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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 27ENEM 2020 Digital

Caminhando contra o vento,
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bombas e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

VELOSO, C. Alegria, alegria. In: Caetano Veloso.
São Paulo: Phillips, 1967 (fragmento).

É comum coexistirem sequências tipológicas em um mesmo gênero textual. Nesse fragmento, os tipos textuais que se destacam na organização temática são

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Tipologia Textual (sequências tipológicas em textos poéticos/canção)
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, dentro de um mesmo gênero (a canção), duas sequências tipológicas diferentes operando ao mesmo tempo, e não apenas identificar "do que o texto fala".
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de tipos textuais (narração, descrição, dissertação, exposição, injunção) e da coexistência de tipologias em um único gênero — competência de leitura da área de Linguagens (H5/H6, eixo de gêneros e tipos textuais).
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Quais dois tipos textuais predominam na organização do fragmento da canção, e por quê?"
  • Palavras-chave decisivas: coexistirem sequências tipológicas, mesmo gênero textual, organização temática
  • Armadilha típica: confundir "tipo textual" com "tema/assunto" — o aluno lê que a letra fala de política, guerra, celebridades e conclui (erroneamente) que há argumentação ou dissertação, quando na verdade o eu lírico apenas relata o que vê enquanto caminha, sem defender tese alguma.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar corretamente os dois tipos textuais presentes E justificar com um motivo que corresponda de fato ao comportamento linguístico do texto (verbos de ação/movimento + trechos de caracterização de cenas), não apenas "soar plausível".

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Tipo narrativo: organiza-se em torno de uma sucessão de ações/eventos vividos por um sujeito, geralmente marcada por verbos de ação e progressão no tempo/espaço. Aqui aparece no eixo "eu vou", que se repete como fio condutor do deslocamento do eu lírico pela cidade.
  • Tipo descritivo: apresenta características, qualidades e elementos de um cenário, pessoa ou situação, geralmente por meio de substantivos e enumerações, sem indicar necessariamente progressão temporal. Aparece nos trechos que "fotografam" o que o eu lírico vê ao redor.
  • Tipo dissertativo/argumentativo: apresenta um ponto de vista sobre um tema e busca sustentá-lo com argumentos, sendo mais analítico do que sensorial — não há isso no poema, que apenas registra impressões, sem elaborar teses.
  • Tipo expositivo: organiza e explica informações de forma mais objetiva e didática, sem opinião marcada — também ausente na canção, que é subjetiva e sensorial.
  • Tipo injuntivo: dá instruções, ordens ou orientações ao interlocutor (verbos no imperativo), como em receitas ou manuais — não há nenhuma instrução dirigida a um "você" no poema.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Caminhando contra o vento (...) Eu vou" → marca o eixo narrativo: o eu lírico relata seu deslocamento físico pela cidade, uma ação que se repete e estrutura toda a canção como um percurso.
  • Evidência 2: "O sol se reparte em crimes / Espaçonaves, guerrilhas / Em cardinales bonitas (...) Em caras de presidentes / Em grandes beijos de amor / Em dentes, pernas, bandeiras / Bombas e Brigitte Bardot" → é uma enumeração de imagens e cenas que caracterizam o que o eu lírico observa nas bancas de revista — função tipicamente descritiva, sem progressão de ações, apenas justaposição de elementos visuais.
  • Síntese: o texto alterna, de forma recorrente, o relato do movimento do sujeito ("eu vou", "caminhando") com a enumeração/caracterização das cenas e imagens que ele vê pelo caminho (o sol "se reparte em" tantas coisas). Isso corresponde exatamente à combinação narrativo + descritivo: conta-se uma trajetória enquanto se descreve o cenário atravessado.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o fio condutor narrativo

O verso "Eu vou", repetido como refrão ao final de cada estrofe, funciona como o elemento que sustenta a progressão da canção: o eu lírico está em deslocamento contínuo ("Caminhando contra o vento"), atravessando a cidade "No sol de quase dezembro". Esse é o traço definidor do tipo narrativo — uma sucessão de ações protagonizadas por um sujeito ao longo de um percurso.

Subpasso 4.2 — Isolar o fio condutor descritivo

Paralelamente ao deslocamento, o texto acumula uma série de imagens que caracterizam o que está sendo visto: "crimes", "espaçonaves", "guerrilhas", "cardinales bonitas", "caras de presidentes", "grandes beijos de amor", "dentes, pernas, bandeiras", "Bombas e Brigitte Bardot". Note que esses elementos não avançam uma ação — eles se justapõem, como um mosaico de capas de revista vistas nas bancas. Essa enumeração de qualidades/cenas é o traço definidor do tipo descritivo.

