Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaDifícil

Questão 70ENEM 2020 Digital

Mesmo com a instalação da quarta emissora no Rio de Janeiro, a Rádio Educadora, em janeiro de 1927, a música popular ainda não desfrutava desse meio de comunicação para se tornar mais conhecida. Renato Murce, um dos maiores radialistas de todos os tempos, registrou, no seu livro Nos bastidores do rádio, que as emissoras veiculavam apenas “um certo tipo de cultura, com uma programação quase só da chamada música erudita, conferências maçantes e palestras destituídas de interesse”. E acrescentou: “Nada de música popular. Em samba, então, nem era bom falar”.

CABRAL, S. A MPB na Era do Rádio. São Paulo: Moderna, 1996.

A situação descrita no texto alterou-se durante o regime do Estado Novo, porque o meio de comunicação foi instrumentalizado para

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Era Vargas / Estado Novo (1937-1945) e o papel dos meios de comunicação de massa
  • ⚡ Nível: Difícil — exige distinguir dois conceitos próximos (propaganda ideológica genérica vs. mobilização social pela cultura popular), não basta "lembrar" do Estado Novo
  • 🎯 Tema/Habilidade: Instrumentalização do rádio pelo Estado Novo como ferramenta de construção de identidade nacional e engajamento popular (Competência de História Republicana / Cultura e Poder)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Por que o rádio, antes restrito à música erudita e a conteúdos elitizados, passou a incluir a música popular durante o Estado Novo?"
  • Palavras-chave decisivas: Estado Novo, instrumentalizado, alterou-se
  • Armadilha típica: confundir "instrumentalização política" genérica (propaganda ideológica de cima para baixo) com o uso específico do rádio para incorporar a cultura popular e abrir espaço de participação/adesão das massas — são fenômenos relacionados, mas não idênticos
  • O que a resposta precisa demonstrar: entender que a mudança descrita no texto (samba e música popular ganhando espaço no rádio) é efeito de uma estratégia de aproximação do Estado com o povo, não apenas de propaganda abstrata

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estado Novo (1937-1945): regime autoritário e centralizador de Getúlio Vargas, marcado por censura, corporativismo e forte apelo nacionalista, que buscava construir um sentimento de unidade e pertencimento nacional em todas as classes sociais.
  • DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, 1939): órgão estatal que controlava e produzia conteúdo para rádio, cinema e imprensa, sendo responsável por moldar a imagem do governo e organizar a vida cultural do país.
  • "Hora do Brasil" (1935/1938): programa oficial de rádio transmitido diariamente, que combinava informes governamentais, discursos e — de forma estratégica — música e cultura popular, levando a "voz do Estado" diretamente para dentro das casas dos trabalhadores.
  • Populismo/trabalhismo getulista: estratégia política de aproximação simbólica entre o governo e as classes populares (sobretudo urbanas e operárias), na qual manifestações como o samba e o carnaval eram valorizadas como expressão de "brasilidade", criando identificação e adesão popular ao projeto do Estado.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "as emissoras veiculavam apenas 'um certo tipo de cultura, com uma programação quase só da chamada música erudita'" → mostra que, antes do Estado Novo, o rádio era um meio elitizado, distante da cultura das camadas populares.
  • Evidência 2: "Nada de música popular. Em samba, então, nem era bom falar" → reforça que a exclusão da cultura popular era a norma no início do rádio brasileiro (fim dos anos 1920).
  • Síntese: a pergunta pede o motivo da mudança dessa exclusão durante o Estado Novo. Se o rádio passou a acolher a música popular, isso não foi um gesto isolado de "propaganda ideológica" no sentido abstrato — foi parte de uma estratégia de aproximação com o povo, transformando o rádio em espaço onde a cultura popular circulava e, com ela, se construía adesão e participação das massas ao projeto nacional-populista do governo.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o contexto histórico da mudança

O texto situa a cena em 1927, ainda na Primeira República, quando o rádio era um meio restrito às elites (música erudita, conferências, palestras). A pergunta desloca o foco para o Estado Novo (1937-1945), pedindo o motivo da transformação. Nesse período, Vargas cria o DIP e centraliza o controle da comunicação, mas o objetivo não é apenas "informar" ou "doutrinar" — é construir um Brasil "moderno e unido", em que o governo aparece como mediador entre as classes sociais, sobretudo aproximando-se do operariado urbano.

