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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaDifícil

Questão 80ENEM 2020 Digital

O termo manipulação significa uma consciente intervenção técnica em um material dado. Se a intervenção é de uma importância social imediata, a manipulação constitui um ato político. É o caso da indústria da consciência. Assim, toda utilização de meios pressupõe uma manipulação. Os mais elementares processos de produção constituem intervenções no material existente. Portanto, escrever, filmar ou emitir sem manipulação não existe. Por conseguinte, a questão não é se os meios são manipulados ou não, mas quem manipula os meios.

ENZENSBERGER, H. M. Elementos para uma teoria dos meios de comunicação.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1979 (adaptado).

Esse entendimento acerca dos meios de comunicação, produzido na década de 1970, contesta o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Indústria cultural, meios de comunicação de massa e ideologia
  • ⚡ Nível: Difícil — o texto de Enzensberger é abstrato, escrito em cadeia lógica (premissa → premissa → conclusão), e exige que o(a) candidato(a) identifique não o que o autor afirma, mas a crença do senso comum que ele está desmontando
  • 🎯 Tema/Habilidade: Crítica à "indústria da consciência" e ao mito da neutralidade técnica dos meios de comunicação — competência de leitura e análise de textos teóricos das Ciências Humanas (área de Sociologia da Comunicação)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual crença sobre os meios de comunicação esse trecho de Enzensberger desmonta?"
  • Palavras-chave decisivas: manipulação, intervenção técnica, elementares processos de produção
  • Armadilha típica: confundir "manipulação dos meios" com "controle do Estado sobre a mídia" (E) ou com "defesa de interesses privados" (B) — o texto não fala em quem manipula (governo, empresa), mas no fato estrutural de que manipular é inevitável em qualquer produção midiática, por mais elementar que seja
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que o alvo da crítica de Enzensberger é a ideia de que recortar, selecionar e editar o conteúdo informativo é um gesto técnico neutro, e não político

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Indústria da consciência (Bewusstseins-Industrie): conceito de Enzensberger para o conjunto de meios (imprensa, rádio, TV, cinema) que produzem e distribuem em massa representações da realidade, moldando a consciência coletiva.
  • Manipulação como categoria técnica, não moral: para o autor, "manipular" não é sinônimo de "enganar" — é qualquer intervenção consciente sobre um material (cortar, editar, selecionar, enquadrar). Logo, toda produção de conteúdo, por mais básica que seja, já é uma manipulação.
  • Deslocamento do problema: o texto não pergunta "os meios manipulam?" (resposta óbvia: sim, sempre), mas "quem manipula os meios?" — transferindo o debate da existência da manipulação para o controle sobre ela.
  • Naturalização do processo de produção: o senso comum tende a achar que selecionar, recortar e organizar informação — isto é, fragmentá-la em notas, boletins e reportagens — é apenas uma exigência técnica de tempo e espaço editorial, um procedimento "neutro" e não uma escolha política.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Os mais elementares processos de produção constituem intervenções no material existente" → mesmo o corte, a seleção e a montagem mais básicos de uma reportagem — a fragmentação do material bruto em pedaços editáveis — já são um ato de intervenção, não um procedimento neutro.
  • Evidência 2: "escrever, filmar ou emitir sem manipulação não existe" → não há grau zero de produção midiática; toda vez que alguém recorta, seleciona e organiza informação em fragmentos de notícia, já está exercendo poder sobre o material.
  • Evidência 3: "a questão não é se os meios são manipulados ou não, mas quem manipula os meios" → o autor descarta a ideia de que exista uma forma "pura" de apresentar informação; o que está em jogo é quem decide como o conteúdo bruto será fragmentado e reorganizado em produto midiático.
  • Síntese: o texto ataca a crença de que o processo técnico de produção — selecionar, cortar, editar, ou seja, fragmentar o "material existente" em unidades de notícia — seria um procedimento neutro, dado pela técnica em si. Enzensberger mostra que esse processo, por mais elementar que pareça, é sempre um ato de intervenção deliberada.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o que está sendo definido

O texto abre definindo "manipulação" como "consciente intervenção técnica em um material dado". Isso já sinaliza ao leitor que o autor está falando do processo de produção em si — como o conteúdo bruto vira produto midiático —, não de quem é o dono do veículo ou de qual ideologia ele defende.

Subpasso 4.2 — Acompanhar a cadeia lógica até a conclusão

A cadeia argumentativa é: intervenção técnica = manipulação → se tem importância social, é ato político → toda utilização de meios pressupõe manipulação → os processos mais elementares de produção (cortar, selecionar, editar — isto é, fragmentar o material em partes utilizáveis) já são intervenção → logo, não existe comunicação sem manipulação. A conclusão final reformula o problema: a pergunta certa não é "existe manipulação?", mas "quem manipula?".