Subpasso 4.3 — Verificação

Somando os dois movimentos: o eu lírico narra sua caminhada pela cidade ("eu vou") e, simultaneamente, descreve o que encontra pelo caminho (as bancas de revista com suas imagens fragmentadas do mundo). Não há defesa de tese (descarta dissertativo/argumentativo), não há explicação objetiva de conceitos (descarta expositivo) e não há instrução a um interlocutor (descarta injuntivo). A combinação que resta, e que de fato descreve o comportamento do texto, é narrativo + descritivo — compatível apenas com a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) descritivo e argumentativo, pois o enunciador detalha cada lugar por onde passa, argumentando contra a violência urbana.

❌ Incorreta: o texto de fato tem traço descritivo, mas não há argumentação — o eu lírico não constrói uma tese contra a violência urbana nem sustenta um ponto de vista com argumentos; ele apenas relata impressões soltas (inclusive "crimes" e "bombas" aparecem lado a lado com "cardinales bonitas" e "beijos de amor", sem juízo de valor explícito).

B) dissertativo e argumentativo, pois o enunciador apresenta seu ponto de vista sobre as notícias relativas à cidade.

❌ Incorreta: confunde tema (as notícias das bancas de revista) com tipologia. O eu lírico registra o que vê e sente ("Me enche de alegria e preguiça"), mas não elabora argumentos nem defende uma tese sobre as notícias — não há estrutura dissertativo-argumentativa no texto.

C) expositivo e injuntivo, pois o enunciador fala de seus estados físicos e psicológicos e interage com a mulher amada.

❌ Incorreta: não há sequência expositiva (explicação objetiva de informações) nem injuntiva (instruções/comandos a um interlocutor); além disso, a referência à "mulher amada" é uma leitura equivocada do fragmento, que não estabelece diálogo ou interação direta com uma interlocutora.

D) narrativo e descritivo, pois o enunciador conta sobre suas andanças pelas ruas da cidade ao mesmo tempo que a descreve.

✅ Correta: é exatamente essa a dupla tipológica que organiza o fragmento — o relato do percurso do eu lírico ("Caminhando", "Eu vou") entrelaçado com a descrição das cenas e imagens vistas pelo caminho (o sol que "se reparte em" crimes, guerrilhas, cardinales, presidentes, beijos, bandeiras, bombas e Brigitte Bardot).

E) narrativo e injuntivo, pois o enunciador ensina o interlocutor como andar pelas ruas da cidade contando sobre sua própria experiência.

❌ Incorreta: o traço narrativo até está presente, mas não há injunção — o eu lírico não dá instruções nem orienta um interlocutor sobre como caminhar; ele apenas narra sua própria experiência, em primeira pessoa, sem se dirigir a um "você" que deva seguir seus passos.

🏆 Gabarito: D — o fragmento articula o relato da caminhada do eu lírico pela cidade (tipo narrativo) com a caracterização das cenas e imagens vistas nas bancas de revista pelo caminho (tipo descritivo), sem qualquer traço de argumentação, exposição objetiva ou injunção.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D combina corretamente os dois tipos textuais presentes (narrativo e descritivo) com uma justificativa fiel ao comportamento do texto — contar o percurso enquanto descreve o que é visto nele.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra tipologia textual com frequência em textos literários (poemas, letras de música, crônicas), sempre pedindo que o candidato identifique como dois ou mais tipos se combinam dentro de um único gênero — a "armadilha" é sempre confundir tema/assunto com tipo textual.
  • Generalização: para identificar o tipo narrativo, procure verbos de ação com progressão temporal/espacial e um sujeito que "faz coisas"; para o descritivo, procure enumerações de características, qualidades e cenas, sem avanço de ação; para dissertativo/argumentativo, exija uma tese defendida com argumentos — sua ausência já elimina metade das alternativas em textos poéticos/subjetivos.
  • Dica de eliminação rápida: sempre que a alternativa mencionar "argumentando", "defende um ponto de vista" ou "ensina/instrui o interlocutor" em um poema ou canção que apenas narra impressões pessoais, desconfie — são pistas de que a banca está tentando emprestar ao texto uma intenção (argumentativa ou injuntiva) que ele não tem.
  • Conexões: este tema dialoga com "gêneros e sequências textuais" (como um mesmo gênero — carta, canção, crônica — mistura tipos) e com "Tropicalismo e linguagem poética engajada" (o contexto histórico-cultural de "Alegria, alegria", de 1967, marco da contracultura brasileira em plena ditadura militar).

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