Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2020 Digital
Seu delegado
Eu sou viúvo e tenho um filho homem
Arrumei uma viúva e fui me casar
A minha sogra era muito teimosa
Com o meu filho foi se matrimoniar
Desse matrimônio nasceu um garoto
Desde esse dia que eu ando é louco
Esse garoto é filho do meu filho
E o filho da minha sogra é irmão da minha mulher
Ele é meu neto e eu sou cunhado dele
A minha nora é minha sogra
Meu filho meu sogro é
Nessa confusão já nem sei quem sou
Acaba esse garoto sendo meu avô.
TRIO FORROZÃO. Agitando a rapaziada.
Rio de Janeiro: Natasha Records, 2009.
Nessa letra da canção, a suposição do último verso sinaliza a intenção do autor de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto, gêneros textuais (canção popular), efeitos de sentido e humor
- ⚡ Nível: Médio — as alternativas são conceitualmente próximas (humor, perplexidade, crítica social) e exigem discriminação fina da intenção do autor
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de efeitos de humor construídos por recursos linguísticos em texto verbal (canção)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que o autor termina a canção com a conclusão logicamente absurda de que o garoto é avô de quem o criou?"
- Palavras-chave decisivas: suposição, último verso, intenção do autor
- Armadilha típica: confundir o efeito de humor construído ao longo de todo o texto com uma suposta crítica social às "relações familiares modernas" ou com uma reflexão filosófica/existencial — leituras que soam sofisticadas, mas não têm respaldo no tom do texto.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de relacionar o verso final ao projeto de texto como um todo (gênero, tom, contexto de produção), e não interpretá-lo isoladamente como se fosse um desabafo sério.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gênero canção humorística de forró: textos desse tipo, tocados por "trios forrozões" em festas populares, têm finalidade primordialmente lúdica e de entretenimento — constroem comicidade a partir de situações cotidianas levadas ao exagero.
- Humor por acúmulo/gradação (estrutura de piada): a graça nasce da repetição crescente de trocas de papéis familiares (nora vira sogra, filho vira sogro, neto vira cunhado...) até estourar num paradoxo final impossível — recurso clássico de "arremate" cômico (punchline).
- Intenção do autor via projeto de texto: para identificar a intenção comunicativa de um trecho, é preciso lê-lo em função do conjunto (título, epígrafe, tom predominante), não isoladamente; um verso final "estranho" em texto cômico tende a reforçar o efeito já instaurado, não a introduzir um registro novo (crítico ou filosófico).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "TRIO FORROZÃO. Agitando a rapaziada." → indica explicitamente o gênero e a finalidade do texto: música de festa, feita para divertir, e não para promover reflexão sociológica.
- Evidência 2: "Nessa confusão já nem sei quem sou" → o eu lírico já assume, antes do último verso, que está enredado numa trama cômica de parentescos; a confusão é o mote da canção inteira, não uma surpresa reservada para o final.
- Evidência 3: "Acaba esse garoto sendo meu avô." → conclusão logicamente impossível (um recém-nascido não pode ser avô de ninguém); funciona como o ápice da cadeia de disparates, o golpe final que corta a respiração de quem ouve — típico fecho de piada.
- Síntese: toda a canção é organizada em torno do riso: cada verso acrescenta uma relação de parentesco mais estapafúrdia que a anterior, e o último verso é o clímax dessa progressão. Logo, sua função é intensificar — reforçar — o humor já presente, não abrir uma nova camada de sentido crítico ou existencial.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e a finalidade comunicativa
A referência "Trio Forrozão" e a indicação "Agitando a rapaziada" deixam claro que se trata de uma canção de forró, gênero associado a festas, brincadeiras e sociabilidade popular no Nordeste. Esse dado de contexto orienta toda a leitura: não se espera de uma canção de forró um tom grave ou uma denúncia social, e sim humor, jogo de palavras e situações hiperbólicas para animar o público.
