Mapa de questões · 1º dia
Questão 44 — ENEM 2020 Digital
Seixas era homem honesto; mas ao atrito da secretaria e ao calor das salas, sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível da cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição.
Era incapaz de apropriar-se do alheio, ou de praticar um abuso de confiança; mas professava a moral fácil e cômoda, tão cultivada atualmente em nossa sociedade.
Segundo essa doutrina, tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que se transija com a lei e evite o escândalo.
ALENCAR, J. Senhora. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 out. 2015.
A literatura romântica reproduziu valores sociais em sintonia com seu contexto de mudanças. No fragmento de Senhora, as concepções românticas do narrador repercutem a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → prosa romântica brasileira; posição do narrador diante dos valores que descreve
- ⚡ Nível: Médio — o narrador descreve a moral do personagem sem adjetivar diretamente, e é preciso reconhecer a ironia
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificar a posição das concepções românticas do narrador diante da moral flexível retratada em Senhora
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
Comando reformulado: "O narrador aprova ou reprova a moral flexível de Seixas — e o que isso diz das concepções românticas dele?"
Palavras-chave decisivas: as concepções românticas do narrador repercutem a
Armadilha típica: ler a descrição como neutra. O narrador não usa a palavra "errado", mas escolhe imagens e advérbios que condenam: cera que se molda, moral "fácil e cômoda", "tão cultivada atualmente".
O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato perceba a ironia e conclua que o narrador se opõe à relativização dos princípios que descreve.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
Narrador romântico e crítica de costumes: na segunda metade do romantismo brasileiro, o narrador frequentemente descreve os costumes da corte com ironia, defendendo valores morais estáveis contra o interesse e a aparência.
Ironia por escolha lexical: não é preciso julgar explicitamente: chamar uma moral de "fácil e cômoda" e dizer que ela é "tão cultivada atualmente" já é condená-la.
Relativização ética: transformar princípios em regras negociáveis conforme a conveniência. É exatamente o que a "têmpera flexível da cera" descreve.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
Evidência 1: "Seixas era homem honesto; mas [...] sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível da cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição" → a honestidade é apresentada como deformável. A adversativa desmente o elogio inicial.
Evidência 2: "Era incapaz de apropriar-se do alheio [...] mas professava a moral fácil e cômoda" → segunda adversativa, mesmo movimento: o que parece virtude é logo relativizado.
Evidência 3: "tão cultivada atualmente em nossa sociedade" → o narrador amplia o alcance da crítica do personagem para a sociedade do seu tempo. É denúncia, não constatação neutra.
Evidência 4: "tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que se transija com a lei e evite o escândalo" → a doutrina é resumida em termos que a tornam indefensável: o critério não é o certo, é o não ser flagrado.
Síntese: o narrador expõe uma moral que se adapta à conveniência e o faz com ironia, marcando distância. As concepções românticas que sustentam essa voz são as de princípios que não deveriam ser negociáveis.
Passo 4 — Resolução Passo a Passo
4.1 — Seguir as adversativas
Duas vezes o texto concede uma virtude a Seixas e imediatamente a relativiza com "mas". A estrutura é de desmascaramento.
4.2 — Ler os adjetivos
"Flexível", "fácil", "cômoda" não são elogios. E "se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição" atribui a deformação a motivos baixos.
4.3 — Ler o critério final da doutrina
Transigir com a lei e evitar o escândalo é obedecer à aparência, não à ética. O narrador escolhe formular assim justamente para expor a fragilidade da posição.
4.4 — Verificação
A alternativa certa tem de dizer que o narrador se coloca contra a relativização, e não a favor dela nem indiferente. Só uma diz. Gabarito: A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) resistência à relativização dos parâmetros éticos.
✅ Correta: o narrador descreve a honestidade de Seixas como cera que se molda à vaidade e à ambição, chama a doutrina dele de "moral fácil e cômoda" e observa que ela é "tão cultivada atualmente em nossa sociedade". A escolha das imagens e dos adjetivos marca oposição: princípios não deveriam ser negociáveis.
B) idealização de personagens pela nobreza de atitudes.
❌ Incorreta: Seixas é o oposto de um herói idealizado. O fragmento existe justamente para mostrar como a honestidade dele cede à vaidade e à ambição.
C) crítica aos modelos de austeridade dos espaços coletivos.
❌ Incorreta: inverte a posição do narrador. Ele não critica a austeridade: critica a falta dela, apontando uma moral que se acomoda às conveniências da secretaria e das salas.
D) defesa da importância da família na formação moral do indivíduo.
❌ Incorreta: a família não aparece no fragmento. Os espaços citados são o trabalho ("o atrito da secretaria") e a vida social ("o calor das salas"), e a formação moral discutida é a que se dá neles.
E) representação do amor como fator de aperfeiçoamento do espírito
❌ Incorreta: é a armadilha lexical do item. O amor aparece na frase "tudo é permitido em matéria de amor", que integra a doutrina criticada pelo narrador — ali ele é pretexto para a permissividade, e não instrumento de elevação.
🏆 Gabarito: A — a cera que se molda, a "moral fácil e cômoda" e o critério de apenas evitar o escândalo compõem uma descrição irônica, pela qual o narrador se opõe à ética negociável que retrata.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só A capta a posição do narrador; B e E leem o fragmento como elogio e C inverte o alvo da crítica.
- Padrão de cobrança: José de Alencar cai com frequência pelos romances urbanos, e o recorte costuma ser a crítica dos costumes da corte, não o indianismo.
- A regra geral que se leva: em prosa do século XIX, procure as adversativas e os adjetivos. É por eles que o narrador julga sem parecer julgar.
- Eliminação em 30 segundos: pergunte se o narrador está do lado do personagem. Não estando, todas as alternativas que descrevem virtude ou idealização caem.
- Temas que vêm junto: romantismo brasileiro e romance urbano, ironia como recurso narrativo e casamento por interesse como tema em Senhora.
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