Mapa de questões · 1º dia
Questão 8 — ENEM 2020 Digital

Nesse texto, o entrelaçamento de vários gêneros textuais é um mecanismo discursivo para
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura de gêneros textuais, hibridismo de gêneros e linguagem publicitária
- ⚡ Nível: Médio — exige ir além do dado explícito (o aviso "pode causar dependência") e identificar a função retórica do entrelaçamento entre verbete de dicionário e bula de remédio
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer, em textos multissemióticos, os efeitos de sentido produzidos pela mistura de gêneros textuais numa campanha publicitária de adoção de cães
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Para que serve, nesse cartaz, misturar o gênero verbete de dicionário com o gênero bula de remédio?"
- Palavras-chave decisivas: entrelaçamento, vários gêneros textuais, mecanismo discursivo
- Armadilha típica: fixar-se na palavra "dependência" impressa no rótulo e marcar a alternativa que apenas a repete, sem perceber que ela funciona como recurso figurado a serviço de uma ideia maior — a intensidade do vínculo entre cão e dono.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler o texto como um todo coeso — verbete + bula + foto + chamada de adoção — e identificar que sentido único essas partes constroem juntas, e não apenas o que cada trecho diz isoladamente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gênero textual: forma relativamente estável de organizar um texto de acordo com sua função social; um verbete de dicionário informa significados, enquanto uma bula de remédio orienta uso, indicação e riscos de um medicamento.
- Hibridismo/entrelaçamento de gêneros: quando um texto mistura características de dois ou mais gêneros para gerar um efeito de sentido que nenhum deles produziria isoladamente — recurso comum em publicidade e campanhas de conscientização.
- Linguagem publicitária persuasiva: usa recursos inesperados (humor, ironia, paródia de formatos institucionais "sérios") para prender a atenção do leitor e reforçar, de modo indireto, a mensagem central da peça.
- Leitura inferencial: competência de deduzir o sentido global de um texto a partir da articulação entre suas partes, e não apenas da soma literal delas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: o verbete "Amor" traz definições como "2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser [...]; devoção extrema" e "3. Sentimento de afeto ditado por laços de família" → o dicionário fictício constrói o amor como devoção total, entrega incondicional — exatamente o traço que se atribui, no imaginário popular, à relação do cão com o dono.
- Evidência 2: o selo "G — Medicamento Genérico" e o aviso "ATENÇÃO! ESTE PRODUTO PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA!" → copiam fielmente o formato de uma bula real, que alerta sobre substâncias capazes de gerar apego físico ou psicológico intenso; aqui, o "produto" é o próprio cão, e o "efeito colateral" é o apego que ele desperta — forma exagerada e bem-humorada de dizer que esse vínculo é inquebrantável.
- Síntese: ao colar o discurso técnico e sério da bula ao discurso definidor do dicionário, o anúncio transforma a devoção descrita no verbete em algo tão poderoso a ponto de "viciar". O exagero da linguagem médica não pretende alertar de fato sobre um risco: ele serve para dar ênfase à intensidade do apego e da lealdade do cão ao ser humano.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o que cada gênero contribui isoladamente
O verbete de dicionário define "amor" com nove acepções, quase todas girando em torno de dedicação, devoção, ternura e cuidado ("sentimento de dedicação absoluta", "devoção extrema", "afeto ditado por laços de família", "adoração, veneração"). Isoladamente, esse trecho já caracteriza o amor — e, por extensão, o cão que o anúncio associa a ele — como uma entrega total e incondicional, isto é, como fidelidade.
Subpasso 4.2 — Observar o que a bula acrescenta a essa ideia
A bula empresta ao texto o rótulo de "Medicamento Genérico" e o alerta padrão de embalagens de remédios controlados: "pode causar dependência". Fora do contexto da paródia, esse aviso soaria como risco de saúde; dentro da campanha, ele funciona como metáfora: o "remédio" (o cão) gera no dono um apego tão forte que vira, figuradamente, uma dependência. Essa "dependência" não é apresentada como algo negativo — é a prova extrema de que o vínculo entre cão e humano é profundo, leal e duradouro.