Subpasso 4.2 — Conectar a mudança de conteúdo (samba/música popular) ao projeto político

Antes, o samba era marginalizado por sua origem popular e associação com a cultura afro-brasileira e os morros cariocas. No Estado Novo, o governo passa a valorizar e incorporar essas manifestações — inclusive financiando e institucionalizando escolas de samba e compositores — como forma de construir uma identidade nacional que incluísse o povo comum. Ao dar voz e espaço a essa cultura no rádio (o mais massivo meio de comunicação da época), o Estado cria um canal através do qual a população se reconhece, se expressa e se sente parte do projeto nacional. Isso é, precisamente, abrir "espaço de mobilização social": o rádio deixa de ser voz exclusiva das elites e passa a ser instrumento de integração e engajamento das camadas populares em torno do regime.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando com as alternativas: a resposta correta precisa explicar por que a cultura popular (e não qualquer conteúdo) ganhou espaço no rádio. Isso aponta diretamente para "favorecer o espaço de mobilização social" (alternativa E), pois descreve o mecanismo de inclusão e engajamento popular — diferente de "ampliar a propaganda político-ideológica" (B), que é mais genérica e não explica especificamente por que a música popular, e não outro tipo de conteúdo, se tornou o vetor dessa mudança.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) exportar as manifestações folclóricas nacionais.

❌ Incorreta: o texto trata do uso interno do rádio, dentro do Brasil, para alcançar a própria população brasileira — não há qualquer menção a exportação de cultura para o exterior. A "exportação" do samba como imagem internacional do Brasil é um fenômeno posterior e distinto da questão aqui tratada.

B) ampliar o alcance da propaganda político-ideológica.

❌ Incorreta: embora o Estado Novo de fato tenha usado o rádio para propaganda (DIP, Hora do Brasil), essa alternativa é ampla e genérica demais — descreveria qualquer regime autoritário que usa mídia para doutrinação, sem explicar o elemento específico do texto: por que justamente a música popular, antes excluída, passou a ocupar esse espaço. A questão não pergunta sobre propaganda de conteúdo político abstrato, mas sobre a inclusão da cultura popular como estratégia de aproximação com as massas.

C) substituir as comemorações cívicas espontâneas.

❌ Incorreta: o texto não menciona comemorações cívicas nem qualquer substituição de festividades espontâneas por eventos oficiais. Essa alternativa introduz um elemento (comemorações cívicas) que não tem relação com a mudança descrita — a inclusão de música popular no rádio.

D) atender às demandas das elites oligárquicas.

❌ Incorreta: o texto mostra exatamente o oposto — antes do Estado Novo, o rádio já atendia às elites (música erudita, conferências); a mudança consistiu em abrir espaço para a cultura popular, associada às classes trabalhadoras e populares, não às oligarquias.

E) favorecer o espaço de mobilização social.

✅ Correta: o Estado Novo instrumentalizou o rádio para incorporar a cultura popular (samba, música popular) que antes era excluída, criando um canal de identificação, participação e adesão das massas ao projeto nacional-populista de Vargas. Essa inclusão funcionou como mecanismo de mobilização e engajamento social, aproximando o governo das camadas populares através de sua própria expressão cultural.

🏆 Gabarito: E — o rádio foi instrumentalizado no Estado Novo para incorporar a cultura popular (antes excluída) como estratégia de aproximação e engajamento das massas com o projeto nacional-populista, abrindo espaço de mobilização social.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E explica o elemento central do texto — a inclusão específica da música popular (samba) — como parte de uma estratégia de integração e engajamento das massas populares ao projeto do Estado Novo.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora a Era Vargas através do binômio autoritarismo/populismo, cobrando a capacidade de identificar como o Estado usava cultura, trabalho e comunicação para construir consentimento popular, e não apenas repressão.
  • Generalização: em questões sobre regimes autoritários e mídia, desconfie de alternativas "genéricas" (como "propaganda ideológica") quando o texto-base traz um elemento específico (aqui, a música popular) — a resposta certa costuma explicar exatamente esse elemento, não o fenômeno em termos vagos.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que contradizem o texto-base (D, pois o texto já mostra que as elites eram atendidas antes) e as que introduzem elementos ausentes do enunciado (A - exportação; C - comemorações cívicas). Restam B e E: escolha a que explica o porquê específico da mudança (inclusão popular), não a mais genérica.
  • Conexões: compare com o uso da imprensa e do cinema pelo DIP, e com o papel do futebol e do carnaval como instrumentos de identidade nacional no mesmo período — temas frequentes em questões sobre cultura e poder na Era Vargas.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.