Mapa de questões · 1º dia
Questão 85 — ENEM 2020 Digital
Num mundo como o nosso, por um lado marcado pela fluidez do espaço, as questões ligadas à circulação se tornam ainda mais relevantes e, com elas, a situação de um dos componentes mais emblemáticos dos territórios: seus limites. E é aí que surge um dos grandes paradoxos da geografia contemporânea: ao lado da fluidez globalizada aparecem também os fechamentos, as tentativas de controle da circulação de pessoas.
HAESBAERT, R. Da multiterritorialidade aos novos muros: paradoxos da desterritorialização contemporânea.
Disponível em: www.posgeo.uff.br. Acesso em: 2 jan. 2013 (adaptado).
O texto aborda um paradoxo marcante do mundo contemporâneo, que consiste na oposição entre
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Globalização, território e fronteiras
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um conceito teórico (paradoxo da desterritorialização) com um exemplo concreto do mundo contemporâneo, sem apoio de dados numéricos ou gráficos.
- 🎯 Tema/Habilidade: Paradoxos da globalização: fluidez econômica versus controle político das fronteiras (Competência de área 5 do ENEM — território, redes e circulação).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual par de elementos representa, no mundo atual, a contradição entre abertura e fechamento territorial descrita pelo autor?"
- Palavras-chave decisivas: fluidez do espaço, paradoxo, fechamentos/controle da circulação de pessoas
- Armadilha típica: confundir o paradoxo geográfico central (fronteiras abertas para o capital, fechadas para pessoas) com paradoxos econômicos ou sociais genéricos, como desemprego tecnológico ou desigualdade, que não tratam especificamente de fronteiras e circulação.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que a contradição apontada por Haesbaert opõe a livre circulação de fluxos econômicos (capital, mercadorias, informação) à restrição da circulação de pessoas por meio de fronteiras físicas e políticas — ou seja, um par que envolva explicitamente "abertura de mercado" de um lado e "barreira/fronteira" de outro.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Fluidez do espaço / espaço de fluxos: conceito de que a globalização, apoiada em tecnologias de transporte, comunicação e finanças, tornou o espaço mundial mais interconectado, permitindo que capital, mercadorias e informação circulem com velocidade e liberdade crescentes.
- Desterritorialização e multiterritorialidade (Haesbaert): o geógrafo Rogério Haesbaert descreve como, ao mesmo tempo em que territórios perdem rigidez para os fluxos econômicos (desterritorialização), voltam a se reterritorializar por meio de novos controles, como muros e barreiras migratórias — daí o termo "novos muros" citado no título da obra.
- Fronteira como filtro seletivo: no capitalismo globalizado, a fronteira não desaparece; ela se torna seletiva, permitindo passagem livre a capitais e mercadorias (livre mercado) enquanto se fecha ou dificulta a entrada de pessoas, sobretudo migrantes e refugiados — fenômeno visível em muros como o EUA-México, as barreiras na fronteira da União Europeia e o Brexit.
- Paradoxo geográfico contemporâneo: a convivência, no mesmo sistema-mundo, de uma lógica de abertura (econômica, financeira, informacional) com uma lógica de fechamento (política, migratória, identitária) sobre o mesmo espaço.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "marcado pela fluidez do espaço, as questões ligadas à circulação se tornam ainda mais relevantes" → revela que o texto trata da globalização enquanto processo que intensifica fluxos e circulação — a "abertura" do sistema.
- Evidência 2: "ao lado da fluidez globalizada aparecem também os fechamentos, as tentativas de controle da circulação de pessoas" → revela o segundo polo do paradoxo: mesmo com a fluidez, surgem barreiras que restringem especificamente a circulação de pessoas, não de mercadorias ou capital.
- Síntese: o texto constrói uma oposição entre um processo de abertura ligado aos fluxos econômicos globalizados e um processo de fechamento ligado ao controle de fronteiras para pessoas. A alternativa correta precisa reproduzir exatamente esses dois polos: um termo associado à liberdade de circulação econômica e outro associado à restrição física/política de fronteiras.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o primeiro polo do paradoxo (a fluidez)
O texto de Haesbaert começa afirmando que vivemos em "um mundo... marcado pela fluidez do espaço". Essa fluidez é o resultado direto da globalização econômica: a expansão do livre mercado, a desregulamentação do comércio internacional, a livre circulação de capitais e mercadorias entre países, viabilizada por acordos comerciais, blocos econômicos e avanços logísticos e tecnológicos. Esse é o polo da "abertura" do sistema-mundo.
