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Questão 27ENEM 2020 Digital

Como o preconceito contribui para o aumento da epidemia de aids

Apesar dos avanços da medicina, a mentalidade em relação à aids e ao HIV continua na década de 1980.

O último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, de 2016, mostrou que os casos de HIV entre os jovens no Brasil aumentaram consideravelmente. O problema avançou: das 32 321 novas infecções por HIV registradas em 2015, 24,8% aconteceram com pessoas entre 15 e 24 anos.

Muitos apontam como causa o fato de que os adolescentes não conviveram com o auge da epidemia. Mas, para os especialistas, a questão é bem mais complexa. “Continuamos com essa visão hipócrita de que falar sobre sexo incita os mais jovens, e não damos ferramentas para que eles tomem decisões mais seguras em relação à sexualidade”, afirma Georgiana Braga-Orillard, diretora do Unaids, programa conjunto da ONU sobre HIV e aids, que tem como meta acabar com a epidemia até 2030.

A questão do preconceito não pode ser separada de uma síndrome estigmatizante como a aids. Leis como a que garante o tratamento gratuito pelo SUS e a que penaliza atos de discriminação ajudam, mas não são suficientes para mudar a mentalidade da sociedade, que ainda enxerga quem vive com o vírus como um “merecedor”. Além disso, o acesso à saúde e à orientação não é igual para todos.

Disponível em: http://revistaplaneta.terra.com.br. Acesso em: 2 set. 2017 (adaptado).

Essa reportagem discute o preconceito de não se falar abertamente sobre sexo com os mais jovens como um fator responsável pelo avanço do número de casos de aids no Brasil. A estratégia usada pelo repórter para tentar desconstruir esse preconceito é

Alternativas

Resolução

📋 Ficha da questão

  • Matéria: Português → Estratégias argumentativas → argumento de autoridade na reportagem
  • Habilidade: H24 — reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público
  • Nível: Médio — todos os elementos citados pelos distratores estão na reportagem; a questão é qual deles combate o preconceito nomeado no comando
  • Gabarito: revelado no Passo 4

🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando

  • O comando, em uma linha: qual recurso o repórter usa para desmontar a ideia de que não se deve falar abertamente de sexo com os jovens.
  • Palavras-chave decisivas: estratégia usada pelo repórter, desconstruir esse preconceito.
  • A armadilha: escolher um dado que está no texto mas que descreve o problema em vez de combatê-lo. Os números de infecção, a menção ao "merecedor" e a desigualdade de acesso estão todos ali — e nenhum deles ataca o tabu de falar sobre sexo.
  • O que a resposta precisa mostrar: que você distingue informação apresentada de recurso argumentativo, e que localiza qual trecho responde exatamente ao preconceito citado no enunciado.

📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo

  • Estratégia argumentativa: o recurso que o autor mobiliza para levar o leitor a aceitar uma tese. Não se confunde com o conteúdo informativo do texto: uma reportagem pode trazer muitos dados e usar só um deles como argumento central.
  • Argumento de autoridade: consiste em trazer para o texto a fala de um especialista ou de uma instituição reconhecida no assunto, de modo que a credibilidade dessa fonte sustente a tese defendida. Reconhece-se pelo discurso direto entre aspas seguido da identificação do cargo de quem fala.
  • Discurso direto na reportagem: a citação literal com aspas e verbo dicendi — "afirma", "diz", "explica" — marca a entrada de outra voz no texto. O repórter não assume a afirmação em nome próprio: ele a empresta de quem tem autoridade para fazê-la.
  • Argumento por dados estatísticos: números e percentuais que dimensionam um fenômeno. Servem para provar que o problema existe e é grave, mas não explicam a causa nem refutam uma crença.
  • Contra-argumentação: movimento em que o texto apresenta uma explicação corrente e em seguida a relativiza ou rejeita. Marca-se por conectivos adversativos — "mas", "porém", "no entanto". Quem lê rápido pode tomar a tese apresentada para ser refutada como se fosse a tese do texto.
  • Tese e preconceito em jogo: o preconceito nomeado no comando é a ideia de que falar de sexo com jovens é inadequado. Desconstruí-lo exige uma afirmação sobre o efeito do silêncio — e é isso que a fala citada faz.

🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado

  • Evidência 1: "Continuamos com essa visão hipócrita de que falar sobre sexo incita os mais jovens, e não damos ferramentas para que eles tomem decisões mais seguras em relação à sexualidade" → é a única passagem do texto que ataca frontalmente o tabu: nomeia a crença como hipócrita e mostra a consequência prática do silêncio.
  • Evidência 2: "afirma Georgiana Braga-Orillard, diretora do Unaids, programa conjunto da ONU sobre HIV e aids" → o trecho anterior está entre aspas e é atribuído a uma especialista, identificada pelo cargo e pela instituição internacional que dirige. Discurso direto e credencial: argumento de autoridade completo.
  • Evidência 3: "das 32 321 novas infecções por HIV registradas em 2015, 24,8% aconteceram com pessoas entre 15 e 24 anos" → dados que dimensionam o avanço da epidemia entre jovens. Estabelecem o problema; não dizem nada sobre falar ou não falar de sexo.
  • Evidência 4: "Muitos apontam como causa o fato de que os adolescentes não conviveram com o auge da epidemia. Mas, para os especialistas, a questão é bem mais complexa" → o adversativo "mas" mostra que essa explicação é apresentada para ser relativizada. Não é a posição do texto.
  • Evidência 5: "a sociedade (...) ainda enxerga quem vive com o vírus como um 'merecedor'" e "o acesso à saúde e à orientação não é igual para todos" → descrevem outros preconceitos e desigualdades, mas não o tabu da conversa sobre sexo.
  • Síntese: de tudo o que a reportagem traz, só uma passagem enfrenta o preconceito citado no comando, e ela chega ao texto pela boca de uma autoridade no tema.

🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo

4.1 — Isolar o preconceito que precisa ser desconstruído

O comando não pergunta como o repórter mostra que a aids avança. Pergunta como ele desmonta um preconceito específico: o de que não se deve falar abertamente de sexo com os mais jovens. Qualquer alternativa que não responda a esse ponto está fora, por mais verdadeira que seja.

4.2 — Localizar onde o texto enfrenta esse preconceito

Percorrendo a reportagem parágrafo a parágrafo:

  • 1º parágrafo — a mentalidade sobre aids parou nos anos 1980. Contextualiza.
  • 2º parágrafo — números de infecção entre jovens. Dimensiona.
  • 3º parágrafo — apresenta a explicação corrente e a rejeita com "mas"; em seguida, traz a fala da diretora do Unaids. É aqui que o tabu é atacado.
  • 4º parágrafo — estigma, leis e desigualdade de acesso. Amplia o quadro.

Só o terceiro parágrafo responde ao comando.

4.3 — Identificar o recurso empregado nesse trecho

A frase que desmonta o tabu não é escrita pelo repórter em nome próprio. Ela vem entre aspas, atribuída a Georgiana Braga-Orillard, apresentada como diretora do Unaids, programa da ONU dedicado ao tema. O repórter empresta a autoridade da fonte para sustentar a crítica — é a definição de argumento de autoridade.

Repare no efeito: dita pelo jornalista, a palavra "hipócrita" soaria opinião. Dita pela diretora de um programa da ONU sobre HIV, torna-se avaliação técnica.

4.4 — Verificação

O trecho encontrado é o único que trata do preconceito nomeado no comando, e o recurso que o introduz no texto é a citação direta de uma especialista. Gabarito: A.

✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas

(A) trazer para seu texto trecho que apresenta a palavra de uma autoridade na área — Descreve exatamente o que o terceiro parágrafo faz. A crítica ao tabu aparece entre aspas — "essa visão hipócrita de que falar sobre sexo incita os mais jovens" — e é atribuída a Georgiana Braga-Orillard, diretora do Unaids. O repórter não afirma por conta própria: sustenta a desconstrução na credibilidade de quem dirige o programa da ONU sobre o assunto. Discurso direto mais credencial institucional é a marca formal do argumento de autoridade.

(B) alertar para o fato de que o portador do vírus da aids é tido como um "merecedor" — O trecho existe e é forte, mas trata de outro preconceito: o estigma sobre quem vive com o vírus. Além disso, apontar que a sociedade pensa assim descreve o preconceito em vez de desconstruí-lo. Troca-se o alvo que o comando definiu.

(C) tornar públicas estatísticas que comprovam o aumento no número de casos da doença — Os números estão lá: 32 321 novas infecções em 2015 e 24,8% delas entre pessoas de 15 a 24 anos. Eles provam que a epidemia avança entre jovens, mas não dizem nada sobre a conversa a respeito de sexo. Dado estatístico dimensiona o problema; não refuta uma crença sobre educação sexual.

(D) informar que os jovens de hoje desconhecem os piores momentos da epidemia de aids — Inverte a posição do texto. Essa explicação aparece introduzida por "muitos apontam" e é imediatamente relativizada: "Mas, para os especialistas, a questão é bem mais complexa". O repórter traz a ideia para afastá-la, e a alternativa a apresenta como se fosse a estratégia dele.

(E) comprovar que as informações sobre a doença e seu tratamento são inacessíveis a todos — Apoia-se na frase final, "o acesso à saúde e à orientação não é igual para todos". A alternativa endurece o que o texto diz — desigualdade de acesso não é inacessibilidade — e usa o verbo "comprovar", quando a reportagem apenas menciona o ponto, sem apresentar prova. E, de novo, o assunto é acesso a serviços, não o tabu da conversa sobre sexo.

Gabarito: A — a crítica ao silêncio sobre sexualidade entra no texto pela citação direta da diretora do Unaids, e é a autoridade dessa fonte que sustenta a desconstrução do preconceito.

🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova

  • Por que só A se sustenta: B, C e E deslocam o alvo para outros preconceitos ou para o dimensionamento do problema; D transforma em tese do repórter uma explicação que ele rejeita. Só A responde ao preconceito nomeado no comando e identifica corretamente o recurso.
  • Como o ENEM cobra isso: reportagens e artigos de opinião aparecem com o comando "a estratégia argumentativa utilizada é". Os distratores costumam listar informações verdadeiras do texto que não cumprem função argumentativa.
  • A regra geral: informação e argumento não são a mesma coisa. Dado prova que o problema existe; citação de especialista, comparação, exemplo e concessão é que convencem. Localize primeiro o parágrafo que trata do ponto do comando; o recurso está ali dentro.
  • Eliminação em 30 segundos: procure as aspas. Em texto jornalístico, citação entre aspas com o cargo do falante logo depois é, quase sempre, argumento de autoridade — e é o que o item quer.
  • Temas que costumam vir junto: discurso direto e indireto, verbos dicendi, conectivos adversativos e contra-argumentação, e a diferença entre tese, argumento e dado de apoio.

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