Subpasso 4.3 — Verificação
Somando os dois gêneros, o efeito de sentido resultante não é "informar sobre riscos de saúde" (função literal de uma bula) nem apenas "definir uma palavra" (função literal de um verbete), mas construir, por acúmulo e exagero, a imagem de um amor/cão inteiramente devotado — ou seja, destacar a fidelidade do cão, tornando esse traço mais evidente do que se o texto usasse um único gênero isolado. Esse resultado corresponde exatamente à alternativa A, confirmando o gabarito.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) destacar a fidelidade dos cães.
✅ Correta: o entrelaçamento do verbete (que define amor como devoção extrema e afeto incondicional) com a bula (que transforma esse afeto em algo tão intenso que "causa dependência") cumpre exatamente essa função — amplificar, por meio do exagero do discurso médico, a ideia de um vínculo leal e incondicional, isto é, a fidelidade canina.
B) realçar as vantagens de se adotar um cão.
❌ Incorreta: o texto não elenca benefícios práticos da adoção (companhia, segurança, saúde etc.); ele constrói uma metáfora sobre a intensidade do afeto entre cão e dono. Realçar "vantagens" seria um discurso argumentativo mais direto e utilitário, diferente do jogo irônico entre definição de dicionário e alerta de bula que o texto efetivamente monta.
C) mostrar a dependência decorrente do amor aos cães.
❌ Incorreta: é a armadilha mais tentadora, pois repete literalmente uma palavra do texto ("pode causar dependência"). Mas essa "dependência" é um recurso figurado a serviço de outra ideia — a fidelidade/devoção —, e não o objetivo comunicativo em si. Tratar a dependência como a mensagem central é confundir o meio (a metáfora médica) com o fim (evidenciar o quão fiel é o vínculo).
D) enfatizar o interesse das pessoas pela adoção de cães
❌ Incorreta: o texto não descreve o interesse (maior ou menor) das pessoas em adotar; ele caracteriza a natureza do sentimento e do vínculo envolvidos nessa relação. Essa alternativa também desloca o foco do cão — sujeito caracterizado pelo verbete e pela bula — para o comportamento humano de "se interessar", o que não é o que o hibridismo de gêneros constrói no texto.
E) sensibilizar a comunidade sobre a carência dos cães
❌ Incorreta: a palavra "carência" aparece no campo "Indicação" da bula ("solidão, carência afetiva, falta de comunicação"), mas ali ela descreve o estado emocional do ser humano que precisa do "remédio" — não a carência dos cães do canil. A alternativa inverte o sujeito da carência mencionada no texto.
🏆 Gabarito: A — o cruzamento do verbete de dicionário (que define amor como devoção extrema) com a bula de remédio (que transforma esse afeto em algo "viciante") tem como efeito único e específico destacar, de forma exagerada e criativa, a fidelidade do cão ao ser humano.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A nomeia com precisão o traço que os dois gêneros, somados, constroem — a fidelidade/devoção do cão — enquanto as demais confundem esse efeito com elementos secundários do texto (dependência, vantagens, interesse, carência) que não são o foco central da pergunta.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora testar leitura de anúncios e campanhas que misturam gêneros textuais (bula, receita, contrato, verbete, notícia) para fins publicitários ou de conscientização — a pergunta quase sempre pede o "efeito de sentido" ou "mecanismo discursivo" dessa mistura.
- Generalização: quando um texto combina dois gêneros, pergunte-se "o que o gênero A traz que o gênero B sozinho não traria?" — a resposta certa normalmente descreve o sentido criado pela soma dos gêneros, e não um detalhe literal de apenas um deles.
- Dica de eliminação rápida: desconfie da alternativa que repete uma palavra exata do texto (aqui, "dependência") — é frequentemente uma armadilha de leitura superficial; elimine também alternativas que trocam o sujeito da ação (aqui, "carência" das pessoas virando "carência" dos cães).
- Conexões: essa habilidade aparece também em questões sobre tirinhas com intertextualidade, anúncios que parodiam bulas/receitas/contratos e textos que unem linguagem verbal e não verbal (multimodalidade) para reforçar um mesmo sentido.
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