Mapa de questões · 1º dia
Questão 72 — ENEM 2020 Digital
Certos músicos agradavam tanto ao público da Corte por seu talento especial como virtuose ou como compositor, que sua fama se espraiava para além da Corte local onde estavam empregados, chegando aos mais altos níveis. Eram chamados para tocar nas Cortes dos poderosos, como aconteceu com Mozart; imperadores e reis exprimiam abertamente prazer com sua arte e admiração por suas realizações. Tinham permissão para jantar à mesma mesa — normalmente em troca de uma execução ao piano; muitas vezes se hospedavam em seus palácios quando viajavam e assim conheciam intimamente seu estilo de vida e seu gosto.
ELIAS, N. Mozart, sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995 (adaptado).
Com base no caso descrito, qual elemento histórico do Antigo Regime contrasta com o trânsito de intelectuais e artistas pelas Cortes?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Antigo Regime europeu, formação política dos Estados modernos e sociedade de corte
- ⚡ Nível: Médio — exige transpor um relato sociológico concreto (mobilidade de músicos entre Cortes) para um conceito histórico abstrato (organização do poder político)
- 🎯 Tema/Habilidade: Estrutura política do Antigo Regime na Europa Central; competência de compreender processos de formação e fragmentação dos Estados nacionais
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que característica da organização política do Antigo Regime explica — e ao mesmo tempo contrasta com a imagem de um poder único e centralizado — o fato de artistas circularem livremente entre diversas Cortes?"
- Palavras-chave decisivas: Cortes (no plural), trânsito, contrasta
- Armadilha típica: confundir o tema com "ascensão social" de um plebeu que janta com reis (o que remeteria à rigidez estamental) — mas o enunciado fala de mobilidade entre territórios/centros de poder, não de mobilidade entre classes sociais.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que a existência de várias Cortes autônomas e concorrentes — não uma única Corte nacional centralizada — é o que possibilita esse trânsito, e isso é a marca da fragmentação política característica do Antigo Regime em regiões como o Sacro Império Romano-Germânico.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Antigo Regime: período anterior à Revolução Francesa (séculos XVI-XVIII), marcado por monarquias, sociedade estamental e economia predominantemente agrária, mas com graus muito distintos de centralização política conforme a região.
- Absolutismo x fragmentação política: enquanto França, Espanha e Inglaterra caminhavam para a concentração do poder em torno de um único monarca, o espaço germânico do Sacro Império Romano-Germânico permanecia dividido em centenas de principados, bispados e cidades livres, cada um com soberania própria e sua respectiva Corte.
- Sociedade de corte (Norbert Elias): conceito da obra referenciada — a Corte não era apenas a residência do soberano, mas um sistema de prestígio, etiqueta e disputa por status; cada núcleo de poder, ainda que pequeno, mantinha sua própria vida cortesã, com músicos e artistas como símbolo de distinção.
- Mecenato artístico: no Antigo Regime, músicos e artistas dependiam do patrocínio de nobres e monarcas para sobreviver; não existia mercado de trabalho autônomo — eram "empregados" de uma Corte específica, como o próprio texto relata sobre Mozart.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "sua fama se espraiava para além da Corte local onde estavam empregados" → revela que cada músico estava vinculado a uma entre muitas Cortes existentes, e não a um único centro nacional de poder.
- Evidência 2: "Eram chamados para tocar nas Cortes dos poderosos, como aconteceu com Mozart" → indica pluralidade simultânea de "poderosos" com prerrogativa própria de convocar, hospedar e financiar artistas — sinal direto de poder político disperso, não concentrado.
- Síntese: só é possível existir esse "trânsito" de artistas entre várias Cortes concorrentes se o poder político estiver pulverizado em múltiplos centros autônomos — cada um disputando prestígio ao atrair os melhores talentos. Essa pulverização é exatamente a fragmentação do poder estatal, típica sobretudo do mosaico de territórios do Sacro Império Romano-Germânico.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o caso historicamente
Mozart viveu no século XVIII no espaço germânico do Sacro Império Romano-Germânico, um mosaico de mais de 300 territórios — principados, arcebispados, ducados e cidades livres —, cada um com sua própria nobreza, cerimonial e Corte. Diferente da França de Luís XIV, centralizada em Versalhes sob um único monarca absoluto, o mundo germânico não possuía um centro único de poder político.