Subpasso 4.2 — Identificar o segundo polo do paradoxo (o fechamento)
Em seguida, o autor aponta o contraponto: "ao lado da fluidez globalizada aparecem também os fechamentos, as tentativas de controle da circulação de pessoas". Esse fechamento se manifesta concretamente na construção de barreiras fronteiriças — muros, cercas, políticas migratórias restritivas, controles alfandegários e de vistos — erguidos justamente para impedir ou dificultar o deslocamento de pessoas (migrantes, refugiados, trabalhadores) entre territórios, mesmo quando mercadorias e capitais atravessam essas mesmas fronteiras livremente.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando os dois polos identificados — livre mercado (fluidez econômica) de um lado e barreiras fronteiriças (controle da circulação de pessoas) de outro — com as cinco alternativas, apenas a alternativa B reproduz essa exata oposição: "livre mercado e construção de barreiras fronteiriças". As demais alternativas trazem pares que não correspondem ao recorte específico do texto, que é sobre território, fronteiras e circulação — e não sobre transporte, tecnologia da informação, desconcentração industrial ou desigualdade social isoladamente.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) blocos supranacionais e ineficiência do transporte.
❌ Incorreta: blocos supranacionais (como a União Europeia ou o Mercosul) são, na verdade, exemplos de integração e redução de barreiras entre países-membros — não de fechamento. Além disso, "ineficiência do transporte" não é o tema do texto, que fala em controle político de fronteiras, não em problemas logísticos ou de infraestrutura de transporte.
B) livre mercado e construção de barreiras fronteiriças.
✅ Correta: reproduz com precisão os dois polos do paradoxo descrito por Haesbaert. O "livre mercado" corresponde à fluidez globalizada dos fluxos econômicos (capital, mercadorias, finanças), enquanto a "construção de barreiras fronteiriças" corresponde diretamente aos "fechamentos" e às "tentativas de controle da circulação de pessoas" mencionados no texto — exemplificados por muros e políticas migratórias restritivas em diversas partes do mundo.
C) tecnologias da informação e desemprego estrutural.
❌ Incorreta: embora as tecnologias da informação sejam parte da base técnica que viabiliza a fluidez globalizada, o desemprego estrutural é uma consequência da automação e da reestruturação produtiva, não um "fechamento" relacionado ao controle de fronteiras e circulação de pessoas — foge do eixo territorial que o texto discute.
D) desconcentração industrial e concentração de capital.
❌ Incorreta: esse par descreve uma dinâmica da nova divisão internacional do trabalho (indústrias se descentralizando para países periféricos enquanto o capital financeiro se concentra em centros globais), mas não trata de fronteiras nem de controle da circulação de pessoas, que é o cerne do paradoxo apresentado.
E) redução da pobreza e aumento da desigualdade social.
❌ Incorreta: é um paradoxo socioeconômico real da globalização, mas desconectado do recorte territorial do texto — Haesbaert fala especificamente de limites, fronteiras e circulação de pessoas, não da relação entre crescimento econômico e distribuição de renda.
🏆 Gabarito: B — o texto de Haesbaert descreve exatamente a coexistência entre a fluidez do livre mercado globalizado e o simultâneo fortalecimento de barreiras fronteiriças que restringem a circulação de pessoas, paradoxo que só a alternativa B expressa com fidelidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa B contrapõe um elemento de abertura econômica (livre mercado) a um elemento de fechamento territorial (barreiras fronteiriças), que são exatamente os dois polos do paradoxo apresentado no texto de Haesbaert.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o tema "globalização e fronteiras" através de textos de geógrafos como Milton Santos e Rogério Haesbaert, sempre explorando a tensão entre um mundo "sem fronteiras" para o capital e um mundo de muros e controles migratórios cada vez mais rígidos para pessoas — casos como o muro EUA-México, o Brexit e as crises migratórias na Europa e no Mediterrâneo são pano de fundo frequente.
- Generalização: em questões sobre paradoxos da globalização, procure sempre o par que opõe fluxo/abertura (capital, mercadorias, informação) a controle/fechamento (fronteiras, migração, identidade nacional) — esse é o esquema-chave da "desterritorialização seletiva" cobrado nesse tipo de questão.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato qualquer alternativa que não mencione, ainda que indiretamente, fronteiras ou circulação de pessoas (como C, D e E) — o enunciado é explícito ao falar em "limites dos territórios" e "controle da circulação de pessoas", então a resposta correta precisa necessariamente tratar desses dois pontos.
- Conexões: o tema dialoga diretamente com "nova ordem mundial e blocos econômicos" e com "fluxos migratórios internacionais e xenofobia", ambos recorrentes em Geografia e também em Sociologia no ENEM.
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