Subpasso 4.2 — Mapear a progressão cômica da letra
Observe a sequência de trocas de papel: o eu lírico se casa com uma viúva (1); o filho dele se casa com a filha da viúva (2); nasce um garoto que é, ao mesmo tempo, neto do eu lírico e irmão da esposa dele (3); a nora vira sogra e o filho vira sogro (4); e, por fim, o garoto recém-nascido "acaba sendo" avô do próprio pai/avô (5). Cada verso aumenta o grau de absurdo lógico, numa gradação deliberada que é a espinha dorsal do humor da canção — mecanismo muito usado em piadas e canções cômicas populares.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se o último verso fosse uma crítica social, esperaríamos um tom de denúncia ou ironia mordaz sobre costumes — não há isso no texto. Se fosse uma dúvida existencial, esperaríamos um tom introspectivo e angustiado — o texto é, ao contrário, leve e brincalhão do início ao fim ("Desde esse dia que eu ando é louco" já soa cômico, não trágico). A única leitura compatível com o gênero, o tom e a estrutura de gradação identificada é a de que o verso final potencializa o riso: reforça o humor da situação. Isso confirma a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) ironizar as relações familiares modernas.
❌ Incorreta: a canção não trata de "modernidade" nas relações familiares — a trama nasce de casamentos entre viúvos, situação atemporal e comum em qualquer época —, tampouco há intenção irônica de criticar costumes contemporâneos. O foco é o jogo verbal com os graus de parentesco, não um comentário sobre a sociedade atual.
B) reforçar o humor da situação representada.
✅ Correta: o último verso é o ápice de uma progressão cômica construída verso a verso; a suposição impossível (o garoto sendo avô de quem o gerou) funciona como o "arremate" da piada, potencializando o riso já provocado pelas trocas de parentesco anteriores — coerente com o gênero canção de forró, feita para "agitar a rapaziada".
C) expressar perplexidade em relação ao parente.
❌ Incorreta: a perplexidade do eu lírico já havia sido verbalizada antes ("Nessa confusão já nem sei quem sou"); o verso final não introduz um novo estado emocional de espanto, mas sim leva o raciocínio da canção ao extremo absurdo com finalidade cômica — a função é gerar riso, não expressar aturdimento genuíno diante do neto/avô.
D) atribuir à criança a causa da dúvida existencial.
❌ Incorreta: não há "dúvida existencial" na canção — o registro é jocoso do primeiro ao último verso. Além disso, a criança não é apontada como causadora de sofrimento algum: ela é apenas consequência lógica (e cômica) dos dois casamentos cruzados, sem carga de culpa ou angústia atribuída a ela.
E) questionar os lugares predeterminados da família.
❌ Incorreta: o texto não problematiza papéis e hierarquias familiares como uma reflexão sociológica; ele apenas explora, de forma lúdica e exagerada, o resultado inusitado de um enredo específico de casamentos, sem qualquer intenção de discutir estruturas familiares em geral.
🏆 Gabarito: B — o último verso é o ponto culminante de uma gradação cômica cuidadosamente construída ao longo de toda a canção, e sua função é intensificar o humor da situação representada, não introduzir crítica social ou reflexão existencial.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa compatível com o gênero (canção de forró festiva), o tom (leve e brincalhão do início ao fim) e a estrutura do texto (gradação cômica que culmina no paradoxo do último verso).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente o reconhecimento de efeitos de sentido e de humor em textos verbais e verbo-visuais — canções, crônicas, tirinhas e memes —, sempre pedindo que o candidato identifique a intenção comunicativa por trás de um recurso expressivo específico.
- Generalização: ao ler um texto de humor no ENEM, associe qualquer recurso "estranho" (exagero, contradição, absurdo lógico) à função de reforçar a comicidade do gênero, salvo se houver marcas explícitas no próprio texto de crítica social ou de outro efeito pretendido.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que atribuem tom sério, filosófico ou crítico (como "existencial", "modernas", "questionar") a um texto claramente identificado como cômico/festivo pelo contexto (aqui, "Trio Forrozão" já é a pista definitiva).
- Conexões: o mesmo raciocínio se aplica a questões sobre humor em crônicas, piadas, tirinhas e canções de humor popular brasileiro (repente, cordel, forró), nas quais o exagero e o absurdo funcionam quase sempre como intensificadores do riso.
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