Subpasso 4.3 — Verificação: o que essa cadeia contesta?

Essa cadeia lógica só faz sentido como crítica a uma ideia que ela nega. A ideia negada é: "produzir e apresentar informação — recortá-la, selecioná-la, fragmentá-la em notas e reportagens — é um procedimento técnico neutro, sem intenção por trás". Ao afirmar que "os mais elementares processos de produção constituem intervenções", Enzensberger desmonta exatamente essa crença: a de que o ato técnico de fragmentar o conteúdo informativo em unidades de notícia seria isento de intenção. Confrontando com as cinco alternativas, isso corresponde a "fragmentação do conteúdo informativo" (C): o texto contesta a ideia de que esse processo de fragmentação — recorte, seleção, edição — seja neutro e dado apenas por exigências técnicas, revelando-o como um ato deliberado de quem controla os meios.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) neutralidade dos mecanismos midiáticos.

❌ Incorreta: é a armadilha mais sedutora da questão, porque soa como uma paráfrase óbvia de "manipulação". Mas o texto não discute genericamente se "os mecanismos midiáticos" são ou não neutros como categoria abstrata — ele localiza o argumento especificamente nos processos elementares de produção (recortar, selecionar, editar, ou seja, fragmentar o material bruto). "Neutralidade dos mecanismos" é ampla e imprecisa demais para captar o ponto fino do texto, que está centrado no ato técnico-produtivo de organizar e fragmentar o conteúdo, e não nos "mecanismos" midiáticos em geral.

B) valorização dos interesses particulares.

❌ Incorreta: o texto não discute se os meios defendem interesses privados versus coletivos — essa distinção não aparece em nenhum momento do trecho. Enzensberger fala do ato de produzir (intervir tecnicamente no material), não do conteúdo ideológico ou dos interesses por trás da mensagem.

C) fragmentação do conteúdo informativo.

✅ Correta: o núcleo do argumento é que "os mais elementares processos de produção" — isto é, selecionar, recortar e reorganizar o "material existente" em unidades de notícia (fragmentá-lo) — já constituem intervenção, e não um procedimento técnico neutro. O senso comum trata essa fragmentação (a edição, o corte, a montagem de boletins e reportagens) como mera exigência de formato; Enzensberger contesta essa naturalização, mostrando que fragmentar já é manipular.

D) crescimento do mercado jornalístico.

❌ Incorreta: o texto não trata de expansão, lucro ou dimensão econômica da indústria jornalística. O foco é epistemológico e técnico — o que significa "manipular" um material —, não mercadológico.

E) controle do poder estatal.

❌ Incorreta: Enzensberger não menciona o Estado nem discute censura ou regulação governamental. A frase final ("quem manipula os meios") pode até incluir agentes estatais entre os possíveis manipuladores, mas o texto não afirma nem pressupõe controle estatal — ele fala do ato de produção em si, que pode ser exercido por qualquer agente, público ou privado.

🏆 Gabarito: C — o texto contesta a crença de que o recorte, a seleção e a edição do conteúdo informativo (sua fragmentação em unidades de notícia) sejam um procedimento técnico neutro; para Enzensberger, esse processo elementar de produção já é, em si, manipulação.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C reproduz com precisão o argumento central do texto — que a etapa mais básica da produção midiática, a fragmentação e edição do material bruto, é sempre uma intervenção consciente, contrariando a ideia de que se trata de um procedimento neutro ditado apenas pela técnica.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa textos da Escola de Frankfurt e de teóricos da comunicação (Adorno, Horkheimer, Enzensberger, McLuhan) para testar se o aluno consegue distinguir "o que o autor defende" de "o que o autor está refutando" — a pergunta quase sempre pede o alvo da crítica, não uma paráfrase do texto.
  • Generalização: em questões de "esse texto contesta o(a)...", a resposta correta é sempre a crença/ideia oposta à tese defendida pelo autor — leia o texto identificando a tese e depois procure, nas alternativas, a negação exata (não uma paráfrase genérica) dela.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de cara qualquer alternativa que introduza elemento ausente do texto (Estado, mercado, interesses privados) — em Enzensberger só há "produção", "técnica" e "intervenção"; isso já elimina B, D e E, restando a escolha fina entre A (genérica) e C (específica e ancorada no trecho sobre os "processos elementares de produção").
  • Conexões: compare com textos de Adorno/Horkheimer sobre indústria cultural (padronização e pseudoindividualização do produto cultural) e com debates contemporâneos sobre curadoria algorítmica de redes sociais — ambos retomam a mesma pergunta: quem decide o que fica e o que é cortado da informação que chega ao público.

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