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Questão 47 — ENEM 2020 Digital

Sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros, entretanto, nós queremos livremente aquilo que queremos. Porque, se o objeto da presciência divina é a nossa vontade, é essa mesma vontade assim prevista que se realizará. Haverá, pois, um ato de vontade livre, já que Deus vê esse ato livre com antecedência.

SANTO AGOSTINHO. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995 (adaptado).

Essa discussão, proposta pelo filósofo Agostinho de Hipona (354-430), indica que a liberdade humana apresenta uma

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → patrística; livre-arbítrio e presciência divina em Agostinho
  • ⚡ Nível: Médio — o trecho é curto e paradoxal, e duas alternativas apostam numa leitura absoluta da liberdade
  • 🎯 Tema/Habilidade: Compreender o estatuto da liberdade humana quando ela é pensada junto com a presciência de Deus
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

Comando reformulado: "Se Deus já sabe o que vamos escolher, que tipo de liberdade sobra para o ser humano?"

Palavras-chave decisivas: indica que a liberdade humana apresenta uma

Armadilha típica: concluir que, como Agostinho defende o livre-arbítrio, a liberdade seria total. Ele defende que ela existe — mas dentro de uma ordem que a antecede.

O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato veja que a liberdade é afirmada e emoldurada ao mesmo tempo, o que a torna real, porém não absoluta.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

Presciência divina: atributo pelo qual Deus conhece de antemão todos os acontecimentos, inclusive as escolhas humanas futuras.

Livre-arbítrio: capacidade de escolher entre alternativas. Em Agostinho, é o que torna o ser humano responsável pelos próprios atos — e é a peça que permite explicar o mal sem atribuí-lo a Deus.

O problema clássico: se Deus sabe o que farei, eu poderia fazer diferente? Agostinho responde que sim: Deus prevê justamente o ato livre, e prevê-lo não é causá-lo. A liberdade permanece, mas inscrita numa ordem que não depende de mim.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

Evidência 1: "Sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros" → o ponto de partida é a presciência, dada como certa e não discutida.

Evidência 2: "entretanto, nós queremos livremente aquilo que queremos" → a adversativa afirma o livre-arbítrio. Ele não é eliminado pela presciência.

Evidência 3: "se o objeto da presciência divina é a nossa vontade, é essa mesma vontade assim prevista que se realizará" → a vontade humana é objeto de uma previsão anterior a ela. A liberdade opera dentro desse quadro.

Evidência 4: "Haverá, pois, um ato de vontade livre, já que Deus vê esse ato livre com antecedência" → a liberdade é afirmada, mas a justificativa vem da própria presciência. Ela depende dela para ser pensada.

Síntese: o texto sustenta as duas pontas: a escolha é livre e é prevista. Uma liberdade que existe dentro de uma ordem que a precede é uma liberdade condicionada.

Passo 4 — Resolução Passo a Passo

4.1 — Ler as duas afirmações do trecho

Primeira: Deus prevê tudo. Segunda: queremos livremente. Agostinho não abre mão de nenhuma das duas, e o item pergunta que tipo de liberdade resulta disso.

4.2 — Testar a hipótese da liberdade absoluta

Se a liberdade fosse irrestrita, ela não precisaria ser compatibilizada com nada. O texto inteiro é um esforço de compatibilização — o que já mostra que há um limite em jogo.

4.3 — Testar a hipótese da liberdade inexistente

Também não serve: "nós queremos livremente aquilo que queremos" e "haverá, pois, um ato de vontade livre" afirmam a liberdade sem rodeios.

4.4 — Nomear o resultado

Sobra uma liberdade real, mas exercida dentro de uma ordem previamente conhecida por Deus — isto é, condicionada. Gabarito: A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) natureza condicionada.

✅ Correta: Agostinho afirma o ato de vontade livre sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros. A escolha é real, mas se dá dentro de uma ordem que a antecede e a contém — uma liberdade que existe sob condição, e não à revelia dela.

B) competência absoluta.

❌ Incorreta: liberdade absoluta seria incompatível com a presciência que o texto mantém desde a primeira linha. Agostinho não escreve para libertar a vontade de toda ordem: escreve para mostrar que ela cabe dentro de uma.

C) aplicação subsidiária.

❌ Incorreta: subsidiário é o que só atua quando o principal falha. Nada no trecho sugere que o livre-arbítrio seja um recurso secundário: ele é afirmado como o modo próprio de a vontade humana operar.

D) utilização facultativa.

❌ Incorreta: a liberdade em Agostinho não é opcional — o ser humano não escolhe se quer ou não ter vontade livre. Ela é constitutiva, e é justamente por isso que fundamenta a responsabilidade moral.

E) autonomia irrestrita

❌ Incorreta: repete o erro de B com outras palavras. Chamar a autonomia de irrestrita apaga a presciência divina, que o texto mantém de pé em todas as frases, inclusive na última.

🏆 Gabarito: A — a vontade é livre e, ao mesmo tempo, prevista por Deus — uma liberdade real que se exerce dentro de uma ordem que a condiciona.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só A conserva as duas afirmações do texto; B e E apagam a presciência, C e D enfraquecem o livre-arbítrio.
  • Padrão de cobrança: a patrística cai quase sempre pelo par livre-arbítrio e presciência, e o item costuma pedir o estatuto da liberdade resultante.
  • A regra geral que se leva: quando um texto afirma duas coisas aparentemente incompatíveis e não abandona nenhuma, a resposta é a que preserva as duas.
  • Eliminação em 30 segundos: risque as alternativas com adjetivos totalizantes — absoluta, irrestrita. Textos que conciliam nunca terminam em absolutos.
  • Temas que vêm junto: o problema do mal em Agostinho, a relação entre fé e razão na patrística e o determinismo como tema filosófico.

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