sobre condição de cativeiro.
- Conexões: escravidão urbana no Rio de Janeiro; negros de ganho; ostentação e hierarquia na sociedade colonial.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.