Subpasso 4.2 — Interpretar o "trânsito" descrito no texto
O relato de Norbert Elias mostra que um músico talentoso não ficava restrito à Corte onde nascera ou trabalhava: sua fama migrava, ele era convidado a se apresentar em outras Cortes, hospedado por outros soberanos e recebido com honrarias. Isso só é logicamente possível se existirem vários centros de poder autônomos e rivais entre si, cada um buscando atrair para si os artistas mais talentosos como forma de afirmar seu prestígio diante dos demais. Se o poder estivesse concentrado em uma única estrutura estatal centralizada, não haveria essa multiplicidade de Cortes disputando os mesmos nomes.
Subpasso 4.3 — Verificação
Logo, o elemento histórico por trás do fenômeno descrito é a fragmentação do poder político — presente sobretudo no espaço centro-europeu do Antigo Regime —, responsável pela existência simultânea de inúmeras Cortes. Esse traço contrasta com a imagem mais difundida de "Antigo Regime" associada ao modelo absolutista francês, de Estado unificado e centralizado. Confirma-se, assim, a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Rigidez das estruturas sociais.
❌ Incorreta: a divisão em estamentos (clero, nobreza e povo) de fato caracteriza o Antigo Regime, mas o texto não trata de mobilidade social entre estamentos — trata de mobilidade geopolítica de um artista entre diferentes Cortes territoriais. É a armadilha clássica da questão: confundir a esfera da hierarquia social (micro, dentro de uma Corte) com a esfera da organização do poder estatal (macro, entre múltiplas Cortes), que é o que o comando efetivamente pede.
B) Fragmentação do poder estatal.
✅ Correta: a existência de várias Cortes — cada uma um núcleo autônomo de poder político, capaz de empregar, financiar e "importar" artistas de outros territórios — é evidência direta da fragmentação política típica do Antigo Regime em regiões como o Sacro Império Romano-Germânico. É justamente essa pulverização do poder entre inúmeros principados que possibilita o trânsito de músicos de Corte em Corte, contrastando com a ideia usual de um Estado unificado sob um único monarca absoluto.
C) Autonomia de profissionais liberais.
❌ Incorreta: o texto mostra exatamente o oposto — os músicos dependiam do mecenato e do favor dos soberanos, eram "empregados" de uma Corte específica e jantavam à mesa dos poderosos "em troca de uma execução ao piano". Não havia autonomia nem mercado de trabalho independente regido por livre concorrência profissional; essa é uma noção anacrônica para o Antigo Regime.
D) Harmonia das relações interindividuais.
❌ Incorreta: a sociedade de corte descrita por Norbert Elias é marcada por intensa competição, disputa de prestígio e etiqueta rigorosa, não por harmonia. As diferentes Cortes rivalizavam entre si justamente para atrair os melhores talentos como símbolo de status diante das demais — um cenário de disputa, não de relações harmoniosas.
E) Racionalização da administração pública.
❌ Incorreta: a administração do Antigo Regime era patrimonialista e personalista — o poder se confundia com a pessoa do soberano e sua Corte —, e não uma burocracia racional-legal nos moldes weberianos modernos. O próprio fato de um artista ser recebido "à mesma mesa" do monarca por relação pessoal de favor ilustra esse caráter não racionalizado e não impessoal do poder.
🏆 Gabarito: B — a fragmentação do poder estatal, típica do Antigo Regime em regiões como o Sacro Império, é o que explica e contrasta com a multiplicidade de Cortes autônomas pelas quais artistas como Mozart transitavam.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que nomeia corretamente o traço estrutural do poder político do Antigo Regime — sua fragmentação em múltiplos centros autônomos — responsável pela existência de várias Cortes concorrentes capazes de "importar" artistas de fora.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a distinção entre o modelo absolutista francês (centralizador) e a fragmentação política do espaço germânico e italiano no Antigo Regime, frequentemente usando fontes de sociologia histórica — como a obra de Norbert Elias sobre a sociedade de corte — como gatilho de leitura interpretativa.
- Generalização: sempre que o enunciado mencionar movimentação de indivíduos entre "Cortes" ou "Estados" no plural, em textos sobre o Antigo Regime europeu, pense em fragmentação/pluralidade do poder político, e não em características internas de uma única corte (etiqueta, hierarquia social).
- Dica de eliminação rápida: elimine de saída alternativas que descrevem traços tipicamente modernos e racionais, como burocracia racional-legal (E) ou autonomia de profissionais liberais (C) — são anacrônicos para o Antigo Regime. Elimine D por contradizer a própria essência da "sociedade de corte" de Elias, centrada em disputa e vaidade, não em harmonia.
- Conexões: processo de fragmentação política do Sacro Império Romano-Germânico e sua posterior superação pelas unificações alemã e italiana no século XIX; conceito de "sociedade de corte" (Hofgesellschaft) de Norbert Elias como ferramenta de análise da cultura política do Antigo Regime.
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